SNOW CRAH – Citações e análise

 

Um ficheiro de Informação pertinente foi legado por Lagos - um investigador que mais tarde é encontrado assassinado - a Hiro Protagonist, o nosso herói. Esse material existe dentro de um directório informático com a referência ‘Babel’ -Infocalipse’. Hiro, um ‘Deliverator’, entregador de pizzas, mas também e sobretudo um programador destacado, interessa-se pelo assunto. Babel... babble... Infocalipse? Revê os diversos conceitos.

Babel, histórica e geograficamente, era uma cidade na antiga Babilónia, uma cidade lendária. Babel é um termo bíblico para a Babilónia. A palavra é semítica. Bab = portão e El = Deus. BabEl = o Portão de Deus. Terá também algo de onomatopaico, como imitando alguém que fale numa língua incompreensível, num balbuciar. A Bíblia está cheia deste tipo de relações linguísticas.

Uma torre construída em direcção ao céu, derrubada por deus... Há nisto tudo uma antologia de mal-entendidos e concepções erradas. Deus nada terá feito à tal torre, apenas se estabeleceu um hiato, foi suspensa a construção. "... e o Senhor disse: que parem. Eles são um só povo e com uma só língua. E isto será apenas o começo do que se preparam para fazer. Nada mais será impossível para eles se continuam. Desçamos e confundamos a sua linguagem tal que não se entendam mais uns aos outros. Assim o senhor espalhou-os a todos por toda a face da Terra deixando eles de construir a cidade e a torre. Daí em diante o nome da cidade tornou-se Babel pois foi aí que o senhor confundiu a linguagem de todos sobre a Terra". – Gen. 11 6-9

Hiro em diálogo com o bibliotecário artificial:

"Então a torre não foi destruída... foi suspensa..."

"Correcto" – responde o assistente electrónico da imensa biblioteca existente em rede.

"Trata-se então de um bogus!"

"Bogus?"

"Provavelmente falso, algo vago" – Olha, por exemplo, Juanita, uma amiga minha, acredita que nada é declaradamente verdadeiro ou falso na Bíblia. Pois, se fosse comprovadamente falso, então a Bíblia é uma mentira. E se fosse comprovadamente verdadeiro, então a existência de Deus era provada e deixava de haver espaço para a fé! A história de Babel é comprovadamente falsa pois se eles construíram uma torre para o céu e deus não a derrubou então ainda estaria por aí, ou pelo menos algum vestígio...

"Assumir que ela, a torre, era muito alta é apenas mais uma ideia obsoleta: pois a torre é descrita literalmente como ‘o seu cimo com os céus’. Foi durante séculos interpretado como dizendo que o topo era tão alto que chegava ao céu, mas durante o último século, ao escavarem-se e descobrirem-se vários dos zigurates babilónicos, viu-se que tinham inscritos nos seus topos diagramas astrológicos, imagens dos céus. A história autêntica será a de uma torre construída com motivos, diagramas celestes, gravados no topo. Mais plausível que uma torre a chegar ao céu. ‘Deus atingiu’, desceu sobre os homens, irado, mas a torre não foi atingida directamente. Eles é que deixaram de a construir devido ao desastre informacional que sofreram, não podiam mais falar uns com os outros. E a propósito, desastre é até um termo astrológico que significa má estrela..."

* * *

Simultaneamente e noutro quadrante, aparentemente, a América debate-se com um novo fenómeno. O continente está prestes a ser atingido por uma onda de ‘biomassa’ humana, de mais refugiados... ‘Biomassa’ é afinal uma porção de matéria viva. Um termo ecológico. O que fica se de 1 km3 de floresta equatorial ou oceano se retirar toda a matéria inorgânica, sujidade e água? É também uma expressão da indústria. A indústria ‘alimenta-se’ da biomassa humana, tal como a baleia abocanha e filtra o krill! No livro, surge uma imensa ‘jangada’ que tem a função de trazer mais biomassa, para ‘renovar’ a América.

A maior parte dos países são estáticos, limitam-se a assegurar a natalidade. Mas os EUA ‘são como uma máquina gigante, envelhecida e a fumegar que se arrasta apenas pela paisagem, apanhando e engolindo tudo o que surge. Atrás de si deixa um rasto imenso de lixo. Mais e mais combustível é necessário...’

