COSMOGONIAS MESOPOTÂMICAS - ESCRITOS E RECORTES DIVERSOS

 

 

CIEL ET ESPACE – Meia-noite nos jardins da Mesopotâmia

Compreendida entre o Tigre e o Eufrates, a Mesopotâmia - hoje território iraquiano - estende-se do Curdistão até ao Golfo Pérsico. No 4º milénio antes de Cristo dois povos - Sumérios e Acadianos - coabitam na sua metade inferior, uma oval de 250 por 100 quilómetros conquistada ao mar à custa dos aluviões dos dois rios. Foi lá que a escrita foi inventada em 3.200 aC. A partir do 2º milénio a cultura Suméria foi tomada pela outra, semita, a Acadiana. A sua língua porém manter-se-á como a usada pelos escribas e as gerações futuras herdarão uma parte do seu panteão - como o caso dos deuses Enki - Ea e Anu.

As grandes cidades mesopotâmicas - Ur, Nippur, Uruk e Eridu - disputarão doravante o poder entre si até aos tempos da Babilónia sob o reinado de Hamurábi. No século XVII aC. Esta cidade torna-se capital de um vasto império (que englobará a Assíria, ao norte) e o seu patrono divino Marduk substituirá no coração dos crentes o antigo Enlil, deus do ar, atmosfera e ventos, do tempo dos Sumérios. Durante séculos a Babilónia bate-se firme contra invasores como os hititas, cassitas e outros elamitas (do oeste iraniano) antes de tombar sob domínio assírio no século VIII aC. Os persas anexam a região no século V aC. E Alexandre o Grande vem a morrer aí em 323 aC. Acaba por ser abandonada pelos seus habitantes cerca de 300 aC.

O Mito da Criação

O cosmos dos mesopotâmicos é uma bolha imensa no mar infinito das águas primordiais. Esta esfera é cortada em duas pelo plano circular da Terra. O inferno situa-se por baixo, constitui um submundo ou mundo inferior e, ao alto, o espaço celeste é balizado pelas constelações.

Quanto à concepção do mundo, pode resumir-se a estas duas palavras: está escrito. Na faustosa Babilónia de há 4.000 anos a lei dos homens era gravada em caracteres cuneiformes, herdados da antiga Suméria, sobre o corpo mole de placas de argila. A dos deuses, essa era registada sobre a enorme massa da criação, no alfabeto complexo e sofisticado dos adivinhos. Bem ou mal, insignificante ou colossal, o menor acontecimento da vida de um homem, nação ou reino, desde o seu nascimento até à morte, era escrito 'preto no branco' pelas divindades.

Segundo o Enuma Elish, o grande poema da criação redigido na Babilónia no fim do 2º milénio antes de Cristo, o destino dos homens estava selado na água. Uma enorme massa líquida e indiferenciada na qual já se encontrava intrínseco o binómio primordial Apsu e Tiamat. O primeiro, masculino, encarnava as águas doces. O segundo, era a água do mar. Muito activos, Apsu e Tiamat engendraram uma quantidade de divindades mais ou menos completas, entre as quais o par Anshar (Céu) e Kishar. (Terra). As mesmas vão gerar Anu ou An (o deus dos Céus) que por sua vez irá originar Ea, ou Enki. Este irá ser na verdade muito mais inteligente e esmerado que os seus 'primos'.

Assim, os filhos, netos e bisnetos de Apsu e Tiamat passam a encher o mundo com os seus gritos, lágrimas e suspiros. Incapaz de encontrar descanso o patriarca propõe à sua esposa resolver a questão em eliminando todos os seus descendentes. Ela procura porém reprimir tão terrível ideia e o 'velho' indigna-se resmungando nos seus domínios. Aí o seu conselheiro Moummou de novo lhe eleva o moral - "que necessidade tinha ele do aval de Tiamat para trucidar os seus descendentes? Que ele faça como lhe aprouver e boa sorte!". Contente, Apsu anuncia o massacre aos inocentes imortais que apenas deixam tombar uma lágrima fatalista.

Mas Ea, Enki, não estava nos seus planos deixar-se desaparecer assim. Usando a magia, toda uma sabedoria oculta, mergulha Moummou e Apsu num sono profundo. Passa um anel no nariz do primeiro e mantém-no preso num esconderijo sombrio. Quanto ao segundo, acaba por encontrar o que buscava - um descanso eterno!

Enki estabelece-se então num novo e belíssimo palácio onde a sua esposa dará à luz o grandioso Marduk. Marduk é bem superior aos seus antecessores, incluindo o pai, tanto em dom como em beleza, força e brilho. O seu avô Anu (An) decuplica-lhe os dons, as virtudes, concedendo-lhe uma divindade múltipla em relação aos outros. Marduk torna-se colossal. É ele ainda quem comanda os ventos, que lhe são confiados por Anu. Fá-los soprar sobre o mar erguendo vagas enormes que levam a náusea e a agonia à abissal Tiamat.

É uma boa altura, para ela, de dar uma lição a esses 'desprezíveis' que não contentes em terem morto o pai, estavam visivelmente a provocar a mãe. Tiamat congrega então uma bela série de horrores - dragão vermelho, esfinge, cão raivoso, homem-escorpião, homem-peixe, centauro, etc, etc. O mais abjecto de todos seria um tal Kingu (seu filho) a quem a entidade primordial toma como seu esposo. É a ele que confia as Tábuas do Destino e quem coloca à frente do infernal exército.

Anshar e Anu fogem sem descanso perante as hordas de Tiamat. Ea, ele mesmo, está prestes a dar-se por derrotado quando tem uma ideia - "e se Marduk se lhe juntasse?" O colosso aceita então ser o 'campeão dos deuses' mas com uma condição: ser o senhor no lugar dos senhores, mestre e único senhor do Universo. Todos, incluindo Ea / Enki, aceitam. Na mais alta das apostas, Marduk parte para o confronto sem saber se existirá regresso.

A táctica do futuro rei era tão primitiva como eficaz. Dirige a luta para um local espinhoso, cheio de urtigas, e é então que ela, Tiamat, se precipita na sua direcção, a bocarra escancarada, decidida a terminar com ele num único abocanhar. Neste momento ele lança a sua rede e imobiliza o monstro o tempo bastante para que os ventos que ele domina se enfiem por aquela bocarra aberta. Tiamat incha tal como a rã da fábula, as mandíbulas bloqueadas e Marduk, lesto, mais não tem que fazer que lhe trespassar o coração.

