As cálidas águas da Catembe


 

Catembe...


No regresso a Moçambique, 1988/'91


(...) Estávamos em Dezembro, um Dezembro quentíssimo como todos os dezembros sob os trópicos e em que a redoma celeste parecia derreter e tombar em difusa luz cegante, dissolver cimento e alcatrão em ondulantes e tremeluzentes colunas de calor.
Naquele Sábado decidira ir à Catembe. Combinara há dias com uma das namoradinhas, a Dilma, a minha 'Nº 3' do lote aberto desde que viera de Nampula. Apanhamos a lancha-suicida - vai cheia, como sempre, a popa onde nos sentamos quase a bordejar a água, deixando ouvir um tchap-tchap-tchap monótono.
Mamanas carregadas de cestos, fruta, volumes diversos, sobrecarregam o pobre barquinho. "Se isto vai ao fundo... - penso - por mim okay, sei nadar porreiramente, e a Dilma... a Dilma também, além de ter aquele par de belos e cheios 'flutuadores'! Não há-de ser nada!"


Em meia hora chegamos à outra margem. O mesmo velho pontão de atracagem. A mesma fiada de casas de pescadores sobre estacarias ali há décadas, como se mirando a quietude desta baía-lagoa, costas viradas para os mangais, para o Língamo, e lá mais ao fundo para os contrafortes dos Libombos.
Rápido apontamos bússola ao 'Diogo'. A Dilma vai dando pequenos passinhos saltitantes, eu até abrando a minha marcha para nos mantermos a par, seguimos abraçados a maior parte do caminho. É uma moça meiguinha, bem rechonchudinha e de cabelo curto encaracolado, clarinha, e uma senhorita séria com a cabeça no sítio, não é dessas que andam para aí a abrir com qualquer um.
Mais à beira-mar, molhando os pés, lá continuamos de mão dada, passeio entrecortado por um abraço estreito e tremente ocasional, um beijo longo e húmido em que mutuamente nos acariciamos. Conseguimos mesmo assim ir progredindo e chegar às casuarinas, aos eucaliptos e pinheiral do Diogo, onde matamos a sede e acalmamos a fome abancados frente a pratos de camarões.
É! Quer provocar-me esta Dilma: um fio de cerveja gelada pinga, escorre-lhe - e ela deixa! - sobre os seios, entre o vale pronunciado, na fundura que dorme entre aqueles dois montes carnosos! E voluptuosa, sensualmente, mete mais um camarão à boca, olhando-me, sem ligar ao fio refrescante que a molha.


A tarde avança preguiçosa e quente, inebriante, até que nos vamos banhar. Não, não é em frente ao Diogo desta vez. Deixamos para trás os pescadores, os barquinhos de vela triangular clara que voam ou balouçam hipnoticamente sobre a vaga pequena entre o Diogo e o pontão do ferry. Vamos mais para a direita umas centenas de metros lá onde não se topa vivalma. A praia é nossa, o mundo é nosso... Qualquer coisa habitada, só no perfil de Maputo a diluir-se na lonjura ou no voo curvo de um Boeing fazendo-se à pista.
É vistoso e erótico o bikini dela, um vermelho que salta naquele cenário balsâmico, um delta apertadinho, pequeníssimo, tanto para os flutuadores como para as pernocas e as 'partes vitais'... Estou sentado mesmo na orla, nesta fronteira mutante entre o dourado e o azul espumoso, a água morna a molhar-me pernas, barriga. Ela ainda em pé agitando-me junto à face - bem à altura do rosto - as partes apetecíveis que o vermelho quase não cobre, e reparo naquele umbigo, uma buzininha saliente, e quando a puxo para mim não resisto, é para tocá-lo, premir, empurrá-lo para dentro com a língua marota.
E ela ri-se, rajada cristalina, o único som que corta o silêncio, rematado só, em fundo, pelo marulhar suave. Como que reflecte a cidade, o corpo castanho claro, dourado e brilhante, o dela, banhado já nas águas e no esplendor desta tarde luminosa. Emoldura-se pelo verde que à esquerda se desdobra para poente na direcção da vila e do ferry... Mexe-se e retorce-se, o pano desliza, quer fugir, parece ganhar vida própria sobre as curvas cheias, pouco tapa já de carne este fatinho de banho vermelho vivo, simples película que mais não esconde que os biquinhos dos seios fartos e este triângulo fatal. Parece rebentar com força de carne que explode, esta ténue faixa encarnada sobre a pele dela, que insiste em roubar reflexos fantásticos a este fim de tarde.

Em gesto malandro puxo-a por uma das pernas para a fazer baixar-se ao meu lado na fronteira entre a areia branca e as águas azul-esverdeadas desta mansa baía. Pequeninas ondas vêm marulhando cumprimentá-la, afagar e lamber o vértice inferior do triângulo escuro no meio das coxas que a peça de tecido parece só pintar... Adivinha-se, vê-se-lhe o vinco agora à transparência.
Mais acima os mamilos saltam, rebentam viçosos e ela, vencida, desata a peça superior oferecendo-me tudo, que agarro, sorvo, chupo toda esta carne roliça. Mas quero mais, mais... mais abaixo, o umbigo de novo, e ali, deitando-a de costas, escorrendo por ela abaixo levo a língua com força a enfiar o tecido pelo vinco frontal que parece abrir-se entre pernas, por aquele rego adentro e ela torce-se, rebola na areia e arrasta-me decidida um pouco mais para o largo onde a água nos dá pela cintura.