"A história do Labirinto e do Minotauro, em Creta, lembram-se? - sugere Hiro - os gregos tinham que arranjar anualmente algumas jovens virgens como tributo a enviar a Creta. O rei punha-as aí no labirinto e o minotauro devorava-as. E porque é que ninguém se mexia contra isso? ‘Domesticados’, enviavam todos os anos as crianças para a matança. A América actualmente desempenha o mesmo papel que Creta representava para os pobres gregos, porém sem obrigação. Dos países pobres enviam os seus de livre vontade, para este novo labirinto, aos milhões, para serem devorados. A indústria alimenta-se deles e de volta cospe, regurgita imagens, produz e envia mais filmes e séries de TV, imagens de prosperidade e coisas exóticas para lá do alcance dos seus sonhos mais ousados".

Mas há mais perigos no ar. Talvez, afinal, estejam todos ligados... Hiro disserta sobre uma nova ameaça que paira agora sobre os programadores: "Os programadores, hackers, nas ‘linhas de montagem’ de software são patetas ávidos por infecção e irão cair aos milhares – dissera-lhe Lagos, o detective morto - tal como o exército assírio de Senaquerib defronte das muralhas de Jerusalém".

"Se se é um hacker ou programador, significa que se possui desenvolvidas certas estruturas profundas cerebrais, matrizes neurolinguísticas, com que se tem que preocupar neste novo ambiente cibernético. Como? Da primeira vez que aprendemos código binário, por exemplo, o cérebro moldou-se, inicia a formação de ligações e estruturas ao nível mais profundo para acomodar e gerir essse novo tipo de informação. Os nervos fazem crescer novas ligações conforme vamos usando essas novas áreas. Os ‘axónios’ dividem-se e abrem caminho por entre as células gliais em separação. Isto é, o ‘bioware’ auto-modifica-se, evolui. O software, o novo tipo de informação, torna-se parte do hardware, do equipamento biológico. Todos os hackers e programadores tornam-se assim vulneráveis a um certo ‘nam-shub’ ".

"Nam-shub?" – interrogara-se Hiro.

"Feitiço, encanto. Um exemplo – havia-lhe explicado Lagos - no antigo culto a Asherah, as prostitutas procuravam espalhar a ‘doença’, aqui sinónimo de ‘mal’. Para os da Mesopotâmia não havia qualquer conceito independente de ‘mal’. Apenas doença ou saúde má. O mal era um sinónimo de doença. Aqui, o mal é um vírus. Não deixes o nam-shub penetrar no teu sistema operativo biológico (o sistema neurolinguístico)". Lagos detalhara a ameaça, um ficheiro binário de imagem: "You can’t get hurt by looking at a bitmap, or can you?" Não adoecemos por olhar para uma imagem bitmap...?" Ou será que podemos mesmo ser atingidos?

O que se passa afinal no livro com os hackers ‘infectados’ que começam a surgir? Não haverá qualquer diagnóstico médico físico. É um problema de software, não de hardware. A um dos programadores aparentemente ‘desligados’, enlouquecido, foi feito um CAT, NMR, PET, EEG... e fisicamente estava tudo bem. Não havia nada de errado com o cérebro, o hardware, mas só com o ‘sistema operativo’. O seu software foi ‘envenenado’. Teve um snow crash dentro da cabeça, para lá dos problemas psicológicos das categorias conhecidas. Um novo fenómeno, na realidade, um muito antigo. Ele tinha apenas olhado para uma imagem em computador, que parecia a ‘chuva’ da televisão..., estática.

"The bitmap wasn’t just random static. Was flashing up a large amount of digital information in binary form". Afinal a imagem bitmap mostrada não seria apenas estática mas introduzia vastas quantidades de informação digital binária para o cérebro. Esta, ia direita ao nervo óptico do sujeito que na realidade é já parte do cérebro, um terminal do cérebro. Se se era um hacker podia-se ler código binário directamente. Essa habilidade estava já profundamente gravada nas estruturas cerebrais. Logo, ficava-se susceptível a esse tipo de informação. Então, de que tipo de informação estamos a falar, essa que passou para o cérebro?