Aniquilados pela perda de liderança, o exército monstruoso como que se deixa gentilmente dizimar. Marduk, o novo senhor do Mundo, captura a Kingu, lançado para um esgoto, as Tábuas do Destino. Corta depois ao meio o corpo de Tiamat. A primeira metade torna-se na abóbada celeste que ele ordena de A a Z. Começa por medi-la cuidadosamente para determinar a localização de um gigantesco palácio onde os deuses irão residir. Organiza-a em constelações de estrelas - réplicas das divindades - e traça a eclíptica, a rota seguida pelo sol e planetas nessa abóbada celeste. Fixa a duração do ano, o tempo que o sol leva a percorrer esse caminho e divide a eclíptica em doze porções às quais atribui uma constelação principal a cada - os signos do Zodíaco.Estabelece em seguida a estação Nibirou - Júpiter - que encarrega de velar pelo bom funcionamento do Céu. Abre as portas de leste e de oeste por onde aparece e desaparece o sol e coloca o zénite na barriga de Tiamat que está a servir de toldo, abóbada celeste. Por fim, não menos importante, cria Nanna, a Lua, a quem confia o tempo (de calendário). Isto, com tarefas detalhadas ao pormenor. Fixa os dias e os diferentes aspectos sob os quais se deve mostrar ao mundo.

Marduk modela a Terra a partir da segunda metade do corpo de Tiamat e organiza-a de igual modo meticulosamente. Espantados por tais gigantescas obras, os outros só têm que aplaudir Marduk até que vêm que terão que ser eles a ocuparem-se de todas estas terras, plantas e bichos. Trabalhar? Que horror! Quem vai alimentá-los, vesti-los, edificar as suas construções? Marduk mais uma vez tem a solução - fabricar um pequeno escravo devotado ao serviço deles a partir do osso e sangue de um deus. É demasiada carne a pagar por essa cara humanidade! E Ea / Enki propõe então a Marduk repensar pois no caso dele. Precisava de Kingu, por exemplo. Este último acaba por assegurar o futuro do Homem mas trata de garantir aos deuses a sua ração quotidiana.

Maníaco total, Marduk nada deixa ao acaso - planifica tudo até ao mais ínfimo detalhe. Nenhuma das suas criaturas possuía qualquer livre arbítrio. Os astros não podiam ocupar posições a não ser aquelas por ele atribuídas, pré-determinadas. Um homem não podia enriquecer, ganhar uma batalha ou casar-se se não fosse essa a sua vontade. O destino de cada um havia já sido fixado pelas Tábuas do Destino e ninguém a isso podia escapar.

Esta crença numa predestinação divina toca a obsessão no caso dos mesopotâmicos. Querem conhecer custe o que custar a sorte que os seus mestres lhes reservaram e entregam-se sem qualquer vergonha à adivinhação. Desde a invenção da escrita até ao desaparecimento da Babilónia este povo 'grafómano' cobriu dezenas ou mesmo centenas de milhares de placas de argila com a sua escrita cuneiforme. Assentava tudo, mitos, leis, os cânticos, os épicos, observações da Natureza, contabilidade, contratos comerciais, tratados de medicina e listas intermináveis discriminando o conteúdo da Criação.

Não havia qualquer razão para que os deuses - 'construídos' segundo o modelo humano - destoassem desta loucura e ânsia de tudo escrevinhar. Nalgum sítio haviam de Ter escrito 'obrigatoriamente' o conjunto dos destinos humanos, colectivos e individuais. Tortuosos nesta senda e acima de tudo, Marduk e os seus pares tinham coberto de caracteres premonitórios a totalidade da Criação. Todos os astros, cada objecto, cada ser vivo, era susceptível de transportar nele um pedaço da sua prosa! E exprimiam-se ainda através dos sonhos, do comportamento das plantas e animais, nascimentos, pelo aspecto físico de um homem - por exemplo as diversas localizações de uma mancha vermelha sobre o seu corpo - , os fenómenos meteorológicos ou astronómicos - tempestade ou eclipse - , a configuração de um curso de água ou de uma terra, etc.

Tudo o que saísse um pouco do ordinário tornava-se pretexto à adivinhação e o céu era vasculhado tão atentamente como os voos dos pássaros ou as entranhas de um carneiro. Os astros não tinham uma influência directa sobre os 'pequenos casos humanos', visto que não passavam de intermediários pelos quais as correspondentes divindades encaminhavam os seus negros desejos. Apenas os acontecimentos extraordinários, a aparição de um cometa ou um eclipse eram considerados como presságios que importavam ao futuro de toda uma comunidade. Durante séculos os nossos adivinhos passaram noites consecutivas em claro e o céu hoje mostra-nos esse 'colar' milenar de pérolas enfiadas ao longo de todo esse tempo - a eclíptica.

 

Jericho

As primeiras informações sobre Jericho datam do 8º milénio AC e falam sobre um próspero centro comercial de 4 a 5 hectares, altura em que começou aí a produção de alimentos e a vida urbana. Implica este surgir do conceito de cidade e civilização – talvez avançado para Jericho, por excesso – um método sistemático de centralização para registo de rendimentos públicos, salários, etc. A civilização propriamente dita surgirá pela primeira vez na Mesopotâmia onde na segunda metade do 4º milénio AC, no período de Uruk, os templos registavam já as suas contas com símbolos pictóricos e não-pictóricos em pequenas placas de argila.

 

Mesopotâmia, Pérsia e Vale do Indo

No 4º e 3º milénio AC o planalto iraniano que desce por um lado até ao sistema Tigre-Eufrates e por outro até ao Indo, a leste, foi a fonte de diversas sociedades e povoados. O sobrepor de ruínas ao longo dos tempos levará mesmo à formação de pequenas colinas artificiais, os ‘tells’. Antes da cultura e civilização dita babilónica, no tempo dos sumérios, realça-se também um estrato, o período de Obeid, por sua vez com origens mais a oriente da Mesopotâmia, em Susa, no Irão. Um reajustamento no centro e sul da Pérsia terá levado na altura a uma migração para a Mesopotâmia.

Quanto a fluxos comerciais, destaca-se o importante fluxo de lápis-lazúli a ser levado do Afeganistão quer para a Índia quer para a Mesopotâmia. Mas traçam-se já outros elos comerciais: no comércio indo-mesopotâmico, cerâmica e embutidos típicos do Indo são encontrados nos níveis do período acadiano, que remonta a 2300 AC e eras posteriores, na zona de Tell Asmar.

Documentos sumérios e acadianos referem-se a uma terra, Dilmun ou Telmun, como um ‘paraíso do outro mundo’, um lugar onde o sol nasce, a leste da Suméria, e que era também uma rica fonte de bens materiais. Os navios traziam de Dilmun madeira para Lagash e Ur-Nashe desde 2450 AC. Mais tarde, 2350 AC, Sargão, soberano do período acadiano, regista que navios de Dilmun, Magan e Meluha entravam na nova capital, Agade, perto da Babilónia. E ainda depois, já no século XX AC, os navegantes traziam para Ur, mais a sul, na Mesopotâmia, ouro, prata, cobre, lápis-lazúli, contas de pedra, pentes, ornamentos, embutidos de marfim, pinturas para os olhos, madeiras e ‘olhos de peixe’ - pérolas (?).