 

 
 

 


 

E é tão pequena ela, ao lado de mim, mas é a mim que me chama 'pequeno'! e dá-me descanso, abraça-me, anicha-me o rosto, a cabeça... protegida agora entre as paredes dos seus volumosos e tenros seios como abrigos carnudos e que ao meu toque enrijecem-se - só um pouquinho.
Afundo-me nesta macieza segura, agarro-a, pego nela toda ao colo, e só depois é que a trago, assim embalada, para a areia. São belos os curtos cabelos da Dilma desencaracolando-se na testa sobre os seus grandes e ternos olhos castanhos, ternos e salgados, sinto-os, conforme passeio a língua sobre eles, sobre toda ela, dos sensuais flutuadores agora túrgidos até ao pequenino umbigo arrebitado, e me deixo conduzir pelo jeito das suas mãos suaves ao monte de Vénus.
A areia soprada pela brisa traça-lhe minaretes sobre a pele enquanto eu mais abaixo, a língua como trincha viva lhe afago e pinto a saliva este triângulo carnudo, entumecido. Brisa marinha... Maresia... É o cheiro dela, interior, íntimo. Tudo se conjuga num trago inebriante que para sempre associarei à Catembe.
Tomamos banho, água pela barriga, mas logo os calções e fato de banho estão numa perna só, enfiados, ou na mão - que diabo! - atiramos com aquilo para a areia. A Dilma puxa-me para dentro de água, até ao fundo... emergimos, puxa-me para ela, contra ela, para dentro dela. No interior dela! Com jeitinho... Envoltos pela baía morna... isto nunca acontecera! ... sexo ali dentro de água, estas cálidas águas que pouco nos passam da cintura.
A Dilma delira, agarra-se então ao pescoço, e nós quedamo-nos ajoelhados agora, vou penetrando-a mansamente, compassadamente ao ritmo das ondas suaves, e uma vela alva e triangular cruza ao longe insuspeitando o que se desenrola ali naquela calmaria longa onde só pequeninos frémitos se soltam, nos aquecem e arrepiam ao mesmo tempo, até que nos inundamos mais do que a baía consegue.


A Dilma sufoca, suspira, conforme nos espasmos finais a estreito mais ainda e meigamente a trago então e devolvo ao areal quente, onde já sobre ela a acalmo deste estonteante namoro aquático. Ajudo-a a vestir-se e a limpar-se, após, desnorteados, só ao fim de minutos termos dado com as toalhas e recuperado as roupas de banho.
Há tempo ainda para uma passagem breve pelo 'Diogo' para mais algumas cervejas e bifanas, e por volta das dezoito, quase ao pôr do sol, arriscávamo-nos de novo à pequena e ronronante lancha. Faz fresco agora, neste sopro de fim de tarde, e o movimento da embarcação e os salpicos são algo agrestes. Protejo-a, embrulho-a o melhor que posso e ela anicha-se meigamente, suave e mais calma, como quem dorme neste embalo.
 

*


Não nos conseguimos separar assim. A Dilma vem esta noite para o Rovuma. Uma noite cálida e doce em que dormimos com as janelas escancaradas. Uma noite para 'baratas de quatro asas': um adejar ruidoso faz-nos acender a luz e dar com uma baratona ao canto - são bem oito centímetros de bicharoco.
E o nosso namoro não findara com a tarde. A Dilma retoma-me com intensidade redobrada para cima dela, implora para a beijar, 'devorar toda'! Vai ternamente pegando-me nos cabelos, desalinha-os, vai acariciando-me a face e faz-me baixar, abocar-lhe os seios, afagá-la toda. A concha da minha mão desliza-lhe pelas costas e passa-lhe entre as pernas, agarra caracóis pequeninos, aveludados, esguios dedos perscrutam-lhe a macia gruta, o dedo mais longo a enfiar-se maroto, fundo, cada vez mais fundo... a minha outra mão nos seios dela, e com a língua molho-lhe já a marca do umbigo e ela - como esta janela que se dá à noite - abre-se fresca, escancara-se toda, pernas afastadas ao máximo, ronronando, rugindo baixinho, e eu a provocar, a brincar ainda, só com a língua pelo interior das coxas ansiosas, subindo, orbitando primeiro só em volta do ponto fulcral até que em mergulho súbito lhe abocanho esta amêijoa ao mesmo tempo que com um 'plop' retiro o dedo mucoso.
Ah!... Ah!... a maresia, a Catembe! O cheiro íntimo da mulher é um cheiro de mar, a peixe, que acorda desejos dos mais fortes no subconsciente de um homem. O cheiro do princípio do mundo, da Criação. Trimetilamina, é o que dizem os biólogos - no colo do útero, nos peixes, no mar. E perante aquela amêijoa, ostra rosada, aberta e molhada e que salgada se me oferece, mais não posso fazer que devorá-la como me pede, penetrá-la toda com a língua em movimentos frenéticos, doidos, até ela, a Dilma, não ser mais que uma fêmea a saciar-se, relinchando, gritando de prazer em torno deste eixo oral, a apertar-me, cingir-me a cabeça entre as suas coxas frementes, e segurando-me nesse torno de carne, a vir-se em convulsões tetânicas num queixume felino, alto, saciado já, repuxando-me agora inteiro sobre ela até que com o membro pleno de desejo a penetro com ímpeto, docemente depois, e lhe faço renovar o prazer já longo até à langorosa erupção final. Retiro-me dela com cuidado, e há estas gotas, fios, pingos de luar que se desprendem e deixo agora tombar, escorrer sobre ela após o dilúvio que fizera ajuntar ao seu cacimbo morno. Um néctar que recobria já o acesso às profundas desse mar interior que vive sob o seu secreto jardim. (...)