"Um ‘metavírus’, a ‘bomba atómica’ da guerra informacional. Um vírus que causará ou permitirá um sistema auto-infectar-se com novos vírus."

L. Bob Rife é neste livro o dono, não do Black Sun, a firma original de programação a que pertenceu Hiro, mas do Metaverse, a actual multinacional planetária, global, de comunicações e informática, TV, cabo, etc, e respectiva multidão de programadores. Ele é o mau da fita, o ‘senhor dos vírus’ e de uma droga associada – o Snow Crash - e não apenas no aspecto informático. Vírus... Em termos de informação, uma frase pode até ser como um vírus, o conceito hoje em dia é vasto. Dados, pedaço de informação, que passam de pessoa para pessoa, espalham-se.

O outro vector: sangue e drogas. Uma antiga programadora atingida fala de como aquilo lhe aconteceu e da vida a bordo da jangada, nessa mistura de ex-hackers e falabalas, essa mole de refugiados falabaratos que parecem dominar uma nova língua imperceptível. My old life stopped. Back to baby talk. My computer was having problems. My system crashed. I saw static. After, they said my blood had been washed. That I belonged to the word now. In the ‘raft’, more programmers who had seen the word. Seen on computers or in the TV. In the raft we gave blood! (A minha vida anterior chegou ao fim. Parece que tinha voltado à fala de bébé. Aconteceu quando o meu computador começou a ter problemas. O sistema foi-se abaixo. Só via estática no écran. Mais tarde disseram-me que o meu sangue já havia sido lavado, que passava a fazer parte da nova palavra. Então, já na ‘jangada’, vi mais programadores que também eles já haviam visto a Palavra. Nos computadores ou na TV. Na ‘jangada’ dávamos sangue...)

Em termos químicos, a versão tipo droga do "Snow Crash" is a ‘roid" - comportar-se-á como um esteróide. Atravessa as paredes celulares como tal, e interfere então com o núcleo, tal como o vírus, do herpes, por exemplo. Altera o DNA. O ‘anel dos 17’ é o que se chama a um grupo químico com a mesma estrutura básica incluindo as hormonas artificiais, os esteróides, a testosterona, e que funciona como que uma chave mágica a passar pelas paredes celulares. Todos eles têm portanto uma estrutura básica, moléculas com um anel de 17 átomos. Assim os esteróides são substâncias potentes quando lançadas no corpo humano, vão até ao íntimo da célula, ao núcleo, e alteram a forma de funcionamento deste.

Quanto ao Snow Crash na forma de droga, não o é na verdade mas aparece associado a uma combinação delas para que as pessoas o tomem. É soro sanguíneo processado, retirado de gente já ‘infectada’, programadores atingidos com esse novo fenómeno misterioso que os está a atingir e enlouquece. Inicialmente ra apenas a versão em imagem de ‘chuva’ o tal bitmap estranho. O soro é afinal agora mais um meio de se espalhar. Mas a dispersão tem ainda novos vectores. Outro meio existe, finalmente, através da igreja pertença de L. Bob Rife. "Mas então o Snow Crash, isso é um vírus, uma droga ou uma religião?"

"Qual é a diferença?"

"Toda a gente tem ‘religiões’. É como se tivéssemos receptores para a religião inseridos nas nossas células, na nossa estrutura cerebral. Logo, temos que preencher esse nicho. A religião costumava ser essencialmente ‘viral’, um pedaço de informação que se replicava no interior da mente humana – o seu hospedeiro – saltando de pessoa para pessoa. Esta era a forma habitual e infelizmente é ainda o caminho actual. Contudo tem havido esforços no sentido de nos retirar das mãos deste tipo de religião primitiva irracional."

"O primeiro esforço foi efectuado por ‘alguém’ chamado Enki, há cerca de 4.000 anos. O segundo foi feito pela escola hebraica no 8º século AC., pelos judeus, corridos da sua terra pela invasão de Sargão II, mas isso veio a desembocar num legalismo inconsistente, vazio. Outra tentativa seria feita por Jesus – mas esta foi tomada por influências virais logo 50 dias após a sua morte, nos Pentecostes. O ‘vírus’ seria suprimido pela igreja católica mas estamos actualmente no meio de uma grande ‘epidemia’ iniciada no Kansas em 1900."