Mas Dilmun tenm sido ainda referida como se fosse a ilha de Bahrein, no Golfo, mas aí terá funcionado antes um entreposto de reabastecimento e posição medianeira. Meluha, para vários investigadores, seria o Vale do Indo. Mas para outros o Vale do Indo é mesmo a tal Dilmun. Failaca é outro local do Golfo Pérsico associado no comércio à Mesopotâmia, juntamente com Meluha e Dilmun nesse fluxo já de dimensão apreciável.

O auge do comércio Indo-Suméria dá-se no período ‘sargónida’, acadiano, entre 2370 e 2284 AC, mas vai até ao século XVII e XVI AC já bem dentro do período babilónico marcado por Hamurábi. Referem-se as datas 2370 a 2284 AC como sendo os limites do período acadiano e de 2370 a 2344 AC como o reinado de Sargão I. Sabe-se que o comércio continuou depois no reinado de Ur-Nammu, cerca de 2100 AC, já no neo-sumério, e prosseguindo até ao período de Larsa em 1900 AC.

Depois dos séculos XVII e XVI AC os contactos comerceais Mesopotãmia-Indo parecem rarear. Para os indianos, os locais que assinalam vestígios desse comércio estão entre outros em Mohenjo-Daro e Harappa. Mohenjo-Daro entra depois em declínio. O golpe final na civilização deste local terá sido dado com a chegada dos arianos que irrompem vindos do noroeste. O termo moderno Harappa tem sonâncias de Hari-Yupuia, citada no Rigveda, a colecção de hinos que reflecte as invasões arianas, como tendo sido o local de derrota dos não-arianos pelos invasores. Nos mesmos livros védicos a invasão ariana da ‘terra dos cinco rios’ (ou originalmente dos sete) o Punjab e redondezas, é marcada por um assalto feroz sobre as cidades fortificadas existentes. Estas tinham o termo genérico de Pur (baluarte, fortaleza). Datas para este movimento? Cerca de 1500 AC.

Como motivo religioso note-se o aparecimento de postes com inscrições, comemorativos. Originalmente, sem qualquer inscrição, surgiam na linha de um antiquíssimo costume, o de erigir postes, em geral de madeira, para celebrar vitórias ou um sacrifício especial ou honrar uma divindade. Tudo isto com base certamente no conceito cósmico indiano de um eixo do mundo concebido como um pilar que separa – ou une? – Céu e Terra.

 

 

in Público – Fr. Bento Domingues, 23/4/00

Na Índia pré-budista a religião tentou uma delicada conciliação entre o prolongamento da vida e a renovação interior. Os brâmanes bebiam o soma, o vinho da imortalidade. Equivalia ao Hoama da religião iraniana ou ao néctar dos deuses do Olimpo. Representava esta bebida a energia sexual sublimada, o sémen como fonte da vida.

O soma, no plano do templo, tem a mesma função que o vinho e a ambrósia a mesma função que o pão eucarístico que dá a vida eterna por meio do Espírito, ‘semente divina’. A eternidade é prometida no final de um renascimento espiritual. Toda esta abordagem simbólica de uma vida renovada é fruto de uma longa e sinuosa evolução histórica em religiões do Próximo e Extremo Oriente. Variam entre o desejo da imortalidade e a fé no renascimento.

No mundo bíblico os patriarcas anteriores ao Dilúvio, a começar por Adão, ultrapassavam os 900 anos. Matusalém chegou aos 969 anos. Mas nada eram comparados com os 8 reis sumérios anteriores ao dilúvio: reinaram ao todo 241.000 anos!, cerca de 30.000 anos por monarca. Esta longevidade mítica era apenas um privilégio dos grandes a quem os favores divinos conferiam ainda numerosa descendência. A Bíblia fala ainda em ‘gigantes’ (Gén. 6, 4) aproximados aos titãs da mitologia grega.

Em todas essas manifestações – de longevidade e grandeza passada do Homem – subsiste uma nostalgia da mítica Idade do Ouro em que os homens teriam vivido felizes antes de a ‘maldade’ ter desencadeado a ira divina e abreviado a existência.

Ainda sem uma crença firme na vida após a morte, sem um castigo póstumo aos pecadores, então a ideia era a de que os deuses ‘cortavam’ na duração da existência terrestre. Mas a ideia de após morte acaba por surgir. No Próximo Oriente – Irão e Suméria prevê-se para os defuntos lugares chamados ‘infernos’ – lugares inferiores de vida enfraquecida. Para os gregos é o ‘tártaro’. Para os mesopotâmicos é o ‘em baixo’ ou ‘mundo inferior’ e a ‘terra do nada’. É o ‘Shéol’ dos hebreus. A saída ‘boa’ do pós-morte existe, para as almas virtuosas. Os campos elíseos gregos, o ‘campo da paz’ do livro dos mortos egípcio e o retorno a um jardim do Éden, ao paraíso bíblico, à felicidade primordial, à inocência perdida.

No judaísmo pré-cristão os saduceus (colaboradores com os gregos e mais tarde com os romanos, e mais interessados no êxito social) ao contrário dos fariseus, não acreditavam na ressurreição (Act. 23, 8). Mesmo Jesus recusou discussões sobre o Além. O seu deus era o ‘deus dos vivos’ que nada tinha a ver com a morte. Porque adiar para depois da morte um paraíso de justiça e do perdão, da misericórdia, que pode e deve começar aqui e agora?

Jesus revelou-se um especialista em libertar o fundo da bondade e do coração daqueles que eram tidos como pecadores, e em denunciar, revelar a podridão dos que queriam passar por santos e oprimiam os pobres. Ele era na sua pessoa e nos seus gestos a ressurreição e a vida no coração do mundo. Um ‘incêndio social’. Morto aos 30 anos. Não era idade com que morriam os protegidos dos deuses e os fundadores de religiões. Os discípulos abandonaram-no. Ficaram as mulheres para anunciar ao mundo que o amor é mais forte que a morte. Jesus e as mulheres subverteram a história das religiões, da páscoa e da ressurreição.

A palavra cristão foi usada pela primeira vez em Antióquia, na Síria, para designar o grupo de discípulos de Cristo (Act. 11, 26). No séc. III, Clemente de Alexandria já fala de cristianismo. Jesus nunca quis ser monge nem nunca pensou em fazer um mundo de monges. Ao falar de Cristo – em grego, o ‘ungido’ e em hebraico o ‘messias’ – o profeta, o enviado de Deus, evoca-se um estranho soberano, o rei crucificado dos judeus, de um reino que não é deste mundo. Assim, faz-se de Jesus um rival espiritual de César, aquele que desafia o poder e dele se afasta.

Jesus e Buda nasceram de um lado e do outro do imenso rio Indo, uma fronteira algo mítica que separa o Próximo Oriente – berço das religiões ditas monoteístas e proféticas – do Extremo Oriente, centro da meditação e iluminação interior e das religiões místicas.

