ECOS DA ANTIGA SUMÉRIA

 

A Odisseia da Informação

 

Lisboa 2000

 

 

 

índice

1. Na Terra de Sumer *

2. Homens e Deuses *

3. A Criação *

5. O acontecimento de Babel *

6. ‘Metavírus’ *

7. A Força da Palavra *

8. A Glossolália *

8. Adorando Ninhursag *

9. Descida e 'Ressurreição' *

10. O "antídoto" hebraico *

11. Uma explicação histórica *

12. A manobra Deuteronómica *

13. Um ‘anti-vírus’ viral *

14. O Verbo ‘criador’, protecção e mutações: a Informação é Tudo! *

15. CONCLUSÃO *

APÊNDICE A *

"SNOW CRASH" E GLOSSOLÁLIA *

SNOW CRASH – uma análise ao cyber-romance de Neal Stephenson *

Um Vírus – 3 vectores *

Uma língua pré-Babel *

A derrota de Asherah *

GLOSSOLÁLIA – O FALAR LÍNGUAS *

APÊNDICE B *

TEXTOS GNÓSTICOS – OS OUTROS EVANGELHOS 9; *

 

Tudo terá começado com a leitura de um livro em Paris, no Verão de 1997 - Snow Crash. Tratava-se de uma obra de ficção científica e o tema assaz original: os truques da informação e o seu papel no mundo actual e ao longo dos tempos, ideias-choque para o futuro próximo, produzindo ainda uma análise sobre o poder escondido da linguagem, remontando os exemplos até ao tempo dos sumérios e da sua mitologia.

Para dar corpo às análises apresentadas, o autor escolheu um vírus ao mesmo tempo informático e linguístico, coadjuvado ainda por uma droga e uma igreja pentecostal que reintroduz a prática do "falar línguas" – a glossolália - e que são suportados na sua disseminação por um magnata do software e da comunicação. Snow Crash foi assim um ponto de partida para o meu interesse no estudo da história, cultura e mitologia sumérias, o seu papel em culturas posteriores e a forma como tão dependentes estão o judaísmo e cristianismo das teologias desenvolvidas há milhares de anos na baixa Mesopotâmia por esse povo vindo talvez da montanhas do Cáucaso.

Os textos Snow Crashum vírus neurolinguístico e Glossolália, aqui apresentados em apêndice, são uma análise ao livro de Neal Stephenson e uma colheita de relatos recentes sobre o fenómeno "falar línguas" citado em escritos religiosos.

Ecos da Antiga Suméria, acaba pois por repescar e aprofundar várias das ideias de Snow Crash, nomeadamente algumas das influências na génese do judaísmo e de como a necessidade de uma higiene civilizacional, histórica e biológica, dita opções religiosas.

De formas de filtragem, ou de como se fazem as opções sobre qual informação deve ser escrita e difundida como "a mensagem correcta", fala também Os Textos Gnósticos, que constitui aqui o segundo apêndice, a propósito de um livro agora editado sobre escritos religiosos dos alvores do cristianismo descobertos em 1945 no Egipto.

Num trabalho em separado surgirá Suméria: nas Raízes da Escrita. Não será apenas baseado em conhecimentos transmitidos maioritariamente pelo historiador Samuel Noah Kramer no seu livro From the tablets of Sumer (A História Começa na Suméria) , mas comporta extractos diversos – nomeadamente os poemas épicos. A pesquisa para este texto foi feita também em páginas da Internet e noutras obras listadas.

Quem estuda a história suméria ou babilónica e os escritos bíblicos, não pode tornear o acontecimento descrito como o Dilúvio. Descobertas recentes podem indicar terem sido detectados sinais dessa catástrofe e é isso que se relatará em Vestígios do Dilúvio Bíblico no Mar Negro que irá surgir como apêndice ao Suméria: nas Raízes da Escrita, juntamente com um Glossário.

 

Alguns dos aspectos envolvendo as teorias da informação, na vertente da comunicação humana, poderão ser aflorados numa tentativa de abordagem histórico-religiosa incluindo entre outros o acontecimento Babel. Neste mesmo texto veremos como os habituais conceitos de vírus ou de algo viral podem ser alargados para além do carácter estritamente biológico. Várias pistas possíveis chegam até nós pelos textos bíblicos bem como através de diversas descobertas arqueológicas. Num mesmo cadinho regional - o da antiga Mesopotâmia e áreas vizinhas incluindo a Palestina - fundem-se cultos hebreus yahweísticos e, mais remotos do que estes, mitos e religião suméria e acadiana, (e babilónica e assíria, posteriormente). Daqui vieram muitas das influências para o judaísmo e, mais tarde, claro, para o próprio cristianismo. De passagem, é interessante ainda seguir o percurso de uma das deusas sumérias mais importantes e como foi filtrada a sua presença (numa versão posterior) pelos hebreus.

Na tomada de posição sobre tal filtragem de informação, na construção de um modelo religioso dito correcto, não assumiram somenos importância as necessidades paralelas de uma higiene biológica e histórica na ânsia de sobrevivência e preservação de um certo grupo populacional, neste caso o dos hebreus 1 e do respectivo território. A considerar decisivo teremos também o binómio deserto/água, arrastando consigo as definições de paraíso terreno e que molda assim todo o cenário: por um lado, o deserto, do outro, a fértil extensão do Levante e da Mesopotâmia, aqui com engenhosos sistemas de irrigação, desenvolvidos localmente desde o 6º milénio AC, onde surgiriam até canais a ligar o Tigre e o Eufrates.

1. Na Terra de Sumer

Situemo-nos na Suméria, a Terra de Sumer, no sul do que é hoje território iraquiano, próximo da zona da actual Bassorá. Os habitantes chamam-se a si próprios de cabeças negras. A sua proveniência é misteriosa, e alguns historiadores falam de uma leva inicial de sacerdotes, provenientes das montanhas do Cáucaso. Sabe-se no entanto que a sua língua não era semítica 2 nem pertencia a qualquer dos grupos conhecidos. A sua invenção mais importante: a escrita – informação visual organizada, transmitindo conceitos, em conjuntos de caracteres. Inicialmente, a escrita suméria seria apenas esboços rudimentares como rótulos em vasilhas descrevendo o conteúdo e respectiva quantidade.

Fala-se do estabelecimento dos sumérios pelo menos desde o início do 4º milénio AC quando já se cultivavam e irrigavam as terras. Há a considerar neste espectro regional e temporal, e organizando-nos por estações arqueológicas, a cultura de Halaf (Tell Halaf), cerca do início do 4º milénio, nas zonas de Tell Halaf, Nínive e Samarra. Em cerca de 3500 AC destaca-se mais a que se classifica hoje como época Obeid ou Ubaida, em El-Obeid, Eridu, Uruk, Kish e Ur (esta, no que designamos como Caldeia).

Para o início da análise que se pretende, é mais pertinente o que sucede na região de Uruk e Eridu, com início provável em 3300 AC, no estrato que ficou classificado como o de cultura Uruk. Por volta de 3500 AC, Uruk, no sul da Mesopotâmia, era já um aglomerado de grandes dimensões. Viria a expandir-se até atingir 400 hectares nos séculos seguintes, seis vezes o tamanho original. Deverá ter sido a primeira cidade autêntica do mundo.

Um novo modo de vida nasceria desta concentração de pessoas sem precedente na História. Apesar da fertilidade dos solos aluviais e de um avançado sistema de irrigação, tornou-se necessário importar alimentos de zonas afastadas, pelo que o comércio surgiu como essencial para a sobrevivência da cidade. O impacto do desenvolvimento de Uruk alastrou assim ao longo das rotas comerciais até ao norte da Síria e para leste até ao Irão. Por volta de 3000 AC Uruk ocupava o centro de uma vasta rede de comunidades do Médio Oriente.

O desenvolvimento de Uruk bem como da maior parte da Suméria liga-se mais tarde à posterior instituição da cultura e império acadiano, fundado em 2350 AC pelo rei Sargão. A capital seria em Akkad (Ácade, ou Agade), um pouco a noroeste da Babilónia, sendo esta não apenas a cidade mas toda uma região entre o Tigre e o Eufrates, ao sul da actual Bagdad.

Porquê a ligação Uruk-Akkad? Muitas das histórias e dos mitos sumérios, acabam sendo repescados e transmitidos pelos acadianos.

Temos como exemplo dessa transmissão o épico de Gilgamesh rei de Uruk, e do seu amigo Enkidu, em que o herói, filho de uma deusa e de um homem, parte em busca de um seu antecessor, Ut-Napishtim (isto na versão babilónica), desejando tornar-se imortal, indo até aos confins da Terra. Encontramos já neste mito um paralelismo enorme em relação ao Dilúvio bíblico, descrito muito mais tarde pelos hebreus. Esta catástrofe é narrada na tábua XI da epopeia de Gilgamesh mas além de coincidir com a descrição bíblica reconhece-se facilmente a sua origem suméria.

Um dos heróis dos acontecimento aí relatados é esse Ut-Napishtim, correspondente ao Noé da Bíblia, e que é descrito como o único ser que os deuses haviam resgatado do dilúvio babilónico e conferido a imortalidade. Mas Ut-Napishtim era já por sua vez uma derivação de Ziusudra, o "Noé" sumério.

Em resumo e em termos temporais importa dizer, o auge da civilização suméria é anterior ao pico do período acadiano e a civilização babilónica atinge a sua preponderância numa era posterior - após 1750 AC e terá como baliza final o reinado de Nabucodonosor II a terminar em 582 AC.

2. Homens e Deuses

Não raro, as divindades surgem nas diversas culturas e civilizações, quer sob o mesmo nome, ou com designações diferentes. Alguns dos nomes respeitam apenas a um certo período temporal e outros mudam conforme a região. Não há contudo confronto feroz a nível religioso e pelo contrário, em geral, alguns deuses, deusas e mitos são mutuamente adoptados e aceites, e passam de era para era, de civilização para civilização.

Neste contexto há a realçar os mitos comuns sobre a cosmogonia - a criação do Mundo, o par de divindades sumérias Enki e Ninhursag/Innana a grande Deusa-Mãe (ela será depois a Ishtar e Asherah para os babilónios, assírios, canaanitas e hebreus posteriormente) e, o "rei" dos deuses - ou Céu - An – (ele é Anu para os acadianos) e o seu eventual reflexo mais tarde (como El) entre os hebreus. An (Anu/El) foi especialmente venerado em Uruk. O seu templo aí era chamado de Eanna – a designação suméria do santuário principal de Uruk - a "casa do (deus do) Céu", casa de An. Refira-se que além da Suméria, Acádia e Babilónia, algumas das divindades viriam a ser igualmente veneradas na Assíria, mais ao norte, e com capital em Assur, junto ao curso superior do rio Tigre.

 

Convém notar que por vezes, é dúbia a natureza dos personagens, se apenas deuses imateriais ou, com existência terrena como altos sacerdotes ou governantes deificados. Há casos de uma identificação, uma cumplicidade, entre a personagem divina e alguma figura terrena: temos um exemplo disso com Dumuzi-Tammuz, também o nome de dois reis - Badtibira e Uruk (idêntico ao nome do local). Dumuzi seria também o amante ou "esposo" da divindade Innana e deus de toda a vegetação. A deificação dos reis e sacerdotes foi uma prática sobretudo desde Naram-Sin, rei do período acadiano, até ao fim da 3ª dinastia de Ur. O "deus" Enki, sobre o qual nos debruçaremos adiante, é tido por alguns como tendo sido igualmente um sacerdote máximo da cidade de Eridu

An (Anu/El) , é o deus supremo dos panteões sumério e acadiano 3 e Enki - Ea para os acadianos - é o deus da água e da sabedoria. Porquê a água e o conhecimento interligados? A água é vista não só, mas também, como um veículo principal de transporte de informação. Oposta à dureza, à petrificação, à estática do deserto. Acima de tudo, verifica-se a importância, não apenas da água – um elemento - mas também, a do papel assumido pelos diversos cultos, na criação e dispersão de informação – mesmo biológica, salientando-se o desempenho dos sacerdotes locais ajudados por aquilo a que chamaremos "as bases de dados e de programas"! sumérias, que veremos mais adiante.