"Pelo que diz Juanita - ‘acredito em deus e em Jesus, mas não na ressurreição corporal, física’. "

"Como assim?"

"Quem estude a sério os evangelhos vê que a ressurreição é um mito que foi anexado à história real anos após as histórias concretas terem sido escritas."

E agora a nova igreja de L. Bob Rife está a usar um processo também muito antigo para se espalhar, difundir informação – a glossolália. É o que parece estar a acontecer por entre essa ‘biomassa’, essa turba de refugiados transportada pela ‘jangada’ de Bob Rife em direcção à América.

- Glossolália?

Glossolália – o ‘falar línguas’, o ‘milagre das línguas’ descrito na Bíblia, nos pentecostes, e em Isaías. Exemplo: a ma la ge zen ba dam gal nun ka aria su su na an da. Ba ma zu na la amu pa go lu ne me a ba du. Ritual religioso. Glossolália é o termo técnico. Um fenómeno neurológico explorado em rituais religiosos. Uma coisa cristã? Os pentecostais cristãos pensavam que sim mas iludiam-se a eles próprios, não foram os precursores. Os pagãos gregos já o faziam. Platão chamava a isso ‘teomania’. Cultos orientais do império romano faziam-no também. Mais: os esquimós da baía de Hudson, shamans chukchi, lapónios, yakuts, os pigmeus semang, cultos do norte de Bornéu, e padres ganenses de língua trhi. Igualmente os zulus do culto amandiki e a seita chinesa shang-ti-hui. Médiuns espíritas de Tonga e os do culto umbanda do Brasil. Os da tribo tungus da Sibéria dizem que quando o shaman mergulha no transe e solta sílabas incoerentes apreende a língua completa da Natureza.

"A língua da Natureza... – como chamam alguns. A tribo sukuma, em África, diz que a linguagem glossolália é kinaturu, a língua dos antepassados de todos os mágicos, que se pensa descenderem de uma certa tribo. Retirando as especulações místicas parece que a glossolália deriva de estruturas enterradas profundamente no cérebro, comuns a todas as pessoas".

- Como é que se observa, como é que agem as pessoas durante a glossolália?

- C. W. Shumway estudou a reconstrução de Los Angeles em 1906 e notou seis sintomas básicos: perda completa do controle racional; domínio da emoção, conduzindo à histeria; ausência de pensamento ou vontade; funcionamento automático dos órgãos da fala; amnésia; manifestações esporádicas ocasionais, como espasmos, contorções. Já Eusébio observara fenómenos análogos por volta do ano 300 dizendo que o ‘falso profeta’ começa por uma supressão deliberada do pensamento consciente e termina num delírio sobre o qual não tem controle. Qual a justificação cristã para isso? Há algo na Bíblia?

- No Pentecostes – que é até uma palavra derivada do grego e significando quinquagésimo, 50. O 50º dia após a crucificação de Cristo. Vejamos no Actos 2: 4-12 " E eles foram impregnados com o Espírito Santo e todos admirados e perplexos diziam uns para os outros – o que é que isto quer dizer, o que significa?" O ocorrido aqui parece Babel ao contrário! Muitas igrejas pentecostais acreditam que o dom das línguas foi conferido para que pudessem espalhar a religião entre outros povos sem terem que aprender a respectiva língua. O termo para isso será antes ‘xenoglossia’, falar uma língua estrangeira. No século XVI São Luis Bertrand alegadamente usou o dom das línguas para converter algo entre 30 e 300 mil índios sul-americanos ao Cristianismo.

- E os judeus, o que pensam dessa coisa ocorrida no Pentecostes, da glossolália?

- Era um período de domínio romano mas existiam autoridades religiosas judaicas. A sociedade de então comportava três grupos principais: os fariseus, os saduceus e os essénios. Os fariseus eram religiosos estritos, conservadores, com uma versão muito rígida da religião. A lei para eles era tudo. Para estes, Jesus era uma ameaça pois propunha um desvio à lei vigente, uma renegociação do contrato com Deus. Os saduceus eram mais materialistas filosoficamente. As filosofias são todas ou monistas ou dualistas. Monistas, dizem que o mundo material, físico, é o único, daí serem materialistas. Os dualistas acreditam num ‘universo binário’, havendo um mundo espiritual em adição ao mundo material. Numa analogia, os computadores vivem num mundo dualista, um universo binário. Baseiam-se no 1 e no 0 para representar todas as coisas.