 

Sociedades matriarcais

Os historiadores confirmam que as primeiras sociedades e religiões eram essencialmente matriarcais, os reis eram sacrificados e a Lua era considerada como controlando o Sol. Há alguns milhares de anos atrás, essas civilizações regidas pela adoração a deusas ligadas à Terra foram sendo destruídas progressivamente no rescaldo da invasão por tribos indo-europeias agressivas que adoravam deuses celestes agressivos, perdendo o elemento feminino o seu sentido de sagrado. Estas novas religiões apontavam para um monoteísmo crescente (como o Judaísmo, Cristianismo e mais tarde o Islamismo), com um único deus masculino, e que começa a tomar forma a pouco e pouco desde a Idade do Ferro quando os homens tomam o domínio das sociedades tanto na Europa como no Médio Oriente.

Alguns dos precursores do cristianismo nascente chegam a argumentar que a mulher não tem alma. As culturas orientadas para a adoração a deusas tendiam a ser igualitárias, centradas no elemento Terra e não-violentas. Muitas dessas religiões usam a serpente representando o conhecimento, sabedoria, a cura, ou uma dupla serpente como união cósmica (exemplo do caduceu de origem suméria), como deusa suprema mas com qualidades andróginas capaz de criação sem a intervenção de um parceiro masculino.

Na antiga Suméria, hoje considerada o berço da civilização, havia quatro deuses principais representando o Céu, Ar, Água e a Terra. Ki (Ninki, e mais tarde Ninhursag e tantos outros nomes) era a deusa da Terra representada também por uma dupla serpente. An era o deus do Céu, Enlil o deus do Ar e Enki o deus da água e da sabedoria oculta. Logo a seguir vinham outras três divindades principais relativas à Lua: Nanna/Sin – o "pai", a Lua propriamente dita, Utu (o Sol, como "filho") e a "filha", Inanna, relativa ao planeta Vénus, Ishtar na Mesopotâmia, considerada mais tarde como "rainha dos Céus" e deusa do amor, da procriação e da guerra. Nos templos, os rituais eram conduzidos por "prostitutas sagradas", eunucos, sacerdotisas e sacerdotes, cantores e músicos.

Lilith, uma descendente do "Dragão/Rainha da Criação" Tiamat da mitologia babilónica e hebraica (e também derivada já de mitos sumérios) relacionada depois como demónio das tempestades e da noite, e tida nos escritos hebraicos como a primeira mulher de Adão, figurava como uma madrasta perversa, um aviso, na mitologia judaica, sendo vista também como um succubus, e na Babilónia e Suméria como raptora e destruidora de crianças (Lamashtu), mas por outro lado desenvolver-se-á na Matrioshka russa representando a continuidade da vida – simbolizada nos conjuntos de bonecas anichadas umas dentro das outras.

A lenda judaica conta que foi criada a partir da Terra tal como Adão mas que se terá escusado a obedecer-lhe tendo fugido. Dão-na mesmo como amiga de Eva, secretamente, e que na verdade seriam as suas filhas as esposas de Caim e Abel. Escritores antigos contavam porém que Caim e Abel teriam irmãs gémeas – Luluwa e Aklemia, e que Set tinha uma irmã, Noraia. Símbolo do movimento moderno das mulheres judias, Lilith evoluiu para a figura de Matronit, a consorte de Jeová. Jeová/Yahoé é uma forma de YHWH que originalmente representava a Sagrada (Celeste) Família: Y (El) – o "pai"; H (Asherah) – a "mãe"; W (He) – o "filho" e H (Anath) – a "filha". Esta representação evolui: na Pérsia, Anath (Anahita) era a rainha dos Céus e o seu irmão He era o rei dos Céus. Ele (He) e o seu pai (El) fundem-se e tornam-se Jeová. Mais tarde Asherah (Ashtoreth) e Anath fundem-se e tornam-se a consorte de Jeová com as designações de Shekinah (Matronit).

O culto como Shekinah espalhou-se para ocidente sendo ela adorada pelos Celtas junto aos dolmens. A parte central do Templo de Salomão representou o útero de Ashtoreth/Asherah. As deusas relacionadas com a criação ( e com a mãe-Terra) acabaram também por aparecer ligadas à Lua, por razões óbvias, e também pelo relacionamento com os ciclos de marés e da água, e até com os cavalos pela analogia dos quartos da Lua e as pegadas dos cascos!

 

 

 

O DILÚVIO

Um artigo do jornal International Herald Tribune de 19 de Novembro de 1999 noticiava que cientistas descobriram os vestígios de uma antiga linha costeira existente a 170 metros de profundidade no Mar Negro. O novo achado vem demonstrar a evidência de uma enchente de proporções catastróficas ocorrida há cerca de 7.500 anos, sendo essa possivelmente a origem da história da Arca de Noé relatada no Antigo Testamento. Uma equipa de mergulhadores acaba de revelar as primeiras imagens de sonar captadas este verão a 550 pés de profundidade, mostrando uma berma suave e língua de areia que estarão intocadas há milhares de anos. Técnicas de datação pelo Carbono radioactivo (C14) usadas confirmam que os restos de moluscos de água doce encontrados nessa ‘prais’ têm 7.500 anos e que as espécies de água salgada mais antiga mostram ter apenas 6.900 anos. Isso indicaria a ocorrência de uma cheia imensa nesse intervalo de 600 anos e que seria parte – querem prová-lo – do tal acontecimento bíblico diluviano.

As novas descobertas poderão verificar a teoria de que o Mar Negro foi criado a partir da fusão glaciar, mas que essa mesma fusão posteriormente veio fazer também subir o nível oceânico de forma a ultrapassar a barreira natural – o actual estreito de Bósforo – que separa o Mediterrâneo do Mar Negro. Seguiu-se então uma inundação apocalíptica de toda essa região, desse extenso mar interior de água doce, submergindo igualmente milhares de quilómetros quadrados de terra seca, alterando o ecossistema – de água doce para salgada – quase de um dia para o outro, matando milhares de pessoas e biliões de criaturas marinhas e terrestres. Esta teoria – A Enchente de Noé – também título de um livro, é baseada em mais de trinta anos de pesquisas por dois cientistas geólogos da Universidade de Columbia, EUA. Os modelos por eles desenvolvidos vêm-se agora suportados com as imagens de sonar recentemente captadas.

Um outro aspecto decorrente do fenómeno terá sido o despoletar de migrações massivas para destinos tão variados como o Egipto, Europa Ocidental e Ásia Central. Há porém ainda interrogações se se poderá identificar, fazer corresponder, um único desastre como sendo a inspiração para a história da Arca de Noé. Modernos analistas olham para a história de Noé como mítica: "há outras histórias de inundações gigantescas mas se quisermos dizer que este cataclismo foi o de Noé, quem existe para negá-lo?".