3. A Criação

Como de um Universo estático, uniforme, se cria um Mundo bipolar, informação "binária". É este o princípio subjacente a muitas das religiões explicando o começo do Mundo, a "Criação".

O local original – o local de criação do mundo, para os sumérios, é Dilmun. Nos mitos, é um sítio limpo, sem doença ou velhice, mas... sem água! É Enki quem o irriga. O Céu e Terra encontravam-se ainda unidos e o Mundo só é na verdade criado com a separação dos dois. A partir daí, Dilmun prospera em colheitas. Associada a Enki surge a figura poderosa de uma deusa: Ninhursag (Asherah posteriormente para os canaanitas e hebreus). Conhecida por um sem número de outras designações: Innin, Ishtar, será ainda a maternal Ninhursag babilónica, mas aglutina-se aqui com a figura da deusa Inanna (a Ishtar) embora os sumérios antigos distinguissem marcadamente entre Innana e Ninhursag.

Enki e Ninhursag são na lenda duas das figuras que suplantam o chaos e proporcionam a separação do estático. De um mundo unificado passa-se com a criação, a um sistema binário. Enki seria assim também conhecido como Enkur, o senhor de Kur – o oceano primitivo, o chaos que Enki conquistou e domina, subjugando-o, e passando a tomar conta do Apsu ou Abzu, o reino das águas doces profundas. O que é o Caos? Para nós, actualmente, em muitas áreas técnicas que lidam com informação, o caos resume-se àquilo a que pode-se chamar ruído, desordem, entropia 4.

Mas onde ficaria então essa terra Dilmun, associada à Criação? Refira-se que o local inundado por Enki, tem várias interpretações, desde a essencialmente geográfica e associada ao comércio com a Índia a partir do 3º milénio AC. Três países aparecem citados como ligados a contactos comerciais com os sumérios – Dilmun, Magan e Melukha, isto em textos cuneiformes de 2450 AC a 1800 AC.

Dilmun é ainda identificado com as culturas bárbaras de Failaka e do Bahrain, no Golfo Pérsico, e com a parte ocidental do actual Irão, enquanto Melukha é associada com a civilização do Indo ou com a Etiópia. Mais tarde porém, para os hebreus, o local original será designado como Éden – em acádico e sumério significa deserto. Em hebreu, pelo contrário, já indica delícias e voluptuosidades, daí, o jardim de Deus, o paraíso terrestre.

O mito sumério da Criação detalha como Enki irriga Dilmun, e de como nasce a sua filha – dele e de Ninhursag, de nome Ninmu (ou Ninsar, segundo outras transcrições). No início de uma série de relações incestuosas, Enki gera dessa Ninmu uma sua filha-neta, Ninkurra. Dessa filha-neta e amante Ninkurra, gera Uttu, considerada a deusa do estuário. Enki acaba por quebrar este ciclo incestuoso ao comer indevidamente oito plantas criadas por Ninhursag. Ela rogou então uma praga para que Enki adoecesse com oito dos seus órgãos atingidos. Só mais tarde Ninhursag irá dar vida a oito crias divinas, curando Enki. Os oito novos deuses constam do panteão de Dilmun. Quebrado o ciclo de incesto temos agora uma raça de deuses que se reproduzem normalmente...

O que Enki realiza na Criação, para os hebreus é descrito na seguinte forma: " o livramento do povo transforma o deserto em terra de homens, em lago, em fonte, e dá-lhe a tendência para a salvação (IS. LI, 9-12 e EZ. XXIX,3 e XXXII, 2). O monstro denominado Caos, o dragão, é vencido na luz da libertação" ( IS. LI, 9-11).

Outra literatura refere facetas diversas da criação e outra nomenclatura, classificando como Apsu (ou Abzu) o oceano subterrâneo de água doce onde nas suas profundidades passará a habitar Enki, simultaneamente divindade da sabedoria, oposto ao posteriormente designado Tiamat babilónico que é o mar salgado e é igualmente a divindade feminina que personifica as forças caóticas de um mar original de água salgada.

Para os babilónios Tiamat é derrotada por uma outra divindade, Marduk, deus da Babilónia, que divide o seu cadáver como uma concha em duas partes e com elas auxilia na criação do Mundo: água no Céu e água sob a Terra. Nesta versão, o Homem era depois criado a partir do sangue do demónio Kingu, o principal aliado de Tiamat.

Falta explicar um pormenor: Marduk é filho de Enki e é o deus principal da cidade da Babilónia após tomar o lugar de Enlil 5 no panteão local, ao tempo de Hamurábi. Sem atribuições iniciais específicas, adquiriu depois as de outros deuses importantes e passou a ser o deus local da sabedoria, da medicina e da jurisprudência.

Por seu turno, a Bíblia, apresenta no Génesis semelhanças diversas com as lendas sumérias e babilónicas da cosmogonia: ..."no início as trevas cobriam a superfície do abismo e o Espírito de Deus planava sobre as águas"... a água é omnipresente. A água que abole a forma, que purifica, que baptiza, mas rica também em germes, em mais ‘informação’. Tanque de repositório e renovação.

Quanto a Marduk e à sua vitória, os hebreus têm também um paralelismo: Yahweh cria o Universo após a vitória sobre um monstro primordial, o ‘dragão’ Rahab.

 

4. A "Montanha Cósmica"Babilónica

Marduk, protagonista na Criação, aparece-nos também ligado aos zigurates – as célebres torres babilónicas, a mais conhecida delas sendo a de Babel. Eram enormes torres cilíndricas em geral de sete andares, cujo diâmetro diminuía com a altura e eram a base essencial do templo.

A menção que se faz na Bíblia, no Génesis (XI, 1-9) da torre de Babel, refere-se segundo alguns autores, ao zigurate de Etemenanki (o termo significa "casa", fundamento do céu e da terra), pertencente ao templo de Marduk, em Esagil, na Babilónia.

Havia vários nomes para os zigurates: Monte da Casa, Monte das Tempestades, Ligação entre Céu e Terra... O zigurate era considerado uma ‘Montanha Cósmica’, mas também era uma plataforma para a observação astronómica e astrológica, com símbolos cosmológicos gravados no terraço superior. A própria Babilónia comportava vários nomes: Casa da Base do Céu e da Terra, Ligação entre o Céu e a Terra...

O zigurate acabava por funcionar como uma cópia da montanha primordial AnKi (Céu-Terra), presente na cosmogonia suméria, a partir da qual se desenvolverá o processo de Criação.

É ainda na Babilónia "que se fazia a ligação entre a Terra e as regiões inferiores, pois a cidade edificara-se sobre Bâb-Apsi – a porta de Apsu – sendo Apsu parte das águas do caos, o oceano de água doce de Enki, referido no processo de Criação do universo. Há uma analogia entre os hebreus, com o rochedo do Templo de Jerusalém, o qual penetra fundo no Tehôm – o equivalente hebraico ao Apsu. Tal como na Babilónia se tinha a porta de Apsu, o rochedo do Templo de Jerusalém tapava a ‘boca de Tehôm’.

Mas qual o papel, então, de Enki, o pai do Marduk babilónico, na manipulação da sabedoria (da informação), no processo de criação do Mundo e porque se lhe atribui depois a dispersão da linguagem em Babel? Será que isso se reduz ao que aconteceu à linguagem falada ou tinha já tudo a ver com a génese da linguagem escrita e das suas primeiras modificações?

Dada a mais alta importância da água nas práticas mágicas, atribuía-se a Enki o supremo poder de enfeitiçar, o de proferir Nam-Shubs: proferir era realizar. A palavra criava! Detentor da sabedoria máxima, era ele que ensinava aos homens as diferentes artes.

 

Enki era ainda o deus da sabedoria oculta. Identificavam-no também como en ou ensi, um sacerdote-mor, guardião do templo. Pois era aqui, nos templos sumérios, que estavam albergadas as "bases de dados, os programas" as leis e regras dos sumérios, designadas por me.

Havia me para regular a sociedade, para a produção e tarefas várias. Os me eram escritos em placas de argila. Nos mitos observamos que para os sumérios Enki era tido como um criador, o Criador, ao proferir, pelo acto de dizer. Dar o nome é criar a coisa. Onde é que já vimos isto? O livro do Génesis tem decerto aqui outras raízes...!

Logicamente, Enki transmitirá os seus conhecimentos ao filho, Marduk. Os sumérios adoravam Enki. Os babilónios, após o auge e declínio da era suméria, adoravam o seu filho, Marduk. O código de Hamurábi, rei babilónio (1792 AC – 1750 AC), segundo este, havia-lhe sido comunicado directamente por Marduk. Há uma estela representando a entrega, onde se observa uma agulha e uma argola, emblemas do poder real (mas curiosamente, parecidos ao 0 e 1 os dígitos do código binário!).

Não nos desviemos. Voltando a Enki. Ao providenciar a água – rios – margens – argila – placas de barro, Enki dera os meios para a inscrição e propagação futura da informação. Expandir ideias, cultura, civilização, sabedoria.

Até no aspecto biológico as bactérias e fungos, muitas vezes, não gostam de um cenário seco. Como que liofilizam ou limitam-se à forma de esporos, sem actividade. A vinda de água, humidade, terá criado condições para o transporte de informação cultural, mas também, ajudado à dispersão de agentes biológicos.

 

Quanto às placas de argila (como aquela acima mostrada), depois de inscritas eram levadas ao fogo – cozidas, esterilizadas: prolongava-se a existência de informação útil. Tal como "guardar um ficheiro" - Save file!, em informática. Podia-se considerar os me como que uma programação para uma certa actividade: linhas de código, instruções, algoritmos. O conjunto dos me actuava como que todo um sistema operativo e pacote de aplicações. Como que um Windows 2995 antes de Cristo e um Office 2997 AC da sociedade suméria. As placas de argila funcionavam como ‘disquetes’ sumérias – o suporte físico da informação para os dados e programas!

Os me terão sido apenas verbais, de início. Leis orais, rotinas, como dissemos. Havia me para semear, outros para a colheita. Passara-se já, claro, há muito, das cavernas para a agricultura e pastorícia. A sociedade sistematizava-se. Mesmo para a diplomacia ou para o confronto havia me. E para fazer pão, ou manteiga. Os me, tinham até um timing, um tempo certo para serem corridos. O sistema informacional torna-se mais complexo!

 

 

5. O acontecimento de Babel

"Como um jovem (... inexperiente ?)

De pulso paralisado

Como um carro com o eixo partido

Fico imóvel

No leito da angústia gemendo Não!

Solto os meus queixumes

O meus corpo antes gracioso estende-se

Pés travados

Põe-me (...) para a cova

O meu aspecto mudou

À noite já não consigo dormir

A força foi-me destroçada

Enquanto a vida me sugam

O dia radioso em trevas se tornou

Para a sepultura deslizei

Eu, um escritor, que muitas coisas conheci, num torpe me tornei

A minha mão a escrita parou

A boca, o discurso abandonou.

(...)

Meu deus, é a ti quem temo.

Uma carta te escrevi.

De mim tem piedade.

O coração do meu deus - dá-mo de volta.

Estas são as palavras, deixadas por Sin-samuh, um escriba desses tempos, numa carta ao deus Enki, queixando-se já duma confusão na linguagem.

Seria especificamente a palavra falada que foi afectada em Babel? Lamentar-se-ia o escriba das mutações da escrita e via-se às aranhas, perdido, como quem hoje era bom à caneta mas sente-se deslocado num mundo informatizado? Terá o fenómeno divergente linguístico corrido paralelamente, na forma oral e escrita, ou até principalmente na forma escrita?

É que alguns dos mais antigos documentos escritos que se conhecem datam de cerca de 3200 AC e provêm das ruínas de Warka, a antiga Uruk. Inicialmente cada símbolo corresponderia a uma palavra inteira, a uma ideia, mas posteriormente, cada símbolo representava apenas uma sílaba (até que depois se chega a um símbolo para uma letra). Isto levou a – ou foi consequência – de uma mudança de articulação oral? Quanto tempo levou o processo?