Esta distinção entre algo e nada, esta separação crucial entre ser e não ser é de facto fundamental e está na base de muitos dos mitos sobre a Criação: mesmo a palavra science, ciência, deriva de um termo indo-europeu antigo significando cortar ou separar. O mesmo termo levaria também à palavra shit que na prática significa separar a carne viva dos dejectos. E é essa mesma raiz que nos dá ainda as palavras scythe (tesoura) e schism, com conexões óbvias ao conceito de separação. E sword, espada, sai de uma raiz também com vários ramos. Um é o de cortar, ou furar; outro é rod, ou poste, cana. E outro ainda é falar.

Falta falar, voltando atrás, ao terceiro grupo social importante entre os antigos judeus: os essénios. Viviam comunalmente e acreditavam que a higiene física e espiritual estavam intimamente ligadas. Eles banhavam-se constantemente, punham-se nus ao sol e usavam enemas – clisteres - e chás. Purgavam-se amiúde além de outros extremos de comportamento para se assegurarem de que a comida era pura, não contaminada. Desenvolveram até a sua própria versão dos evangelhos na qual Jesus curava gente possuída, não por milagres mas sim por lhes retirar parasitas do corpo, como ténias, etc. Tais parasitas eram tidos como sinónimo de demónios, possessão demoníaca. Para eles, não havia distinção entre infecção com um parasita e possessão demoníaca. Só que, eram estritamente religiosos mas à sua maneira e não consumiam drogas Para a época, eles eram um estilo de hippies, ecologistas.

Vírus. Infecção. Nam-Shub... Hiro aproveita o diálogo com o bibliotecário para colocar mais algumas questões.

- O que é um Nam-Shub?

A palavra é um termo sumério. Da Mesopotâmia, de um povo que existiu até 2.000 AC. É a mais antiga das línguas escritas. Será então – perguntam alguns – que as outras línguas derivam desta? Na verdade não. Não se encontram línguas a derivar do sumério. O sumério era uma língua aglutinativa, isto é, uma colecção de morfemas ou sílabas agrupadas em palavras. Não é comum. Se pudéssemos ouvir algo em sumério seria como uma longa torrente de curtas sílabas todas juntas. Tal como os exemplos de glossolália.

- Semelhanças com alguma língua moderna?

- Não, não há qualquer relação ‘genética’ encontrada entre o sumério e outra língua posterior.

- Curioso! O que aconteceu então aos sumérios? Um genocídio?

- Não, foram conquistados mas não há evidências de genocídio. Na história universal há inúmeros casos de conquistas mas a língua dos conquistados não desaparece assim sem mais nem menos. Porque é que o sumério então desapareceu? Só especulando... Haverá ainda alguém que compreenda, leia, descodifique ou estude sumério? Actualmente só umas dez pessoas em todo o mundo. Um em Israel, outro no Iraque, um no museu britânico, outro na universidade de Chicago, um outro na de Pensilvânia.

Mas voltando ao termo nam-shub... refere-se a um discurso com poderes mágicos. Um encanto, feitiço. É o mais parecido em linguagem comum. Os sumérios acreditavam no poder da magia. Aliás, citando Samuel Noah Kramer e John R. Maier, em ‘Myths of Enki, the Crafty God’, New York, Oxford, Oxford University Press, 1989 – religião, magia e medicina estão tão intimamente interligadas na Mesopotâmia que tentar separá-las é frustrante e talvez uma tarefa inútil (...) Os ‘encantos’ sumérios demonstram uma conexão tão íntima entre o religioso, o mágico e o estético, tão completa, que qualquer tentativa de destrinçar uma das facetas conduzirá a uma distorção do todo. "Uma frase com poderes mágicos..." Hoje já não se acredita nisto... Só em realidade virtual a magia, a fantasia é possível! Uma estrutura ficcional feita de código. E o código é apenas uma forma de linguagem – uma forma de linguagem entendível pelos computadores. O ciberespaço, a Internet (no livro é o Metaverso) no seu todo pode ser tido como um único grande nam-shub, permitindo-se a si próprio existir sobre a infra-estrutura de fibra óptica e outras.