Os analistas bíblicos consideram hoje que a escrita do livro do Génesis – onde é citada a história de Noé – terá ocorrido algures entre 900 e 400 anos antes de Cristo mas que um acontecimento similar era já reportado no mito da Mesopotâmia "A Epopeia de Gilgamesh", elaborado há mais de 3.600 anos (1.600 anos antes de Cristo) , e esta epopeia tem até raízes muito mais antigas, qualquer coisa como 3.000 anos AC, datando do tempo dos sumérios.

Embora não haja uma prova directa pelos dois cientistas de que a inundação do Mar Negro inspirou "Gilgamesh" ou "Noé", decerto que um acontecimento catastrófico ocorreu, e de modo a influenciar a memória dos escribas ao longo de milénios. Ainda sem terem conhecimento das imagens de sonar e da sua datação, eles já haviam estimado a sua ocorrência há 7.600 anos e com uma antiga profundidade de linha costeira quase idêntica à agora detectada. As recentes pesquisas ocorreram na margem sul do Mar Negro, não longe do porto turco de Sinop.

 

 

 

Na Mesopotâmia e Pérsia ( EXTRAÍDO DE ‘O VALE DOS REIS’)

A escrita do sumério foi decifrada a primeira vez pelo alemão Georg Grotefond, no séc. XIX. Jullius Oppert, trabalhando pelo governo francês, dá pela primeira vez o nome ‘sumério’ a este povo, por causa da forma da escrita cuneiforme, da qual talvez existam uns 500 sinais diferentes.

Leis mais humanas como as do rei sumério Urnamon (Ur-Nammu ?) são reveladas, opõem-se à ferocidade das leis semitas de Hamurábi (posterior) assim como às do velho Assur (Assurbanípal, assírio ?) e às da Bíblia, especialmente a de Talião, ‘olho por olho...’. Um antropologista inglês afirma que ao estudar a conformação da face, volume do cérebro e crânio dos sumérios, verifica terem a cabeça oblonga e a mesma ossatura dos ingleses actuais. A civilização suméria poderá ter tido início cerca de 4500 AC. Em tal época terá ocorrido uma ida de sacerdotes ao ‘país dos dois rios’ levando grandes conhecimentos. Ignora-se a sua proveniência exacta e a quantos milhares de anos remontaria a sua civilização. Não deviam ser semitas, certamente. Talvez das montanhas do cáucaso. O seu estabelecimento aí dará origem a umanova civilização. Os seus ecos propagam-se por todo o oriente até á Palestina, Síria e mais tarde à Grécia, Roma e países do leste e ocidente europeu, através – por exemplo – dos Fenícios. Ruínas em Nippur dão sinais de uma tal civilização (ou outra anterior) rondando até 7600 AC! Possuíam elevados conhecimentos de astronomia – e astrologia. As divindades não eram animais mas antropomórficas, em geral, ao contrário dos egípcios. E há até, também aqui, um rei ‘reformador’ – Urukagina, de Lagash, mais ou menos em 2900 AC.

Em 2897 AC, segundo alguns registos, um tal Lugal-Zaggisi surpreende os sumérios. Invade Lagash e destrona Urukagina. Destrói templos e efígies de reis. Mata e pilha. Segundo os lamentos de um poeta sumério, DingirAddmu: ‘até o nosso rei tiraram do templo. Quando vens tu, Ohn, senhora da minha cidade, dar-nos a paz?’. Este ataque surpresa não foi o único. Aqui os sumérios resistiram. Mas no auge da sua civilização, cerca de 2350 AC, serão atacados por um povo semita, os acadianos. A forma de governo e religião desaparecerão progressivamente e o povo foi assimilado pelos semitas – tal como os etruscos pelos romanos. Mas a grande civilização dos sumérios serviu de base à civilização semita dos acadianos em muitos aspectos. O primeiro rei deste novo estado, Sargão I, presta-lhes um serviço ao aprisionar Lugal-Zaggisi (rever datas!!!), o que destruíra Lagash. Mete-o numa jaula. Funda um novo império incluindo até a actual Anatólia. Não conseguirá contudo, ao contrário dos reis sumérios, elevar-se à categoria de divindade e, após 55 anos de reinado, defronta uma sublevação. Um novo crepúsculo desce sobre a região.

Há ainda e logo a seguir um ressurgimento sumério com o monarca Gudeia, mas já descaracterizado. Tratava-se mais de uma invasão de um apanhado de ‘hordas bárbaras’ das montanhas, os gútios, que vinham correr com os acadianos que haviam desprezado as divindades existentes. Mas foi também um movimento emancipador: ‘a escravatura no seu reinado era igual ao senhorio. O escravo caminhava ao lado do senhor, os fracos podiam contar com os fortes’. A capital voltara a ser poderosa. Larsa, Uruk e Nippur voltavam a enriquecer. Um outro rei, Dungi, forma um governo sábio que agrada ao povo, mas os inimigos voltavam a surgir. O monarca é preso. Praticamente logo a seguir, vem o rei da Babilónia, Hamurábi. Estamos aqui de novo em presença de um movimento semita, proveniente dos amorritas, associados ao deus Martu (Amurru). As datas diferem entre +/- 2003 a 1961 AC ou cerca de 1750 AC para Hamurábi. É o início da civilização babilónica.

Esta civilização irá pois de 2100 AC (ou de 1750) até 560 AC. Marcada praticamente no início por Hamurábi e pelo seu código, e no final por Nabucodonosor II. Hamurábi pretendia ter recebido directamente de deus o tal código (do deus Marduk), como mais tarde Moisés com os 10 Mandamentos. Mas a cadeia temporal Hamurábi-Nabucodonosor será quebrada, intervalada pelos cassitas, outro povo montanhês e governados por uns 36 reis ao longo de um período de 577 anos.

Os hititas – os tais das guerras e alianças com os egípcios da 18ª dinastia, os da batalha com Ramsés II em Kadesh/Meggido), tinham entretanto a sua capital em Hatonsa, perto da actual Bogazkoy.

Babilónia. Região e cidade. A Babel da Bíblia, com a sua torre, o zigurate. O edifício mais importante do império com sete enormes andares, mais alta que as pirâmides. Paredes em faiança azul decorada com leões de ouro, símbolo da deusa Ishtar. Um templo dominava no andar superior. Miradouro e observatório, com um altar em ouro maciço. Todas as noites num leito luxuoso uma virgem oferecia-se ao deus da Babilónia. No sopé da torre e na praça o povo vivia bem. Num templo à deusa Mylitta, com costumes especiais, lindas raparigas ofereciam-se por prazer aos visitantes, e estes lançavam-lhes moedas de ouro que ficavam para o templo. E no templo de Marduk, entretanto, os costumes não eram melhores. Largas avenidas conduziamao templo e à grande porta de Isch (Ischtar?).