Em termos escritos a aventura das combinações, recombinações, permutas, alargava-se. A linguagem, a informação, enriquecia-se. Os símbolos imagens primordiais são progressivamente. Na segunda metade do 3º milénio AC a alteração era tal que quando os caracteres sumérios foram adoptados pelos acadianos (povos que eram de língua semita) para um leigo tornava-se já impossível traçar a sua evolução. Conhecem-se assim três espécies até de caracteres cuneiformes: ideogramas, fonéticos e determinativos.

Que papel concreto joga o tal Enki, como Enki-deus ou na sua versão terrena de En/Ensi, o termo sumério para sacerdote? Seria uma figura "boa" – dentro do relativismo que esta palavra pode encerrar, e "bom" então em que sentido? Porque fez ele Babel acontecer? Ou como se justifica o fenómeno de atribuir tal responsabilidade ao deus-Enki?

 

O mito sumério "O Encanto de Enki" tenta explicar essa confusão:

Era uma vez, não havia cobras, não havia escorpiões

Não havia hienas, não havia leões, não havia cães selvagens, não havia lobos,

Não havia medo nem terror, o Homem não tinha rival.

Era uma vez as terras Shubur e Hamazi, a Suméria de língua harmoniosa, a grande terra das divinas leis dos principados,

Uri, a grande terra que tem tudo o que é próprio,

A terra Martu, que descansa em segurança,

O universo inteiro, o povo em uníssono,

A Enlil numa língua fizeram preces.

Mas então o senhor-pai, o príncipe-pai, o rei-pai,

Enki, o senhor da abundância, cujas ordens eram confiantes

Senhor da Sabedoria que vigia a terra, Senhor dos deuses,

Senhor de Eridu, dotado de sabedoria

Nas suas bocas trocou as palavras, instalou a discórdia,

Na fala do homem que havia sido única.

 

A linguagem suméria antiga estaria mais próxima do hardware e da articulação menos consciente e mais emocional de sons, regulada mais pelo hemisfério direito do cérebro. No caso da programação informática, diríamos, mais próximo da linguagem máquina, do código binário... levando a comparação a estes termos.

A linguagem máquina, o código binário, indo mais fundo, é na prática independente do utilizador. É o mesmo qualquer que seja o equipamento – desde portáteis, a grandes sistemas UNIX, IBMs ou Apples! – passe a analogia. É convergente. De início, programava-se quase em binário puro! Zeros e uns. Mais tarde é que aparece um número extenso de linguagens de programação diferentes, compiladores, interfaces vários entre máquina e utilizador: houve um desenvolvimento a nível do software.

Na linguagem humana o mesmo é verificado por níveis interpostos de intervenção cerebral, conforme o nosso ‘software’ civilizacional cresce mas também a nível de ‘hardware’ desenvolvem-se paralelamente os centros cerebrais neurolinguísticos como o centro de Broca e as funções do hemisfério esquerdo do neo-córtice têm talvez uma maior intervenção. Isto, podemos divagar, não se terá passado apenas em Babel. Só que, os sumérios e babilónios deixaram-no escrito. Esta é a grande diferença.

Mas como explicam os mitos sumério-babilónicos o que aconteceu neste equipamento comunicante, o ser humano, para lá dos seus ouvidos – órgãos de ‘input’ - e da boca – periférico de ‘out put’ - ou da vista, que podemos considerar como órgão de ‘input’ gráfico, de informação visual?

As lendas mesopotâmicas descrevem Enki a lançar um nam-shub, um feitiço, que leva a que em determinado espaço de tempo e local, o que antes era inteligível, em fala ( e/ou escrita ?) deixa de o ser. Vêm-no como que a fazer um curto-circuito às estruturas linguísticas. Ele era um En/Ensi cheio de habilidade, um autêntico ‘hacker’ (como que um pirata informático acedendo a diversos níveis ou a escrever código), a rescrever e a elaborar de raiz novos me. Se Enki existiu em pessoa, terá sido um ‘feiticeiro’ respeitado, alguém com enormes poderes hipnóticos.

 

6. ‘Metavírus’

A sociedade suméria como qualquer sistema informacional mais complexo, criaria os germes capazes da sua própria destruição. Chamemo-lhes metavírus. São como que uma alteração, um baixar das defesas do sistema informacional que abre caminho para os vírus propriamente ditos e não nos referimos com esta palavra apenas aos vírus biológicos. Mas uma imagem disso é o que se passa hoje ao nível humano com o HIV. Não se morre de HIV mas dos vírus/bactérias que vêm o seu caminho facilitado por aquele. Isto é o que ocorre na vertente do sistema de informação biológica do ser humano.

Consideremos pois que os metavírus são gerados pelo próprio sistema de informação por recombinação dos elementos originais - ou trazidos para o hospedeiro fruto de novos contactos que o sistema agora já consegue realizar e antes eram inacessíveis. Isto tudo, decorrente de um crescer da complexidade ao aumentar o número de elementos em interactividade, ou fruto de mutações várias. Informação, civilização podem então ser também sinónimo de infecção.

Mais ainda: ao se dispersar a civilização, ao aumentarem os números de contactos, paralelamente à introdução dos metavírus informacionais nessa civilização, vai ocorrendo paralelamente o crescer de variações biológicas. Teremos mais doenças físicas e psicossomáticas geradas na outra faceta do sistema, o indivíduo. Mas afinal, a crescente complexidade comporta isso mesmo: ‘feed back’ de informação, replicando-se, construindo ou auto-destruindo-se. Um exemplo biológico disso mesmo podem ser as doenças ditas de auto-imunidade como o lúpus eritematoso sistémico ou então o cancro. Mas veremos a seguir o que se pode passar a nível social ou civilizacional.

Há então como dissemos quem compare civilização a infecção e a cultura suméria (e a babilónica e as outras, afinal) a um metavírus, pelo menos a nível da linguística, e ao gerar o sistema rotineiro de armazenamento e execução cíclica dos me – as leis e as regras. Neste caso trata-se de um metavírus civilizacional ao invés de ao nível do ADN como seria numa abordagem de cariz biológico.

Mas tudo é no fim de contas, informação, sua transmissão e processamento, e onde se descortinam regras análogas. Cada me era na altura como que um vírus. Alojado no tecido social. Alojado e replicando-se nos templos e demais elementos sociais sumérios. No mesmo tipo de visão, há hoje quem até considere viral, pelo alojamento nos respectivos hospedeiros e subsequente replicação, um slogan publicitário ou político, uma música que entra e baila sem fim na cabeça, uma frase de cumprimento como "tudo bem!" ou o " ‘tá-se bem! ", ou até toda uma filosofia política ou religiosa, como o marxismo ou o cristianismo, ou uma série de ismos a que nos habituámos...

Porquê viral? Porque é uma replicação inconsciente, sucessiva, sem racionalizar, assumindo-se como rotina superior e de prioridade elevada para o hospedeiro dessa ‘programação’, podendo passar por cima de toda uma outra série de prioridades vitais, infectando e usando constantemente novos hospedeiros para se dispersar.

Um me, um vírus. Replicação oral ou pelas placas de argila. No mito, Enki o feiticeiro-deus sumério da sabedoria torna-se na prática um ‘hacker’ neurolinguístico, rescrevendo novos me, criando novos me, ou intervindo até, jogando com a palavra através dos nam-shubs proferidos (feitiços), alterando as estruturas linguísticas cerebrais.

Enki é descrito por alguns como o primeiro homem moderno, consciente, se é que teve uma existência terrena. Enki vira que se estagnara sempre nos mesmos me. Não se pensava mais, não existia mais criatividade. Havia que recolher, baralhar e dar de novo. Havia que se libertar dessa civilização viral, repetitiva. O tal nam-shub surgirá como um contra-vírus, chamemo-lhe um anti-vírus civilizacional-linguístico. Uma revolução informacional. Este foi o grande papel civilizacional atribuído a Enki nos mitos sumério-babilónicos.

Em resumo, com Babel ocorreu como que uma reprogramação, o corte com fundas estruturas linguísticas do cérebro, resultando no advento de novas línguas sem nada em comum com a linguagem original, tal como o Visual Basic ou o Cobol pouco ou nada têm a ver com o código binário em termos de utilizador.

Não há agora novos me iguais aos antigos. A tradição já não é o que era! Daí os lamentos do escriba descritos anteriormente neste texto. Esqueciam-se já de como faziam as tarefas antes rotineiras. Era preciso racionalizar de novo, reinventar. Em termos de regras, o antigo sistema de me será substituído mais tarde com sucesso, na Babilónia, por um conjunto de leis, o tal código de Hamurábi, em cerca de 1750 aC.

 

7. A Força da Palavra

Aponta-se para o período imediatamente pós-Babel como sendo o do início da religião dita racional, considerando já não só as particularidades físicas, os elementos da Natureza e de locais, mas também o binómio abstracto do Bem e do Mal, questões morais, e o surgimento e reforço de vias monoteístas. Frise-se ainda que as doenças eram vistas por vezes como manifestações de espíritos maus, demónios, sem causa física. Há tendência agora de apontar para efeitos físicos causas físicas, para dimensões imateriais e fenómenos não palpáveis, origens espirituais.

A doença era até amiúde curada através de exorcismos - o uso da força de informação oral, da palavra, sobre o ouvinte. Apresenta-se, a exemplo, a recordação de um exorcismo assírio contra a dor de dentes: "após o (deus) Anu ter feito os Céus, os Céus fizeram a Terra, a Terra os rios, os rios os canais, os canais as lagoas, as lagoas o verme. O verme dirige-se ‘em lágrimas’ às divindades Ea (Enki) e Shamash, e pede alguma coisa de comer para ‘destruir’. Oferecem-lhe frutos mas o verme exige dentes de um ser humano. Respondem-lhe então: "porque tu falaste assim ó verme, possa Ea partir-te com a sua mão poderosa!"

Tal como os sumérios, os hebreus mais tarde descobrirão a força da linguística, da palavra, a sua revelação. Até um sistema de numeração da palavra, da letra, eles desenvolvem, naquilo que se denominará depois de kabalística. Decerto a sua permanência nas terras da Mesopotâmia não foi estranha a esse processo!

No Egipto, mais a sul, registar-se-á com Amenófis IV (Akenatón) uma reforma religiosa no sentido do monoteísmo. É de notar que os hebreus 6 não eram de todo monoteístas mas monólatras, nesses tempos não desdiziam de todo a existência de outros deuses, mas passariam a adorar apenas um e que englobava o total dos planos físico e abstracto, manifestações materiais e espirituais. Do Egipto aprenderam os ensinamentos da reforma unodeísta de Akenáton – atonismo – um século antes do Êxodo, e que põe a descoberto as possantes correntes de pensamento monista entre os egípcios.

 

8. A Glossolália

Refira-se entretanto que aquilo a que se chama de glossolália, ou balbúcie de assonâncias, disseminada entre os primeiros cristãos, utilizada depois na evangelização de vários povos colonizados pelos europeus e recuperada por algumas igejas actuais, poderá estar próximo de uma linguagem pré-Babel.

A Bíblia dá-nos uma ideia do que é esse tipo de articulação vocal: "sau lasau sau lasau, kau lakau kau lakau", referida em Isaías XXVIII,10-13 ("norma sobre norma norma sobre norma linha sobre linha linha sobre linha...").

Será uma articulação de sons que estará próxima da "linguagem-máquina" humana, da dicção pré-Babel, da linguagem convergente. É um fenómeno no qual a pessoa em êxtase profere sons ininteligíveis e palavras desconexas. Só era decifrável por quem possuía o carisma da interpretação e para os judeus confirmava a presença do espírito divino.

Um dos episódios relatados na Bíblia de glossolália, do falar em línguas, ter-se-ia na descida do Espírito Santo, no Pentecostes, 50 dias após a morte de Cristo. Relata-se o seu uso frequente pelos videntes e num plano acima destes pelos profetas. A ideia do seu uso está em plena recuperação no seio de uma série de correntes evangélicas e revivalistas 7.