Nabucodonosor mandaria na sua época reconstruir o templo da torre de babel mas na altura consagrou-o a Zeus-Belos. Chegava-se ao fim da era babilónica, a essa época da Nova Babilónia, de Nabucodonosor II, de 605 a 562 AC. Esse período de Nabucodonosor foi também o ‘reinado dos caldeus’ (de Ur), para os gregos.

Nabucodonosor II era filho de Nabupolassar. Derrota os egípcios, conquista a Síria e palestina. Destrói Jerusalém em 586 AC e leva os judeus para a Babilónia. Há contradições sobre se foi de facto ele quem mandou construir os Jardins Suspensos da Babilónia, para a rainha Semiramis, que era filha do rei dos medas, Ciaxiares. Grande consumidor de estupefacientes, a Bíblia relata o comportamento de Nabucodonosor II, aos gritos, e ‘a comer erva’, e a andar com as mãos no chão... Também os seus sucessores terão seguido tais comportamentos. Falamos de Nabunetus (550-538 AC), o Baltasar na Bíblia, que se alia depois ao rei Crésus da Líbia, contra os persas. É ele quem profana os vasos sagrados vindos de Jerusalém.

Mas Dario, dos medas, acaba por suceder a este Baltasar babilónico no ano de 538 AC, contornando o Eufrates e tomando a cidade da Babilónia. Os sírios (assírios) também iam ocupando os vales mesopotãmicos, tudo destruindo. Abre a caça gigantesca aos judeus. Entre os assírios destacam-se Assurbanípal, Tiglat-Peneset e Senaquerib. É este último que empreende uma campanha de destruição de cidades, incluindo o incêndio da babilónia e a chacina da sua população.

Voltando um pouco atrás, breves referências paralelas:

No reinado de Salomão, entre os judeus, vai a rainha de Sabá (Etiópia?) a Jerusalém. Traz uma caravana de preciosidades para Salomão. Gera um filho dele. Os governantes etíopes reclamam-se descendentes de Salomão, ‘leão invencível de Judá’, embora em 300 DC os etíopes estejam convertidos ao cristianismo. Existia um outro povo, +/- em 950 AC, o povo Mari, na região do Mar Vermelho, e Golfo de Aden, e sujeito à rainha de Sabá. Referências existem ainda de Sabá como um próspero entreposto comercial, uma cidade por onde corria o leite e o mel.

 

Os Fenícios

Nas costas da actual Síria e Líbano, viveram os fenícios. Alguns dos locais marcantes foram os portos de Acre, Tiro e Sídon. O nome deriva de ‘vermelho’. Eram fabricantes da cor púrpura pelo tratamento de várias conchas, do tipo múrices. Espalharam-se por todo o Mediterrâneo e não só, sendo essencialmente navegadores e comerciantes. Ignora-se a sua origem ao certo. Cáucaso? Aparentados aos sumérios? Pelo menos o seu alfabeto descenderá dos caracteres cuneiformes da escrita da Mesopotâmia. Com as suas galeras mantiveram um comércio regular pelo Mediterrâneo e Mar Negro. Em Espanha, estabeleceram-se em Cadeira / Cádiz. Foram ainda pelo Atlântico adentro. Contornaram África. Conheciam tanto a África Ocidental como os Açores. O seu lema parecia ser ‘Muito comércio e nada de guerras!’. A menos que a isso fossem obrigados, claro. Em 1200 AC ‘libertaram-se’ do jugo egípcio. Tornaram-se entretanto como intermediários entre o Egipto e a Babilónia e entre o Egipto, Creta e outros povos do Mediterrâneo oriental, como os gregos. Mas os gregos viam neles um povo de piratas. Em Biblos tiveram a sua capital. Eram politeístas. Cada cidade tinha mesmo o seu Baal, como em Canaã. Em Tiro, o respectivo deus era Melkarth. Parecia ser mais outro exemplo trazido da Babilónia. E dessas paragens veio igualmente Ishtar, a deusa da fecundidade. Um dos seus deuses mais estranhos foi Moloch. Em honra deste eram efectuados sacrifícios de crianças, pelo fogo. Uma das colónias mais importantes seria Cartago, na actual Tunísia.

A história depois conta-nos que as relações com a Babilónia terão azedado. Nabucodenosor II cerca Tiro mas não os consegue conquistar. A façanha ficaria para Alexandre o Grande, da Macedónia. Entretanto destaca-se ainda a figura de um outro ‘Grande’, Aníbal, fenício, que viveu entre 246 e 183 AC. Comandante precisamente da cidade de Cartago uma das que mais sofreu com as chamadas ‘guerras púnicas’. O declínio geral dá-se contudo com a entrega de Sídon e da sua frota completa ao rei Xerxes, da Pérsia. O ponto final será no entanto colocado com a chegada de Alexandre, da Macedónia.

Os Persas

A seguir aos egípcios, a maior potência dos tempos antigos. Com Dario (558-485 AC) chegou a ter 10 províncias, incluindo a Palestina, Fenícia, Líbia, Jónia, Sicília, Arménia, Síria, Egipto, Frígia e Capadócia. A sua influência estendeu-se ao Cáucaso, Babilónia, Afeganistão, Baloquistão, Índia (a ocidente do Indo). A escrita era em caracteres cuneiformes, o persa antigo, mas a língua tinha semelhanças com o sânscrito. Pouco intelectuais, privilegiando a caça, guerra e haréns. Mas tiveram um influente profeta – Zaratustra / ou Zoroastres, para os gregos, em cerca de 700 AC. A religião era baseada em inúmeros deuses. É na Pérsia que se salienta o conceito de um inferno associado ao sofrimento pelo fogo, povoado de demónios castigadores. Neste cenário Zaratustra defendia por seu lado um único deus, o da luz e do céu, Ahura-Mazda.

Para os persas a deusa principal era também a Ishtar, a mesma dos babilónicos e também divindade associada aos cananitas e hebreus, o mesmo que Aschtoreth ou Astarte. Venerada também pelos fenícios e aramaicos como uma deusa da Lua. Tal como a deusa de Nínive (na Assíria), era enfeitada diariamente e rodeavam o seu altar muitas jovens que se entregavam aos visitantes recebendo oferendas para o templo. Tal como os babilónicos semitas os templos aqui eram uma ‘casa pública’.

No início da primavera uma das maiores festas anuais ocorria, ao renascer da vegetação, em honra do deus Támmuz (Dumuzi). Retiravam então a sua enorme pedra tumular que lhe haviam colocado no outono. À noite atingia-se o auge com uma lua cheia iluminando a terra, e decorria então a maior festança libertina.