 

9. Adorando Ninhursag

Voltando aos mitos sumérios, e em suma, Enki terá funcionado então como um ‘hacker’, um pirata, contra um antigo sistema linguístico unívoco. Na lenda, Ninhursag (Asherah) é citada como sendo companheira de Enki num período posterior. Mas ela foi originalmente a esposa de El (o ‘rei’ dos deuses - ou Céu - e correspondente ao Yahweh hebraico).

No período babilónico há como que uma unificação dos papéis de Ninhursag (deusa maternal) com o de Inanna (deusa da fecundidade) dando origem à Ishtar. Na designação de Innana ela é amante igualmente de Dumuzi-Tammuz, o deus da vegetação. Inanna é ainda citada como a equivalente a Dione ou Rhea – para os gregos - e entre os canaanitas seria conhecida por vezes como Tannit, ou Hawwa ... Eva! Para os acadianos - tal como seria para os babilónicos - ela é já a Ishtar, ou Esther.

Quanto ao nome Tannit parece ter significado a da serpente. Na Idade do Bronze o epíteto dela havia sido Dat Batni, o mesmo usado por vezes entre os sumérios que a conheceram também por Nintu (a dama que dava à luz) além de Ninhursag (a Senhora da Montanha) – embora aqui muitos escritos apontem como já se disse para divindades distintas entre os antigos sumérios, separando a deusa maternal da deusa do amor e da fecundidade. Há quem a identifique com a deusa da caça Allat (ou Elat e também deusa da guerra, provavelmente de origem árabe), equivalente a Diana e, mais tarde, com a Afrodite grega. Outras correspondências foram feitas, no plano astral, com o planeta Vénus – a Estrela da Manhã, mas ela surge-nos igualmente como a Senhora do Céu (Innin) e a Dama Majestosa (Ninmah). Em ugarítico ela era Atiratu Yammi - a que cavalga o dragão marinho. Yam é o caos, um mar primordial relatado na cosmogonia canaanita e hebraica.

Algumas das traduções portuguesas referem-se a ela como sendo num período posterior a Astarte ou Asera, Asherah e Astoreth, síria e também fenícia, hebraica, persa, etc. Um dos símbolos de Asherah era o de uma ou duas serpentes enroladas numa árvore. O caduceu, símbolo de salvação de origem suméria, era precisamente constituído por uma vara ou um tronco envolvido por uma ou duas serpentes entrelaçadas, aparecendo o mesmo motivo na glíptica – a arte dos selos cilíndricos oficiais. Como explicar então, a existência de tantos nomes para uma mesma referência? Tal não é de estranhar se atendermos também à diversidade de designações actualmente utilizada pelas igrejas, no que diz respeito a Deus, Cristo, à Virgem ou mesmo ao Diabo. Só em Portugal, quantas qualificações diferentes existem para a "Nossa Senhora"?

Como associada a Enki (irmã, companheira, amante) Innana – divindade boa e bela é descrita como a rainha de todos os grandes me. Um dos contos a ela ligados relata como é ela que opera a transmissão das leis ao mundo, e fala da renovação, o renascimento anual da natureza. Innana foi a Apzu, a fortaleza de água de Eridu, onde Enki tinha os me. Enki, embriagado, deu-os a ela. É ela quem os precipita na civilização.

10. Descida e 'Ressurreição'

Um excerto do mito explicará a renovação, o ciclo anual da natureza, afinal o timing para correr os diversos me: já na posse dos me ela, Innana, entra na terra do não-retorno. Passa pelo mundo do nada e chega ao templo de Ereshkigal, a deusa da morte, embora vá disfarçada. Ereshkigal é também chamada de "Senhora da terra grande" e era ‘esposa’ de Nergal, o deus sumério dos infernos.

Nergal, divindade terrível das epidemias e guerras, compartilha com Ereshkigal o domínio do mundo subterrâneo. Innana entra e é logo descoberta. Tiram-lhe as roupas, jóias, os me, e é conduzida perante Ereshkigal e os sete juízes do mundo subterrâneo.

Torturam-lhe o espírito e matam-na com o olhar. Innana é dependurada na parede. Desistira. Largava tudo o que conseguira em vida, excepto o seu desejo de renascer. Pela jornada do sub-mundo aprendia agora os poderes e os mistérios da morte e do renascimento.

Cá fora o seu mensageiro esperaria três dias e foi então aos deuses clamar por ajuda. Só Enki atendeu. Criou duas criaturas e enviou-as à terra do nada para salvar Innana. Através da magia delas, Innana é trazida de novo à vida, seguida por uma legião vinda dos mortos.

 

O culto a Ninhursag-Inanna (Ishtar, Asherah) ou às suas outras múltiplas faces e designações foi dos mais poderosos nessa época, chegando a ser adorada por povos da Pérsia e Índia à Espanha, e desde antes de 2000 AC a períodos jà dentro da era cristã, à excepção dos hebreus que só a adoraram, praticamente, até às reformas religiosas de Ezequias e Josiah. Eles eram monoteístas, ou antes, monolatristas, como se disse atrás.

Não negavam a existência de outros deuses, mas doravante era pressuposto só adorarem Yahweh. Asherah fora venerada também por eles, e inclusive como consorte de Yahweh (o correspondente a El ao An/Anu sumério-acadiano). Na Bíblia, actualmente, Deus não tem consorte... Primitivamente, ainda não existia a Bíblia e o judaísmo não passava de uma colecção solta de cultos yahweísticos. Quem decidiu então retirar Asherah - a ‘mulher’ de Deus - do judaísmo?

 

 

11. O "antídoto" hebraico

A retirada de Asherah como consorte de Yahweh terá sido efectuada nos termos de uma alegoria político-religiosa mais complexa engendrada pelos Deuteronómicos, que além de editarem e compilarem os livros anteriores ao seu (e o Deuteronómio inclusivé) ‘mexeram’ sensivelmente no Génesis efectuando algum trabalho autoral. O Génesis fora escrito ou refere-se a factos de antes de 900 AC, muito antes dos Deuteronómicos. Mas eles mudaram-no quando tomaram conta da edição e até alturas do exílio. Rescreveram o mito. Eva – também Hawwa - (a lembrança/referência a Ninhursag-Innana-Ishtar-Asherah) induz Adão, o "primeiro Homem" - igualmente designando toda a Humanidade - a provar do fruto proibido, da árvore do conhecimento, do Bem e do Mal. É esta uma parte da explicação inicial que introduz e reforça nos hebreus o conceito abstracto do Bem e do Mal. Mas Adão no seu jardim tornar-se-ia uma parábola ao rei no seu santuário, uma explicação e aviso sobre a queda do rei Hosea que governou no reino do norte - Israel - com capital em Samaria, até à conquista feito por Sargão II da Assíria em 721 aC. O aviso era endereçado sobretudo ao rei de Judá, o reino sobrevivente mais a sul, para que não cometesse erros idênticos 8.

O Éden descrito seria pois o estado em que o rei se encontrava anterior à conquista. A expulsão (do Paraíso) que se seguiu, para as terras mais difíceis, serviria então como parábola à deportação maciça sofrida pelos israelitas para a Assíria, na sequência da vitória de Sargão II. Era o ‘castigo’. O rei, e Israel, foram desviados da rectidão ao reincidir ciclicamente na adoração associada a Asherah, o culto da serpente. A veneração a Asherah perdera-os. O que é um facto é que o culto a Asherah recrudescia sempre em épocas de prosperidade, voltando-se os hebreus para o Yahweh dos profetas em alturas difíceis.

 

 

12. Uma explicação histórica

Os historiadores confirmam que as primeiras sociedades e religiões eram essencialmente matriarcais, os reis eram sacrificados e a Lua era até considerada como controlando o Sol. Há alguns milhares de anos atrás, essas civilizações regidas pela adoração a deusas ligadas à Terra foram sendo destruídas progressivamente no rescaldo da invasão por tribos indo-europeias agressivas que adoravam deuses celestes agressivos, castigadores, perdendo o elemento feminino o seu sentido de sagrado.

Estas novas religiões apontavam para um monoteísmo crescente (como se verificou com o Judaísmo, Cristianismo e mais tarde com o Islamismo), com um único deus masculino, e que começa a tomar forma a pouco e pouco desde a Idade do Ferro quando os homens tomam o domínio das sociedades tanto na Europa como no Médio Oriente.

Alguns dos precursores do cristianismo nascente chegarão a argumentar que a mulher não tem alma. As culturas orientadas para a adoração a deusas tendiam a ser igualitárias, centradas no elemento Terra e não-violentas. Muitas dessas religiões usaram a serpente representando o conhecimento, sabedoria, a cura, ou uma dupla serpente como união cósmica (exemplo do caduceu de origem suméria), como deusa suprema mas com qualidades andróginas capaz de criação sem a intervenção de um parceiro masculino.

Na antiga Suméria, hoje considerada o berço da civilização, havia quatro deuses principais representando o Céu, Ar, Água e a Terra. Ki (Ninki, e mais tarde Ninhursag e tantos outros nomes) era a deusa da Terra representada também por uma dupla serpente. An era o deus do Céu, Enlil o deus do Ar e Enki o deus da água e da sabedoria oculta.

Logo a seguir vinham outras três divindades principais relativas à Lua: Nanna/Sin – o "pai", a Lua propriamente dita, Utu (o Sol, como "filho") e a "filha", Inanna, relativa ao planeta Vénus, Ishtar na Mesopotâmia, considerada mais tarde como "rainha dos Céus" e deusa do amor, da procriação e da guerra. Nos templos, os rituais eram conduzidos por "prostitutas sagradas", eunucos, sacerdotisas e sacerdotes, cantores e músicos.

No meio de toda esta mitologia evolui outra figura, Lilith, uma descendente do "Dragão/Rainha da Criação" Tiamat das lendas babilónicas e hebraicas (e também derivada já de mitos sumérios) relacionada depois como demónio das tempestades e da noite. Ela é tida nos escritos hebraicos como, de facto, a primeira mulher de Adão, figurando depois como uma madrasta perversa, um outro aviso, na mitologia judaica, sendo vista também como um succubus, e na Babilónia e Suméria como raptora e destruidora de crianças (Lamashtu). Por outro lado ela desenvolver-se-á na Matrioshka russa representando a continuidade da vida – simbolizada nos conjuntos de bonecas anichadas umas dentro das outras.

A lenda judaica conta que Lilith foi criada a partir da Terra tal como Adão mas que se terá escusado a obedecer-lhe tendo fugido. Os mesmos escritos hebraicos antigos falam no nome Adam Kadmon como sendo o Homem Primordial, o Adão anterior à separação de Eva do seu corpo, sendo ele ainda nessa altura macho e fêmea.

A Lilith dão-na mesmo como amiga de Eva, secretamente, e que na verdade seriam as suas filhas as esposas de Caim e Abel. Outros escritores falam porém que Caim e Abel teriam irmãs gémeas – Luluwa e Aklemia, e que Seth tinha também uma irmã, Noraia. De Lilith surgirá também a figura de Matronit, outra das designações da consorte de Jeová.

Jeová/Yawoeh é uma forma de YHWH o tetragrama que originalmente representava a Sagrada Família (Celeste): Y (El) – o "pai"; H (Asherah) – a "mãe"; W (He) – o "filho" e H (Anath) – a "filha". Esta representação evolui: na Pérsia, Anath (Anahita) era a rainha dos Céus e o seu irmão He era o rei dos Céus. Ele (He) e o seu pai (El) fundem-se e tornam-se Jeová. Mais tarde Asherah (também Ashtoreth) e Anath fundem-se e tornam-se a consorte de Jeová com as designações de Shekinah, e Matronit segundo outras fontes.

De notar que o culto como Shekinah espalhou-se também para Ocidente sendo ela adorada pelos Celtas junto aos dolmens. Em Jerusalém, a parte central do Templo de Salomão representou em várias eras o útero de Ashtoreth/Asherah.

 

As deusas relacionadas com a Criação (e com a mãe-Terra) acabariam também por aparecer ligadas à Lua, e assim por razões óbvias, ao relacionamento com os ciclos de marés e da água, e até aos cavalos, pela analogia dos quartos da Lua com as marcas dos cascos!