Mais tarde Zaratustra – antes ridicularizado – conseguiu que a sua doutrina vingasse. Dario I tornou-a religião de estado. Zaratustra deixou-nos uma ‘bíblia’, o Zend-Avesta, de 2 milhões de versos. Em resumo, ensinava que o deus Ahura-Mazda e o diabo combatiam-se mas que no fim o diabo era vencido e o mal acabaria para sempre. Assim, todos os homens bons juntar-se-iam a Ahura-Mazda no paraíso e os maus cairiam no precipício da escuridão eterna.

O exército do rei persa Xerxes seria vencido pelos gregos em (?). O nome bíblico dele será Ahasverus, e reinava a partir de Susa. Casar-se-ia com uma judia, Ester. Foi ele afinal o culpado pela queda do império persa que Ciro, Dario e Cresus haviam criado. Mais tarde, e após uma série de assassínios reais, Dario III tentou opor-se a Alexandre o Grande mas foi batido em Issos, em 333 AC. Alexandre facilmente controlou os persas, minados que estavam pelos costumes imorais da Babilónia. Mas os próprios judeus até, teriam o mesmo tipo de costumes, mesmo o rei Salomão. Ao inaugurar o templo matou para a festa 20.000 bois e igual número de carneiros. Depois, foi uma orgia nas terras de Israel que durou 15 dias.

Israel, e Moisés no Egipto

Com precisão, estabelecer datas é difícil. É provável a versão de um Moisés encontrado e educado na corte dos faraós, onde conheceu os cultos religiosos egípcios e os seus erros de governo. A experiência torna-o sábio e ‘bom’, transformando-o no ‘profeta Moisés’. O seu nome? Bem, entre os faraós muitos tinham nomes terminados em ‘Mose’, como Kamoses, Amenmoses, Vezmoses... É provável que Moisés tenha transformado o seu nome para atribuir a si próprio a autoridade de um chefe. Pregava um deus da cólera e da vingança para se fazer obedecer pelos israelitas rebeldes. Corta com o politeísmo insistindo na glória de um deus único.

Pelo que se vê a religião de Akenaton terá deixado os seus frutos. E mais tarde, os romanos, embora inicialmente com um grande número de deuses, começavam a dar cada vez mais importância ao deus do sol, o tal deus Mitra, que foi primeiro o deus dos legionários. Esta ‘religião dos soldados’ em breve iria expandir-se entre o povo. O culto egípcio de Ísis aliava-se e fundia-se com este assim como o culto anatólico (e não só) da Grande-Mãe, com reminescências à Ninhursag mesopotâmica, às Ishtars e Asheras. A personalidade de um deus mártir, morto e ressuscitado, o baptismo, comunhão, uma ‘raínha celeste’ tendo uma criança – Hórus – nos braços, tudo isto existia já, afinal, quando Jesus surgiu. Em 25 de Dezembro, quando parte da humanidade celebrava o nascimento do deus solar Mitra, os legionários curvavam-se perante este deus ‘salvador’ e os oprimidos falavam numa nova era. Ninguém sabia porém que ela só começaria mais tarde com a vinda ao mundo de uma pobre criança em Nazaré. E 33 anos depois disso, quando a cruz é erigida e ele sacrificado, só algumas centenas adivinhariam que uma nova civilização começava.

 

 

 

ENUMA ELISH - O GÉNESIS BABILÓNICO,

o mito babilónico da Criação, fim do 3º milénio AC. Como "...No princípio..."

"Quando lá no alto ainda o Céu não tinha nome

Nem a terra firme cá em baixo nome tinha...

Nenhuma cabana de colmo havia sido entrançada,

Nem pântano aparecido,

Quando deus nenhum havia ainda sido criado,

Nem chamado pelo nome, nem o seu destino determinado -

Foi então que os deuses foram formados

 

 

O DEUS RÁ NO ANTIGO EGIPTO

Era este deus que criava e mantinha a Vida. Personificava o Sol e acreditava-se que tinha sido ele o portador da Luz para um mundo antes escuro e frio. A lenda conta que o todo poderoso Rá se tinha criado a si próprio por um simples acto de vontade. Noutro mito, ele surge a partir de uma flor de lótus, na forma de um escaravelho, símbolo de nascimento e renascimento. O escaravelho – sempre presente na simbologia egípcia, ter-se-ia em seguida transformado numa criança cujas lágrimas povoaram a terra de criaturas viventes. Rá teria reinado sobre elas como o primeiro rei do Egipto.

Rá surge a cada dia com a aparência de uma bela criança, entrava num barco e atravessava o Céu na companhia de outros deuses, passando pelas suas 12 províncias, cada uma correspondendo a uma hora do dia. Ao atingir o ‘centro do Céu’, Rá estava no zénite, no máximo da idade viril e do vigor. Ao fim da tarde estava esgotado e então ao deitar era apenas um velho impotente. À noite, Rá embarcava noutro navio que os deuses guiavam através das 12 províncias do mundo inferior – as horas nocturnas. Aí, Rá tinha que enfrentar serpentes e demónios que procuravam abusar da sua fraqueza. Mas Rá sempre ressurgia das trevas do mundo inferior, pronto para novamente lançar-se triunfante no céu da manhã.

 

ABRAÃO DE UR

Ur assiste há cerca de 4000 anos ao nascimento de Abraão. Ele é tido como o pai das 3 religiões monoteístas surgidas nessa zona, considerada o berço da civilização ocidental. São elas o judaísmo, cristianismo e islamismo. Aqui nasceu e viveu, antes de deixar a Mesopotâmia em direcção à terra de Canaã, na Palestina.

O pai de Abraão, Térah (Azar, no Corão), descendia directamente de Noé (Ziousudra, para os sumérios). Os babilónios conheciam esta história através da Epopeia de Gilgamesh, o rei-herói, mas aí Noé-Ziousudra é chamado de Ut-Napishtim. Segundo alguns historiadores recentes, a Arca de Noé efectivamente nunca terá deixado a Mesopotâmia, tendo sido arrastada para os lados do Curdistão, na região de Sulumaniya.

Contemporâneo de Térah, pai de Abraão, surge Nimrod. Autoproclamou-se rei da cidade de Kutah-Rabah. A história conta que a mãe de Nimrod quando este era ainda bébé o terá achado demoníaco e pretendeu afogá-lo. Atirou-o ao Eufrates. Nimrod seria salvo e alimentado por uma pantera e mais tarde recolhido por um pastor. Em adulto revela-se um autêntico líder. Após ser rei escolhe Térah para seu confidente e conselheiro. Mas em breve o poder lhe subirá à cabeça e tornado rei de Ur considera-se como uma incarnação divina. Doravante obriga o povo a venerar estatuetas suas. Térah lucra com isso pois cria uma oficina e lojas para as estatuetas.

Supersticioso, Nimrod é assaltado por pesadelos onde uma voz lhe diz que "serão danados os que não adorarem o deus de Abraão, que a verdade surgirá um dia e a mentira será banida..." No sonho as estatuetas desfazem-se. Interpretam-lhe o sonho dizendo que no seu reino nasceria uma criança, Abraão, que quando adulto, o derrubaria a si e à religião da Mesopotâmia, e aconselham-no a mandar matar todas as crianças do sexo masculino.

Amatlai, mulher de Térah, futura mãe de Abraão, engravida entretanto. Convence-se de que vai Ter um rapaz e para escapar à recente lei de extermínio esconde a sua gravidez e dá à luz numa gruta algures perto de Ur. A terra aí plana poderá desmentir o mito da gruta e dar antes mais crédito a outros textos que dizem ter a mãe de Abraão procurado uma pequena ilhota ao longo do Tigre e do Eufrates, pensando-se hoje que ela ter-se-á escondido algum tempo em Borsippa, cidade próxima da Babilónia, também conhecida como Birs-Nimrod.

As histórias ou o simbolismo sobre a perseguição e o nascimento de Abraão fazem recordar toda uma repetição posterior no tempo de Cristo. Abraão, diz-se ser ele um protegido do anjo Gabriel. Só aos 13 anos de idade de Abraão é que o seu pai Térah sabe que Amatlai dera à luz secretamente. Tentará ainda convencer o rei Nimrod que Abraão nada teria a ver com a predição do sonho. Nessa altura – e até à ida para a Palestina - o nome de Abraão era ainda Abrão. Ele entendia já o movimento das estrelas, como "regido por um poder, um ente supremo e que esse poder era um deus único, senhor de todas as coisas".

Por seu lado, ao saber de Abraão, Nimrod exalta-se. Tenta prendê-lo mas falha. Procura afastar o mau agoiro e muda a capital do reino e até o seu próprio nome. A nova sede é a cidade da Babilónia e daqui para diante Nimrod será conhecido como Hamurábi! Leva Térah com ele e proíbe Abraão de deixar Ur.

Abraão cresce e quer defrontar Nimrod. A história conta que Abraão ouve deus a ordenar-lhe que vá para a Babilónia e é para aí levado aos ombros do seu protector, o anjo Gabriel, numa viagem relâmpago de um dia. Aí prega ‘um deus único, de um único Céu, deus dos deuses e deus de Nimrod’. Procura levar Nimrod a abandonar o culto aos ídolos, e é também aí que se casará com Sara. As ruínas, o que resta hoje da Babilónia, já não é a Babilónia de Hamurábi mas o que ficou da cidade reconstruída mais tarde por Nabucodonosor II (605-562 AC), pois havia sido destruída entretanto por invasores e arrasada pelo rei assírio Senaquerib em 689 AC. A Torre de Babel datará dos tempos de Hamurábi (portanto posterior ao tempo sumério e já existiam aí os mitos sobre o deus Enki e a confusão das línguas por ele operada, talvez retomado nos tempos babilónicos com o desmantelar da torre).

Nimrod não aceita as ideias de Abraão. Este com um machado destrói em série as estatuetas. Tal gesto escandaliza a população que exige que Abraão seja queimado na fogueira. Nimrod prende-o e põe-no 40 dias sem comer. Será depois colocado na fogueira mas segundo o mito as chamas não o consomem e extinguem-se. A população vê nisso um milagre e é aí que muitos dos babilónios se convertem à religião de Abraão e renegam os seus ídolos.

Agora a família de Abraão decide voltar a Ur. Abraão já está casado com Sara. Ur mudara muito. As areias do delta aumentavam, a capital degradava-se. Resolvem seguir para a terra de Canaã, Eufrates acima, pela margem, até Harrã, centro religioso e comercial, na parte sul do que é hoje a Turquia. A fé que dominante aqui era a mesma que existia em Ur. A família até se sentia bem aqui mas Abraão insistia em pregar a nova religião. Estudava as estrelas. Pretendia agora um filho de Sara. De Ur, chegavam-lhe pedidos para que regressasse. Mas de novo ouve uma voz que o incita a ir para a terra de Canaã. Foi então para esse ‘exílio’ sem saber se algum dia voltaria à sua saudosa Mesopotâmia.

Agora, novas teses se levantam, algumas contrariando tudo o que se disse nas últimas décadas: um investigador inglês, John Sassoun, afirma que Abraão era sumério e fugira de Ur para escapar à colonização acadiana. A queda da civilização suméria ocorre cerca de 2350 AC quando o rei Sargão, da Acádia – os acadianos eram semitas – toma o poder na Mesopotâmia. Os agora acadianos teriam vindo anteriormente da Arábia. Emigravam também agora para Ur. A ideia de Sassoun é que os sumérios fugiram em massa para preservar a sua cultura e civilização e os que foram então para a Palestina proibiram-se de qualquer mistura com a população local que contudo era também maioritariamente semita.

Não é por fazer parte da família das línguas árabes que se conclui que os judeus eram semitas (os da linhagem de Sem, um descendente de Noé). Os Hebreus chegam à terra de Shinat – Babilónia – pelo leste, como nas mais antigas versões da Bíblia, e não pelos desertos árabes no sudoeste da Mesopotâmia. Se não eram sumérios, conclui Sassoun, então vieram do mesmo sítio, para além do Irão, provavelmente da Índia. No entanto, muitos historiadores localizem a origem dos sumérios nas terras para lá do Cáspio, ou como Transcaucasianos, vindos primeiro como mercenários ou sacerdotes. A tese de Sassoun é revolucionária mas não tem qualquer texto antigo a corroborá-la.

Os arianos foram um povo nómada indo-europeu que acaba por invadir o Punjab cerca de 1500 AC e dão origem à civilização indiana. Antes haviam-se estabelecido onde é hoje o Iraque, afinal a mesma zona de que falamos quando nos referimos à Mesopotâmia, e aos sumérios e babilónios. A sua presença nestas paragens foi contemporânea com a de Abraão. Para alguns, Aryan derivará de Ur, onde teriam sido habitantes nos primórdios da Antiguidade. Para outros a palavra significará ‘nobre’. Diz-se ainda que a figura e actos de Abraão terão inspirado o Ramayana indiano, um poema em sãnscrito que conta a história do príncipe Rama, reincarnação do deus supremo Vishnu, descido à Terra para instaurar a Paz e a Justiça, seguindo o ideal antigo dos arianos. O poeta Valmiki inspirou-se então nas lendas trazidas do Iraque pelos viajantes arianos para compor o Ramayana no 1º milénio AC. São ainda citadas analogias entre os termos Rama e Abram (Abraham), Abraão. Para baralhar ainda mais as ideias, há alguns anos descobriu-se o nome de Ab-Ramu numa placa desenterrada em Ebla, na Síria, e houve logo arqueólogos que concluíram que Abraão não era da Caldeia mas sim da terra de Cham, tendo encontrado nesta região uma cidade que se teria também chamado Ur, a partir do 3º milénio AC...

(adaptado do DN-magazine de 02-01-2000)