 

Além da adoração a Asherah persistia o culto a Baal, que significava o ‘Senhor do respectivo lugar’, um dos nomes de ‘deus’ adoptados pelos hebreus em Canaãn. Belzebú, um dos nomes que designa o Diabo, derivará precisamente de Baal Zebu - o Senhor (ou deus) das Moscas.

Além de Yahweh e Baal, outros nomes atribuídos à Divindade eram Elyon – Deus altíssimo, e Elohim – divindade. Os hebreus denominam-se ainda como Bené Israel – os filhos de Israel. O significado de Israel? El é uma das raízes de "deus". Israel parecerá significar ‘o que venceu em Deus’, aquele que ‘persevera em Deus’, enquanto Yehudi (judeu) se referirá a ‘louvar’, ‘exaltar’. A palavra deus, dieu, diêus, propriamente dita, terá porém uma raiz indo-europeia, derivando de dyaus, uma divindade indiana do Céu.

13. A manobra Deuteronómica

Voltando ao Paraíso... Pois bem, os Deuteronómicos retomam a história Adão e Eva e brandem-na como aviso - conforme já se disse atrás - aos líderes do reino do sul, Judá, com capital em Jerusalém. Um aviso, sobre ligações perigosas, casamentos inconvenientes.

Tal aviso surge na sequência das ligações com as cidades-estado fenícias, reis da Síria e da costa, que abriam regularmente a porta às influências religiosas e culturais dos povos de Canaãn sobre Israel e Judá. Sobre Israel, uma das causas havia sido até o casamento do rei hebreu Acab com Jezabel, filha do rei de Tiro, e então o Baal tírio é adorado nesse período na corte de Samaria.

Quando o rei assírio Sargão II acaba por conquistar Samaria, a capital do reino do norte, os hebreus aí residentes debandam para sul, para Jerusalém, capital do reino de Judá. Expandiu-se Jerusalém e os hebreus divergem agora para Oeste, Sul e Leste.

A escola deuteronómica tenta encorpar as atitudes mais nacionalistas e patrióticas nas escrituras (pureza, higiene informacional histórica), rescrevendo e reorganizando os antigos contos e incentivando a sua replicação. Manipulando. Como?

Moisés e outros acreditavam ser o Jordão a fronteira de Israel, mas os Deuteronómicos insistiam agora em incluir a Transjordânia. Uma tentação de expandir para leste. A lei pré-deuteronómica nada dizia também sobre um monarca, mas as leis estabelecidas por esta escola reflectiam já um sistema monárquico e ocupado/preocupado com a educação do rei e do seu povo. A lei e regras anteriores haviam-se debruçado mais sobre questões sagradas no geral.

O significado de Deuteronómicos, acrescente-se, é o daqueles que elaboram as cópias, as replicações, as segundas vias dos textos sagrados. Foram eles os responsáveis pela autoria dos livros Deuteronómio, Joshua, Juízes, Samuel e Reis – além da revisão dos livros anteriores desde o Génesis.

Essa gente era nacionalista, monárquica, centralizadora. Funcionaram como uma ala avançada dos fariseus, a classe mais tradicional da sociedade hebraica. Entre os hebreus da época havia ainda que contar com outros grupos sociais, avultando entre eles os saduceus, mais materialistas, e os essenas, os quais aparecerão depois relacionados a Jesus Cristo, mais comunais e até ‘ecologistas’, se é que podemos usar aqui tal termo.

Pois bem, os Deuteronómicos centralizam agora a religião no Templo de Jerusalém, procurando destruir os centros de culto exteriores.

O próprio livro Deuteronómio é o que se refere a uma Tora escrita, compreendendo um ‘desejo divino’ de o rei no trono rescrever para si próprio num livro (re-infectar-se com informação) "a cópia desta lei".

O monarca deverá efectuar a leitura diária dos textos sagrados, sob controle dos sacerdotes levíticos e temer o senhor seu Deus.

Os Deuteronómicos podem ser considerados ainda como os cronistas da monarquia.

A manipulação continua. Deuteronómicos e profetas fazem História. Quando os exércitos assírios de Senaquerib cercam Jerusalém, são assaltados por uma peste dita ‘divina’. Historiadores falam em terem os hebreus infectado propositadamente os ‘castelos de água’ – as cisternas exteriores utilizadas pelos assírios: provocam a dispersão de ‘informação’ nociva, sob a forma de germes. Talvez a primeira guerra biológica! O cerco é levantado, e tudo se passa de acordo com as ‘profecias’ de Isaías!

Após o fim do cerco a Jerusalém, Manassés (687-642) filho do rei Ezequias, anula as reformas religiosas do seu pai. Isaías o profeta é morto.

A adoração a Ishtar (Asherah) – a ‘raínha do Céu’, reaparece em força, com direito a estátua no templo de Jerusalém. Estátua em madeira ou tronco de árvore revestido de túnicas ou panos tecidos pelas mulheres que a cultuavam. A prostituição sagrada recomeça, as mulheres oferecem-se aos fiéis em honra da deusa da fecundidade.

Na verdade a prostituição cultual praticava-se insistentemente e talvez esse seja mesmo um dos aspectos mais marcantes na adoração a esta deusa. Por sua vez, refira-se, as crianças nascidas dessas práticas eram educadas também para o seu serviço. As quedeshas ou hierodulas, prostitutas do culto, sagradas, distinguiam-se porém das zonahs, as vulgares meretrizes. Ao longo de mais de um milénio de adoração a Asherah entre os hebraicos, pouca foi a repressão legal, que às vezes era apenas a interdição do uso do salário da meretriz (ou de cão) na casa do Senhor.

Asherah era venerada essencialmente como deusa da fertilidade e fecundidade. Também os camponeses hebreus, dependendo da fertilidade do solo, prestavam um culto orgíaco à deusa ‘da força e da alegria’, identificada igualmente com a terra maternal e nutritiva.

 

14. Um ‘anti-vírus’ viral

 

Resumindo, os deuteronómicos "codificaram", sistematizaram a religião: tornou-se organizada e auto-replicante, agora também pela escrita. Viral. A Tora mostra-se como um novo vírus civilizacional e o cérebro humano como hospedeiro e retransmissor. Cópias, cópias, cópias..., e mais ainda, era preciso ir à sinagoga lê-las.

Após reformarem o judaísmo, com os Deuteronómicos, em vez de sacrifícios os hebreus passavam a ir à sinagoga para ler O Livro. Se não fossem os Deuteronómicos, os monoteístas do mundo estariam talvez ainda a sacrificar animais e a propagar os seus credos através da tradição oral, ou resvalara-se de novo para Asherah (partilhando seringas numa forma ancestral: re-infectando-se cultual e biologicamente na sua adoração).

 

Então, e a Tora e os outros escritos e tradições judaicas (e mais tarde a própria Bíblia integral, cristã) em que medida seriam um vírus? Um vírus benigno, dizem alguns, conjunto de anti-corpos, uma ‘vacina’, um anti-vírus contra o vírus Asherah, mais maligno este, na troca de fluidos corporais com as prostitutas do culto, pelo que implicava, biologicamente, a sua veneração.

Tudo isto é no entanto muito discutível: é que, os hebreus, com os seus casamentos predominantemente endogâmicos (entre tia e sobrinho, tio e sobrinha ou entre primos, e outros), além obviamente de eventuais doenças infecciosas, ficavam sujeitos ao cruzamento de genes da mesma família. Recruzamento de informação genética, podendo fazer sobressair genes recessivos causadores de doenças e que normalmente não se manifestariam. Não era isto também pernicioso?

 

15. O Verbo ‘criador’, protecção e mutações: a Informação é Tudo

"Eu serei aquele que serei". Uma das dialécticas maiores da Bíblia é o diálogo. O deus dos hebreus é também o verbo. Criou o Universo por meio da palavra, criadora e formadora.

A aventura monoteísta entre os hebreus ganha força quando um homem, Abraão, ‘ouve vozes’, (dentro do cérebro?), acredita e obedece até à insânia, o que o impele até a aceitar a ideia de sacrificar ao deus o próprio filho. Afinal, sacrifícios idênticos aos dos mesopotâmicos! Diálogo veemente, obediência total, enformam esta missão que abre um ciclo histórico em que ainda hoje nos inscrevemos.

Mais tarde, no regresso do exílio os hebreus já haviam abandonado o antigo alfabeto pelo que trazem da Mesopotâmia. Atribuem um valor numérico a cada uma das letras do alfabeto, de forma que os seus escritos são também documentos numerados semelhantes a alguns costumes da Mesopotâmia.

Isto estimula as investigações posteriores dos ditos kabalistas que procuram desvendar ‘o segredo da revelação bíblica’ e estabelecer uma ciência de equivalências numéricas secretas dos textos sagrados, no que seria entendido como uma particularidade da linguagem, no sentido de ‘iniciação do homem a uma verdade mais alta’. Controle da integridade da informação? Código (bits) de paridade, como na Informática? Como exemplo: em hebraico, o total numérico das letras da palavra ehad (unidade) é igual ao total de ahaba (amor) e a soma de unidade e amor equivale à cifra do deus da unidade e do amor YHWH (Yahweh).

À luz ainda da mitologia judaico-cristã pode ser interpretado o fenómeno mais actual do marxismo: Marx retomou um dos grandes mitos do mundo asiático-mediterrânico, o papel redentor do ‘justo’, o ‘eleito’, ‘ungido’ e ‘inocente’, o ‘mensageiro’. No seu tempo, trata-se do proletariado, cujo sofrimento é chamado a mudar o estatuto do mundo.

As sociedades sem classes de Marx e o fim das tensões históricas e sociais, encontram precedente no mito da ‘idade do ouro’ que consoante várias tradições caracteriza o começo e o fim da História.

Marx enriquece ainda mais este mito de toda uma ideologia ‘messiânica’ judeo-cristã: o papel profético e a função que atribui a esse proletariado e, a uma luta final entre o Bem e o Mal, que se aproxima facilmente do conflito apocalíptico entre Cristo e o Anti-Cristo, seguido da vitória do primeiro.

É significativo ainda que Karl Marx retome a esperança judeo-cristã de um fim absoluto da História ao contrário de outros filósofos.

O anti-vírus hebraico transformou-se assim ele próprio numa forma viral escapando ao encapsulado do seu espaço e tempo, assumindo conforme o momento histórico fases endémicas ou epidémicas e metamorfoses várias.

Tal como uma nova proteína na cadeia biológica do ADN, provocando uma mutação a um vírus e dando origem a uma nova estirpe, ou mais alguns bytes acrescentados a um ficheiro informático o podem tornar viral, o factor ‘Cristo’ – afinal efeito e causa - funciona como os raios-cósmicos, os ultravioletas, os raios-X, ou como um qualquer factor químico age habitualmente, isto é, provoca, ‘agride’ o estado presente, e induz à mutação da estirpe inicial.

Neste caso tratou-se do judaísmo, o qual já de si era moldado por algumas ideias sumérias tardias, às quais reagiu criando os seus anti-corpos.

Quer queiramos, quer não, tudo isto é informação, trabalho sobre ficheiros, criação de novas versões, consciente ou inconscientemente. O único requisito é a existência prévia de um ambiente fértil, para que se possa manifestar toda a virulência de uma ideia ou de uma prática. Um hospedeiro aqui, historicamente favorável, proporcionou uma autêntica simbiose.

 

No fundo, a religião estrita, baseada em livro, compilada pelos Deuteronómicos, procurou ‘inocular’ os hebreus contra o ‘vírus’ Asherah e influências análogas, estimulando por outro lado a prática da monogamia.

O judaísmo queria impôr-se como religião de base racional, menos susceptível a "infecções virais" e baseada em registos escritos para evitar a perda de bytes de informação decorrentes da transmissão oral.

A veneração da Tora tornara-se de facto em ‘higiene informacional’ protegendo um certo grupo populacional e impunha-se como uma ‘missão histórica’.

Continuou-se assim um ciclo, marcado com a representação mítica do episódio de Adão e Eva e em que afinal a maçã se assumirá essencialmente como ‘data’ – pedaço de informação! de acesso restrito.n

16. CONCLUSÃO

6.000 anos depois da instalação dos sumérios na Mesopotâmia, 4.000 após Abraão e Hamurábi, 3.000 anos decorridos desde a dinastia de Saul, David e Salomão, e mais de 25 séculos após a escola Deuteronómica se impôr, poucas diferenças encontramos no sentido de aplicação da religião no seu aspecto social:

Primeiro, tenta aproximar-se à realidade social do seu tempo e espaço copiando modelos das estruturas de domínio existentes nessas mesmas sociedades. Conforme a sociedade é mais aberta ou mais centralizada isso corresponde muitas vezes a uma maior diversidade religiosa atribuídas a vários deuses ou, ao invés, a uma sociedade de religiosidade essencialmente monoteísta.

Segundo, mesmo neste caso, afinal, os papéis antes correspondentes às várias divindades continuam a existir, distribuídos por arcanjos, anjos ou santos e 'sagradas famílias' que cumprem as mesmíssimas funções, respeitando embora uma hierarquia diferente.

Terceiro, decorrente do ponto anterior e no caso concreto da divindade feminina mais importante, depois de ser marginalizada por milhares de anos, o papel de Ninhursag ressurge. Ela mais não é do que a "Nossa Senhora", a Virgem Maria, a nova Rainha dos Céus. As últimas posições do Vaticano não deixam dúvidas quanto à breve recuperação de protagonismo desta "Nossa Senhora". A igreja não deixa ficar para trás perante o crescer do feminismo na sociedade. Da "Nossa Senhora" fatimista retrocedendo às sumérias Ninhursag e Inanna vai uma linha praticamente contínua.

Mas ao mesmo tempo, registe-se, salienta-se uma nova preocupação também para com os mais jovens, as crianças. É o escalão etário ainda sem "anti-corpos" face a todo este fenómeno, portanto o mais facilmente "infectável", mais facilmente presa desta organização antiquada, narcotizante e infecto-contagiosa.

Quarto: continua atribuído à classe sacerdotal um papel de bálsamo social, de espalhar a esperança numa salvação messiânica. Marchando quase sempre paralelamente ao poder político e militar, a igreja exige calma, paciência e resignação. Reafirma que a perseverança é necessária. A glória não pertence à existência terrena mas a um mundo futuro, num Paraíso só atingível pela fé. Para dar corpo, difundir e fortalecer esse sentido, daí a necessidade, a obrigação de uma igreja. Ela é simultaneamente garantia para a aplicação desse paliativo social, de manutenção de um status quo, encorpando uma classe social sólida e bem estabelecida, guiando uma instituição, afinal uma empresa, bem gerida, e com sucesso através de milénios.

Quinto: uma análise mais cuidada aos textos bíblicos e às obras não só babilónicas mas de toda a Mesopotâmia, inclusivé desde o tempo dos Sumérios há uns 6.000 anos, facilmente demonstrará que muitas das tais revelações divinas aos patriarcas e profetas há muito que corriam entre os povos mesopotâmicos e que episódios bíblicos marcantes não são mais que um plágio de mitos e lendas com raiz suméria.

Sexto. Seis mil anos mostram afinal que o material humano pensante continua pronto para absorver tudo desde que bem preparado e, quando devidamente manipulada a Informação, consegue-se inibir as protecções e os esquemas de análise racional. Isto é válido tanto para eleger um presidente, vender sabonetes, edificar uma igreja, espalhar uma nova filosofia, fundar um partido, criar um deus. Os hebreus compreenderam bem o papel da palavra, o poder da informação e aplicaram-no 'religiosamente', mesmo à custa de criarem um deus 'terrorista' oposto às divindades maternais protectoras, manipulando doravante a técnica da vitimização e brandindo um messianismo sempre projectado no futuro.

A Informação comporta este risco. Gostamos de ser 'infectados'! É uma tentação. É inevitável. É irresistível. É infalível, com toda a informação a fluir à nossa volta. Um mundo recheado de informação, de mensagens apelativas, ordenadoras, reguladoras, sistematizadoras. Parece termos receptores inatos para a religião, já à espera, em stand-by, desejosos de serem impregnados, e que precisam apenas de ser preenchidos. Só quem tenha "anti-corpos" racionais sólidos terá a "salvação"!

 

Paulo Oliveira – Setembro 1997/Agosto 1999

 

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

 

Sinais do Tempo do Mundo Antigo

Edição "Público"/Dorling Kindersley/Chris Scarre

Lisboa –1998

Tesouros do Museu de Bagdade

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa – 1965

Snow Crash

Neal Stephenson – Bantam Books, New York 1992

A Vida Quotidiano dos Hebreus no Tempo da Bíblia

André Chouraqui

A Religião e o Profano: A Essência das Religiões, Mircea Eliade

O Vale dos Reis, Otto Neubert

A História Começa na Suméria – From the Tablets of Sumer

Samuel Noah Kramer

O Cérebro de Broca, Carl Sagan

A Bíblia

 

 

 

APÊNDICE A

"SNOW CRASH" E GLOSSOLÁLIA

SNOW CRASH – uma análise ao cyber-romance de Neal Stephenson

Snow Crash é sem dúvida um dos livros futuristas mais marcantes dos últimos tempos, infelizmente até agora sem tradução portuguesa. Escrito por Neal Stephenson em 1992 – o mesmo autor do "eco-thriller" Zodiac – é aquilo que se pode designar por novela cyberpunk, na esteira de trabalhos como "Neuromancer" do conhecido William Gibson.

Em termos de cenário, a acção desenrola-se simultaneamente em dois mundos, o real e o Metaverso. Este, mais não é que uma imensa Internet a 3 D, um universo em realidade virtual gerado e interligado por computadores, e onde cada um que esteja ligado a essa rede tem o seu avatar, a sua representação gráfica neste ambiente. Os avatars podem ser escolhidos de entre uma série de formatos pré-concebidos ou ser personalizáveis. Ao contrário da estruturação ainda incipiente da Web actual, o Metaverso é pois um autêntico mundo com cenários a 3 dimensões, onde os avatars - as nossas representações - interagem graficamente.

O que acontece então em Snow Crash, qual é o cerne do romance? Os Estados Unidos estão divididos numa série de condomínios geridos privadamente. No aspecto comercial imperam as "franchises". A antiga administração federal resume-se a Washington D.C. e o seu principal business é feito pelo que resta do FBI – colheita e comercialização de informação, aliás, uma das actividades mais prósperas nessa nova era. A polícia, a justiça, assim como outras funções governamentais e municipais, está tudo devidamente privatizado, algumas nas mãos de "franchises". Até as vias de comunicação.

A Máfia está agora legalizada e é mais uma entre as muitas "franchises" existentes e que dominam esta nova América. A sua área de intervenção maior? O fabrico e a entrega escrupulosamente pontual de pizzas ao domicílio. Para isto não há melhor que a organização do padrinho Uncle Enzo. Indemnizações chorudas são entregues a quem não receba a pizza dentro dos 30 minutos sagrados após o telefonema de encomenda. Um acto com direito a cobertura TV a partir de helicópteros, que começam a pairar como abutres se em algum sítio o ponteiro se aproxima da meia-hora e sem haver pizza à vista!

Hiro Protagonist é o herói. Ele é agora um dos que fazem entregas para Uncle Enzo e quase falha. Vale-lhe a ajuda de uma adolescente, YT. Ela é um modelo do novo tipo de correio: encomendas e cartas sensíveis são levadas pessoalmente por gente em skateboards, jovens em geral, que se atrelam às viaturas por cabos com discos magnéticos na ponta. Já não se confia na rede electrónica para o fluxo de informação sensível. A espionagem, o negócio e tráfico de informação imperam. Hiro e YT combinam partilhar informações e formar uma joint-venture nesta área. Todos tentam conseguir informação que tenha algum valor para ser comercializada, quer isso seja apenas um script, um guião possível para um filme e que interesse a um certo realizador ou produtor. Hiro Protagonist abalado pelo quase falhanço na entrega de pizzas resolve desistir da organização de Uncle Enzo e este está entretanto imensamente agradecido a YT.

Protagonist tem agora tempo para o seu hobby favorito – o treino com uma espada samurai, no mundo real, e combate idêntico no mundo virtual, o Metaverso, a tal Internet em 3D. Para trás fica o Uncle Enzo, as pizzas, e um carro de entregas futurista.

A "franchise" para a qual trabalhava, tal como todas as franchises ou como qualquer cadeia de lojas, regem-se afinal por leis semelhantes, um mesmo código de estratégia, de programação, um mesmo manual de estruturação do negócio: as instruções de execução são como um ADN compilado em livro ou as linhas de programação de uma aplicação informática. Tanto uma franchise como um vírus, por exemplo, e de acordo com o livro, funcionam segundo os mesmos princípios. O que vinga numa situação aplica-se à outra: há que ter um plano de negócio suficientemente ‘virulento’, condensá-lo num manual de instruções – o ADN do negócio – e posicioná-lo numa localização (hospedeiro) fértil, como seja à beira de uma via principal. Esta informação funcional irá crescer, expandir-se, até chocar com os seus limites exteriores, as paredes do organismo ou ambiente.

Como é que Hiro Protagonist fora aterrar nesse negócio de pizzas? Ele foi um programador de topo da principal empresa produtora de software e líder mundial de comunicações, regida por um tal L. Bob Rife. Rife é um texano, fanático, evangelista, um tipo sem escrúpulos e que aspira ao domínio global. A empresa de Bob Rife é que criou o Metaverso. Protagonist foi um dos envolvidos na escrita do código inicial. Enquanto no Metaverso os programadores e a elite giram em torno do The Black Sun, um clube "in", exclusivo, onde se juntam igualmente novos artistas e homens de negócios – aliás, os seus avatars - no mundo real Bob Rife tem um iate e gente, muita gente, à sua volta: o novo iate deste milionário excêntrico é um navio vendido pela armada americana, nada mais nada menos que o porta-aviões Enterprise! É ele o centro de The Raft, uma enorme "jangada" constituída por milhares de navios e embarcações dos mais diversos tipos, ligados por cabos, e que circulam, giram ou derivam pela periferia do Pacífico quase ao sabor das correntes, num ciclo sem fim. Vão tocando em várias terras onde aglutinam mais refugiados para esta gigantesca jangada. Ocasionalmente voltam à costa ocidental americana como agora está prestes a acontecer, aproximando-se da Califórnia.

É a ‘jangada’ que traz assim as novas "injecções" de biomassa. Toda uma nova remessa de indivíduos que vêm abalar uma estabilidade que nunca é muito longa. Estes novos imigrantes, estes bárbaros, além de novos factores culturais, como vêm fazendo, trarão desta vez uma mudança ameaçadora: são eles um dos vectores para a propagação de um sofisticado vírus, o Snow Crash.

 

Um Vírus – 3 vectores

Pergunta-se no livro: afinal de que é que se trata, esse Snow Crash, qual é a ameaça, é um vírus, uma droga, uma religião?

-É tudo isso...! Efectivamente a ameaça de Bob Rife assume três diferentes aspectos. Quer no mundo virtual, o Metaverso, quer no mundo real, os programadores estão a ser postos fora de combate por um vírus informático! Em português, chamamos ‘chuva’ ao fenómeno que é o écran de TV ou um monitor em branco, sem sinal definido. Em inglês, preferem chamar ‘snow’ (neve). A uma avaria do sistema informático, à paragem ou bloqueio de um computador refere-se como ‘crash’. A ideia do livro é que no meio desse caos aparente para os comuns que é um écran com chuva, pode esconder-se uma terrível mensagem-vírus informática que neutraliza, ataca os mecanismos linguísticos no cérebro dos programadores avançados, aqueles que além de poderem trabalhar em linguagens de programação habituais sabem estruturar e interpretar imediatamente instruções em linguagem máquina ou mesmo em código binário. Assim, num écran com chuva, essas imagens caóticas podem ter uma correspondência em binário. São uma imensidão de pontos brancos e pretos funcionando como os 1s e os 0s binários. Podem assim esconder uma mensagem subliminar malévola que assalta os níveis neurolinguísticos dos programadores.

No mundo virtual, aparece no The Black Sun um avatar a desdobrar um papiro e aí surge uma das tais mensagens-‘chuva’. Outro avatar a quem foi mostrada a mensagem ficou literalmente louco, lançando janela fora o avatar de um dos programadores principais e fundador do clube. No mundo real, Hiro Protagonist receberá a notícia do internamento em estado grave de um seu antigo colega programador... Fisicamente, porém, nada de anormal lhe detectam. Encontraram-no em casa, caído, tendo em cima da mesa o computador "notebook" ligado, mas "crashado" – em situação de bloqueio – com o écran a mostrar "chuva"... Acabara de importar do Metaverso um dos ficheiros infectados.

O problema basear-se-á ao nível das estruturas neurolinguísticas e inconscientes mais profundas do cérebro humano. Protagonist começa-se a interessar pelo que está a suceder na comunidade de programadores, sendo auxiliado pela correio YT e, com a morte de um outro conhecido, um investigador privado, recebe novas pistas, um acervo de ficheiros informáticos compilados por esse detective com o nome genérico de Babel - Infocalipse. Tudo parece conduzir a L. Bob Rife e à sua empresa de informática e comunicações, à sua ‘jangada’ – The Raft – que se apresta para trazer a nova carga de biomassa, e ainda, ao recente interesse de Rife em subsidiar escavações arqueológicas no sul do Iraque em zonas com vestígios da antiga cultura suméria.

Nas outras duas vertentes, Bob Rife está envolvido na disseminação do vírus Snow Crash sob diferentes formas: por um lado, existe uma droga que está a ser especialmente difundida entre os programadores informáticos da firma – um produto químico mas cuja fase final de sintetização antes de ser snifado, inalado, pode ser feita recorrendo a um pequeno tubo acoplado a um computador. A terceira forma é efectuada através de uma nova igreja pentecostal também criada com a ajuda de Rife, e que opera como uma autêntica "franchise", a Reverend Wayne’s Pearly Gates. A versão narcótica do vírus será também espalhada entre os crentes da igreja e entre a imensa biomassa – a população de refugiados e potenciais imigrantes – que se aproxima a bordo da ‘jangada’.

Porquê o cuidado na neutralização dos programadores? Rife quer domesticá-los, controlar todo o mundo real e o virtual sem obstáculos e evitar que descubram toda a trama que foi criada e que contra ela possam desenvolver um antídoto. Mas Hiro Protagonist, YT, Uncle Enzo – padrinho da Máfia e dono da Cosa Nostra Pizza Franchise, líderes da Nova Hong Kong – um condomínio de gente oriental, e ainda um ex-latifundiário vietnamita, estão agora todos no mesmo barco para travarem o Snow Crash. Protagonist estuda um ficheiro informático baptizado como Asherah (o nome de uma divindade hebraica, canaanita e assíria, descendente da deusa suméria Inanna) onde estão reunidos alguns dos dados compilados pelo investigador privado abatido no decurso da pesquisa que desenvolvia.

Além deste grupo, HP passará a contar com o apoio de Juanita, também uma antiga colega programadora, e a quem ele põe ao corrente da gravidade da situação. É ela até quem vai chegar primeiro à "jangada" para investigar in loco as possibilidades de neutralização da ameaça.

 

 

Uma língua pré-Babel

Um facto curioso é verificado entretanto: os contaminados, os crentes da nova igreja e também a enorme massa de refugiados, parecem estar todos eles numa Babel, um estado anterior à confusão das linguagens. Todos falam num linguarejar, parecem entoar, falar numa língua primitiva, no que seria o falar línguas bíblico, a chamada glossolália. Isto tem tudo a ver com antigos mitos babilónicos e sumérios, como Hiro Protagonist vem a descobrir no espólio deixado pelo investigador morto. Esse é aliás um dos ângulos do livro, que liga directamente à cultura suméria e ao conceito de Babel.

O Metaverso tem uma ferramenta eficaz que vai ajudar HP, a Library (biblioteca) e um óptimo livreiro, ou antes um bibliotecário - um programa de computador para encaminhar pesquisas e que interage gráfica e oralmente com o utilizador. Asherah, o ficheiro legado a Hiro Protagonist, é então o nome dessa antiga deusa da Mesopotâmia e das terras de Canãan, descendente no tempo da Ninhursag e da Inanna sumérias. O mundo de Ninhursag 9 (e do deus Enlil 10) corresponderá a uma estabilidade mas também a uma estagnação criativa e linguística pré-Babel. Um outro deus sumério, Enki, será aquele que é responsável por lançar na civilização um antídoto, um nam-shub (feitiço) que virá cortar essa estagnação pré-Babel. Segundo o mito, é a Enki que se deve a confusão Babel, o dispersar da linguagem que possibilita um novo salto criativo e civilizacional. Enki tanto era o deus das águas profundas como um deus da sabedoria oculta. Parece, no livro, que cabe a Hiro Protagonist o papel de Enki... O desempenho de Juanita é comparado ao de Inanna, mas apenas na sua mítica Descida aos Infernos, conforme ela irá atrevidamente à ‘jangada’, pois aqui esta Inanna moderna acaba mesmo por ajudar na neutralização do virulento Snow Crash e tal como a referida deusa suméria operará uma ‘ressurreição’.

"In the Pentecostes, the christianism was hijacked by viral influences" – no Pentecostes o cristianismo foi tomado por influências virais (quando, segundo a Bíblia, viram baixar o Espírito Santo 50 dias após a morte de Cristo e todos se entenderam então numa língua comum). Esta e outras frases do género são ditas e explicadas pelo "bibliotecário" do Metaverso, desmontando a teoria da informação e explicando alguns dos fenómenos na génese e desenvolvimento do judaísmo e cristianismo a partir de raízes e mitos da antiga baixa Mesopotâmia, entrecruzando religião, linguagem, e biologia.

É traçada uma relação entre o que acontece com os programadores atingidos (onde por software se destruíram ligações de hardware – biológicas, "desligando" a consciência, o racionalismo) como no caso dos colegas de HP, e a recente divulgação da língua comum balbuciada pela seita pentecostal do Reverendo Wayne, funcionando como regressão neurolinguística a nível social, cortando entre outros alguns dos extractos mais criativos da sociedade, inundando-a ao mesmo tempo com essa biomassa que chega na ‘jangada’ também narcotizada e manipulada, e que pela força também, irá ajudar Rife a tomar o poder.

No meio de um sem número de percalços Hiro Protagonist evolui num cenário em que pontifica o novo rap japonês e os computadores incorporados na roupa, envergáveis, tanto para ligar ao Metaverso com óculos 3 D e som de imersão total, como para investigar, espiolhar o próximo em todas as bandas e frequências – em som, luz visível, infravermelhos, ultravioletas, espectro de rádiofrequência e na banda de 1 milímetro, a faixa das ondas de radar – sabe-se automaticamente se um suspeito vem armado, quantos projécteis tem e respectivo calibre.

A acção desenrola-se essencialmente em Los Angeles e é aqui que HP conhece um dos personagens mais bizarros do enredo e que é tratado como uma "entidade soberana"... pela simples razão de que no side-car da sua mota transporta uma ogiva termonuclear, uma bomba de hidrogénio de 10 megatoneladas. Este tipo volumoso, natural das ilhas Aleutas, passeia o "brinquedo" despreocupadamente, ligado via rádio ao seu corpo – controlando sinais vitais como a pulsação e outros. Ninguém quer ver tal amigo por perto com a mais leve constipação!, senão... bummm! Outro detalhe: o brutamontes adora abrir gente ao meio como se fossem frangos, desde o pescoço às virilhas, com a sua faca afiadíssima, de aresta de vidro especial, apenas com uma molécula de espessura. Foi com esta lâmina que dizimou a tripulação de um submarino russo, de onde trouxe a ogiva atómica.

Antes de abalar em direcção à jangada HP vê como funcionam alguns dos guardas de condomínios: os rat-things são como que uma versão robocop canina, ainda com algumas recordações deixadas pelos implantes de cérebro de cão. Atingem uma velocidade louca e... não esquecem. Têm uma cauda mais extensa que um cão normal, parecendo ratazanas gigantescas, mas de revestimento escamoso, metálico.

 

 

A derrota de Asherah

Protagonist terá que ser então um novo deus Enki, um "hacker" a quebrar a programação do Snow Crash, toda esta imensa hipnose e lavagem cerebral, com um novo nam-shub, um feitiço. Se Bob Rife descobriu alguma coisa nas escavações no sul do Iraque que lhe permitira construir o Snow Crash linguístico, poderá ter também o antídoto... A "jangada" será o palco para um dos últimos actos. A bordo está já Juanita, a antiga colega e ex-namorada de HP. "The Raft" – a jangada – aproxima-se da costa californiana. No Metaverso está prestes a começar um apregoado concerto, num show pleno de efeitos especiais em multimédia e preparado especialmente para programadores.

Antes da aproximação de HP e YT à costa, para se dirigirem à ‘jangada’, a moça é capturada e levada pelo colosso das Aleutas que a mantém cativa a bordo. Tenta então seduzi-la mas desconhece que YT tem instalada nas suas partes íntimas uma dendatta, uma agulha impregnada de um entorpecente contra relações indesejadas. Com o brutamontes adormecido é mais fácil a progressão de HP e YT a bordo, chegando então ao coração desse enorme amontoado de barcos, o porta-aviões Enterprise – o ‘iate’ de L. Bob Rife. Tal como acontece com alguns dos crentes da nova seita, aqui alguns dos subjugados têm como que uma pequena antena implantada num dos lados do crânio. O centro de comunicações do Enterprise será o posto de comando da invasão, o coordenador desta biomassa que chega, de todos os novos fiéis e dos programadores amestrados.

Através de um portátil com telemóvel HP liga-se à rede e no mundo virtual persegue, combate e derrota o avatar de Raven, o homem da mota com side-car. Depois, já no estádio virtual onde se inicia o concerto, desfaz a golpes de samurai o avatar que se aprestava a desenrolar um papiro com o Snow Crash na sua versão informática, binária, perante o olhar de milhares de programadores.

Na ‘jangada’, e após atribulações várias, Juanita, Hiro e YT descobrem a colecção de placas arqueológicas de argila de Bob Rife, desenterradas em Eridu, no sul do Iraque, a antiga cidade suméria do deus Enki. Decifrada a partir das placas a mensagem que servirá de antídoto, o tal nam-shub, o feitiço oral que desligará talvez um input subliminar, e aniquila portanto o Snow Crash linguístico, o sistema de som e de rádio do Enterprise é usado para difundi-lo. A biomassa, os programadores dominados, os fiéis da Pearly Gates estão agora livres. L. Bob Rife, a quem até o que resta do FBI obedecia, está em fuga. Só falta o acerto de contas final, com Rife ‘himself’. Mas para isso estão aí os rat-things, os cães robocop, um deles, muito em especial, que se lembrava – não sabia como – de YT como sua dona... YT recordava-se, claro, do seu antigo cão, atropelado e levado para uma clínica veterinária, onde ‘morrera’.

Ao tentar descolar de Los Angeles International no seu jacto particular, há qualquer coisa que se movimenta a uma velocidade fantástica pela pista, como que uma enorme ratazana quase supersónica, faiscando rente ao chão, que se aproxima e choca com a aeronave... o Lear Jet desintegra-se e com ele o ex-futuro líder mundial.

Que mais adiantar sobre este romance, já considerado como uma obra de culto na nova vaga dita cyberpunk? Neal Stephenson faz um belo jogo em toda uma nova área de conceitos sobre a manipulação e interligação de informação, através de uma série de ideias choque e provocantes, e tenta evidenciar como a tecnologia da informação opera e domina social e individualmente, fazendo ainda como se disse já, um autêntico ‘flash back’ ao que se passou nos alvores da civilização, com os sumérios, e daí até às influências mesopotâmicas antigas na génese do judaísmo e cristianismo.

Há relativamente pouco tempo a TVI apresentou um filme, de produção italiana, Nirvana, que embora baseado na obra de Neal Stephenson pode-se considerar uma adaptação pobre e deturpada, em que ao invés de raízes sumérias para o enredo da história, nos remete para a mitologia e conceitos hindus.

 

GLOSSOLÁLIA – O FALAR LÍNGUAS

As mais recentes manifestações de aproximação à glossolália ou "falar línguas", parecem ter incorporado em algumas das modernas correntes ditas pentecostais e revivalistas. Alguns perguntam-se já sobre se o mundo neste final de século não irá atravessar um novo período místico. Harvey Cox, um americano autor de A Cidade Secular escreveu recentemente (1998) O Regresso de Deus. Para ele, o pentecostismo cristão, que privilegia uma leitura literal da Bíblia e a experiência directa do divino, presente em força nas grandes metrópoles do 3º mundo, vai ser a religião do século XXI.

Crescem paralelamente as correntes carismáticas nas igrejas católica e protestante. Invocam o Espírito Santo, reconhecem nas suas fileiras dons (carismas) de profecia e cura, atribuem enorme importância à oração, à emoção, à dança e ao corpo, e ao falar línguas desconhecidas – glossolália. Parte da análise acima descrita surgiu no jornal português Publico, de 22 de Agosto de 1999, que por sua vez traduzia um artigo do jornal francês Le Monde inserido numa série de textos sobre a história do cristianismo.

Mas em Portugal também, aparecem agora relatos de um reforçar de movimentos carismáticos, pentecostais, e dos fenómenos de glossolália – o falar línguas estranhas. Em oposição à fé branda, uma nova experiência parece estar a surgir em muitas igrejas: palmas, cânticos, um louvor que quase parece um linguarejar com muita alegria. Em Portugal, tal movimento, de inspiração pentecostal, será encorpado por um Renovamento Carismático. "É-se apanhado numa torrente de bem-estar, de calma e felicidade" – referem a um dos jornalistas presentes numa sessão – "não nos preocupamos com aquilo que dizemos, apenas louvamos a Deus com sons" – remata uma das fiéis, coordenadora do movimento português que já existe há uns 25 anos e onde participam alguns padres brasileiros.

Tal como com o padre brasileiro Marcelo Rossi é uma corrente dita carismática. Mas Rossi atingiu já uma enorme projecção mediática. No caso do "Renovamento" existe também uma forte componente teológica. Para alguns crentes poderá ser mais difícil a compreensão da oração das línguas. Por norma, no final de um cântico, a assembleia é envolvida por uma ladainha, um linguarejar de palavras e sons imperceptíveis. Esse é um dos pontos altos da celebração, apesar de incompreendida e contestada por sectores da igreja católica.

Na sessão reportada, e noticiada no mesmo jornal português a que já acima se fez referência, mas na edição de 14 de Novembro de 1999, uma fiel afirmaria que só agora é que conseguiu sentir o dom das línguas: "senti-me bem, iluminada por dentro e imaginei a descida do Espírito Santo".

"São os tempos de louvor que mais transformações interiores provocam nas pessoas, diz um dos dirigentes do Renovamento. São curas interiores". O RCC – Renovamento Carismático Católico – aparentemente é idêntico nas expressões às usadas pelos pentecostais negros afro-americanos (cânticos, muita alegria, palmas, orações repetidas) e a novos movimentos vistos como seitas (onde sobressaem êxtases, expressões de cura, e o falar em línguas estranhas). Em 1976, com um livro – Um Novo Pentecostes? – o cardeal Léon-Joseph Suenens, bispo de Bruxelas, escrevia sobre os carismáticos: "percebe-se um amor filial à igreja, na sua maternidade espiritual, na sua realidade institucional e sacramental. Sem agarrar-se a uma ideologia de direita ou de esquerda, o movimento reúne no seu seio as mais diversas tendências cristãs". Em Portugal serão hoje já uns 50.000 os aderentes.

 

 

 

APÊNDICE B

TEXTOS GNÓSTICOS – OS OUTROS EVANGELHOS

O que entrou e não entrou na compilação da Bíblia? Quem decidiu? Não foi só o Velho Testamento que foi alvo de depuração, feita aí pelos hebreus anteriores a Cristo, nomeadamente pela escola deuteronómica. Fenómenos análogos ocorrem na selecção e edição dos escritos que compõem o Novo Testamento. Como sempre o vencedor escreve a História. Mais um exemplo da frase pode ser talvez deduzido a partir da descoberta efectuada em 1945 no Alto Egipto, em Nag Hammadi, de 52 textos em papiros, traduções em copta de originais gregos, e por acaso salvos nessa altura de destruição.

A existência desses escritos vem reafirmar a existência de uma disputa opondo cristãos seguindo já uma ortodoxia e cristãos gnósticos e os respectivos valores escritos, isto nos alvores do cristianismo. A maior parte dos vestígios dessa polémica havia sido varrida ao longo de séculos pela ortodoxia vencedora. Outros livros sagrados foram mesmo dados como heréticos, nomeadamente, claro, os de origem gnóstica. O auge desta depuração atingir-se-ia com Constantino, aquando da sua conversão ao cristianismo no século IV. A depuração religiosa mais uma vez obedece a ditames políticos. Esta discussão vem agora de novo à baila com a edição recente de um livro sobre o assunto, "Os Evangelhos Gnósticos", como relatava a edição do semanário português "Expresso" de 8 de Outubro de 1999.

O espólio de Nag Hammadi inclui poemas, mitos, excertos filosóficos e instruções místico-iniciáticas, e uma recolha de evangelhos cristãos primitivos, designados como apócrifos (Evangelho de Tomé, Evangelho de Filipe, o Evangelho da Verdade, o Evangelho aos Egípcios) e outros escritos atribuídos a seguidores de Jesus (Livro Secreto de Tiago, Apocalipse de Paulo, Apocalipse de Pedro).

As novas descobertas contrariam uma ideia de que uma harmonia mística reinasse nos séculos I e II. Disse-se antes que havia uma forma simples e pura de fé na igreja cristã primitiva..., que se partilhavam os haveres e respeitava a autoridade dos apóstolos em unanimidade e que, só mais tarde, chegaram as ‘heresias’, a mais temida delas a gnóstica, por ser mais culta e estruturada espiritualmente. Os historiadores concluem agora que já o cristianismo antigo, nascente, seria muito mais diverso do que se pensava antes e que circulariam livremente evangelhos com nada de canónico entre os vários grupos cristãos.

Até ao século II os que se identificavam como cristãos professavam afinal inúmeras crenças e práticas religiosas. O mesmo sucederia depois com as diversas igrejas cristãs, séculos mais tarde, principalmente após a Reforma. Mas cerca de 200 anos DC é que se pode falar numa crescente estruturação e institucionalização em torno de uma hierarquia – bispos, padres, diáconos - do credo e dos quatro evangelhos ‘canónicos’. Começava em ‘low profile’ a caça às bruxas, de tudo quanto caísse fora de um modelo estabelecido. A Igreja, a estrutura de homens, sobrepunha-se ao dogma, à Fé, à busca interior e em conjunto da Verdade... O que era então temido pela ortodoxia, especialmente em relação aos gnósticos?

Quase todas as comunidades gnósticas admitiam a igualdade da mulher e do homem, na sociedade e no culto, chegando a nomear mulheres para padres e bispos. Os gnósticos tentavam dar o testemunho de um ‘ensinamento secreto’ – esotérico – dispensado por Jesus àqueles mais próximos e amadurecidos. Para eles o mistério da Fé, a oração inefável e a revelação do divino pela gnose – auto-conhecimento – são necessários e complementares. E ainda, considerariam supérflua a autoridade e mediação de uma rígida hierarquia eclesiástica "maioritariamente ignorante e sectária, ritualista e depositária da tradição apostólica canónica, mas desprovida de experiência espiritual directa".

Os gnósticos batiam-se também pelo debate teológico contínuo e rejeitavam o conformismo doutrinal. Mais importante: tendiam a considerar todas as doutrinas, mitos e especulações – mesmo não genuinamente cristãs – como sendo também instrumentos de entendimento e aproximações à verdade e não a própria verdade. Por fim, contestavam – porque totalitária – a legitimidade da fórmula um só Deus, uma só Igreja, um só Bispo.

Sobre temas concretos, como no caso da Ressurreição, porque é que a tradição ortodoxa adoptou uma interpretação literal? Pela leitura dos quatro evangelhos canónicos até se vê que embora alguns historiadores do Novo Testamento insistam numa leitura literal, outros dão interpretações diferentes. Mas depois, até Paulo surge a defender a doutrina da Ressurreição como fundamental para a fé cristã (e a mesma doutrina da Ressurreição ia já emparelhar em mitos vários da Europa, entre os quais os celtas, pelo que se mostraria assim favorável a uma aceitação a Ocidente). No entanto, sendo as palavras de Paulo tomadas por vezes como referindo-se a uma ressurreição do corpo, ele ressalva: "digo-lhes irmãos, a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção (o corpo mortal) herdar a incorruptibilidade".

A leitura e interpretação dos evangelhos aceites é contudo um caminho sinuoso e sempre actualizável, entremeado de fé e dúvida que leva constantemente a novas leituras e actualizações. É assim que já em 1999 o Catequismo para Adultos ou A Catequese de Adultos, um conjunto de onze lições editado pela diocese de Lisboa, admite no capítulo "Quem é afinal Jesus?" – que o Jesus da História não é a "História de Jesus", a história que nos aparece nos evangelhos, pois esta história é contada por aqueles que têm fé em Jesus que ressuscitou e que interpretam as suas recordações.

Em declarações recentes na imprensa portuguesa, o biblista Carreira das Neves diz que "verdadeiramente não se sabe nada sobre a infãncia de Jesus" e que "as próprias descrições sobre o seu nascimento são simbólicas". Por outro lado, o Padre Feytor Pinto afirma que "não vê qualquer perigo em divulgar os acrescentos assim feitos aos textos evangélicos, pois resultam das experiências comunitárias dos primeiros cristãos que ao receberem os textos originais quiseram exprimir a sua interpretação sobre a mensagem".

 

 

 

1

ao contrário de outros povos da zona, os hebreus eram ‘pobres’ territorialmente, aproveitando antes os interstícios espaço-temporais entre os sucessivos impérios dominantes vizinhos. O seu capital seria precisamente a diferença, essencialmente a diferença religiosa que protagonizaram

2

consideram-se semíticos os descendentes de Sem, um dos filhos do Noé bíblico

3

Panteão – a representação da genealogia dos deuses

4

em televisão, por exemplo - a transmissão de informação em sinais visuais por ondas radioeléctricas - esse ruído caótico é aquilo a que chamamos chuva; em inglês chamam-lhe snow (neve). Em informática, a desordem pode ser um conjunto aleatório de zeros e uns. Nada melhor para destruir um ficheiro do que reescrevê-lo com um conjunto aleatório de ‘0s’ e ‘1s’. Há programas que fazem isso: tornam um sistema vazio de informação organizada útil. Esse é apenas um dos aspectos do caos.

5

este era um deus dos ventos e da atmosfera já desde o tempo dos Sumérios. Ele é também filho de An – o "rei" dos deuses – e irmão de Enki e fora considerado o protector da cidade de Nippur.

6

no étimo, aquele que passa, que viaja ou, também, os descendentes de Heber, bisneto de Sem ou trineto de Noé, embora haja outras teorias para o étimo da palavra como ’Hapiru’, mercenários, para designar combatentes agitadores, contra o sistema anterior em Canaan

7

consultar em apêndice "Snow Crash" e "Glossolália"

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além da faceta histórica, ao mesmo tempo é efectuada como que uma secundarização ou mesmo culpabilização do feminino, procurando quebrar a ligação ao culto de Asherah. Por último, satisfaz a questão do Bem e do Mal - construindo toda uma estrutura à volta do tema e procedendo à sua sacralização - denotando com isso maiores preocupações morais que, como já se disse, vão crescendo paralelamente a uma racionalização mais elevada e a um reforço das funções do hemisfério esquerdo do neo-córtice cerebral. Estas sobrepõem-se assim às componentes essencialmente emotivas e às funções dos chamados Complexo R (reptiliano) e sistema límbico cerebral.

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a deusa-mãe suméria e babilónica, associada à Terra. O seu nome primordial foi Ki

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deus sumério do ar, da atmosfera