A Investigação prossegue agora sobre os ficheiros herdados de Lagos. Há mais três objectos que merecem interesse: o primeiro, trata-se de um obelisco de uns 2,5 metros, uma estela coberta com escrita cuneiforme e com uma figura em baixo relevo gravada no topo. É a estela com o Código de Hamurábi e data de cerca de 1750 AC. O segundo, é um envelope em barro e é sumério, do 3º milénio AC. Foi achado na cidade de Eridu, no sul do Iraque. O envelope contém uma placa no interior também em barro onde se encontra o documento propriamente dito. O envelope protege apenas dos elementos. Eridu foi o centro do culto ao deus sumério Enki. Por fim, o último objecto em forma de árvore é um totem de um culto yahueístico da Palestina, um ‘asherah’ e data de cerca de 900 AC. Como é que estão então os três objectos interligados? Qual o interesse pelos sumérios?

O Egipto foi uma civilização da pedra. Fizeram arte e arquitectura em pedra, para durar séculos. Mas não é prático escrever em pedra. Inventaram então o papiro e escreviam nele, mas o papiro degrada-se facilmente. Embora a sua arte e arquitectura tenham sobrevivido, os seus registos escritos, a sua informação, dados, desapareceu na maior parte. A escrita era essencialmente de slogans, chavões, discurso político demagógico. Uma infeliz tendência para escreverem especialmente a louvar as próprias vitórias militares até antes de as batalhas na verdade ocorrerem.

Na Suméria foi diferente. Uma civilização do barro, da argila. Tanto para a construção como para a escrita. Mas estátuas eram em gesso, pelo que se dissolviam. Tanto os edifícios como as estátuas foram desaparecendo. Contudo, as placas escritas eram levadas ao forno ou colocadas em recipientes, protegidas. Assim, grande parte da informação sobre os sumérios sobreviveu. O Egipto deixou uma herança em arte e arquitectura e os sumérios uma herança em megabytes de informação escrita. Escreviam em tudo, até nas paredes das casas, em cada tijolo. Mesmo nos restos espalhados, nas ruínas, se encontra escrita em abundância. No Alcorão, os anjos enviados contra Sodoma e Gomorra proferem: ‘somos enviados contra uma nação atrevida para que sobre ela façamos cair uma chuva de tijolos assinados pelo Senhor que destrua os pecadores’. Interessante a promíscua dispersão de informação escrita num meio que enfrenta o tempo. Como pólen levado pelo vento...

- O que contém o envelope escrito?

- Talvez um aviso... um tal ‘nam-shub’ de Enki, o deus Enki:

Era uma vez, não havia cobras, não havia escorpiões

Não havia hienas, não havia leões, não havia cães selvagens, não havia lobos,

Não havia medo nem terror, o Homem não tinha rival.

Era uma vez as terras Shubur e Hamazi, a Suméria de língua harmoniosa, a grande terra das divinas leis dos principados,

Uri, a grande terra que tem tudo o que é próprio,

A terra Martu, que descansa em segurança,

O universo inteiro, o povo em uníssono,

A Enlil numa língua fizeram preces.

Mas então o senhor-pai, o príncipe-pai, o rei-pai,

Enki, o senhor da abundância, cujas ordens eram confiantes

Senhor da Sabedoria que vigia a terra, Senhor dos deuses,

Senhor de Eridu, dotado de sabedoria

Nas suas bocas trocou as palavras, instalou a discórdia,

Na fala do homem que havia sido única.

Essa é a tradução de Samuel Noah Kramer. O nam-shub de Enki será tanto uma história como um encanto, uma fantasia afinal auto-executável. Na forma original que a tradução apenas aflora faria na verdade o que ela mesmo descreve. ‘Mudaria o tipo de discurso, de fala, na boca dos homens!’. Seria a história de Babel. A base para a história da Torre de Babel bíblica. Todos falavam antes a mesma língua e então Enki tratou de mudar a sua fala de tal forma que já não se podiam entender uns aos outros.

- Então, anteriormente, todos falariam em sumério. Depois, a partir de certa altura, mais ninguém o fazia. Desapareceu. Tal como os dinossáurios. Mas não há indícios de genocídio que o explique. O que é consistente com a história da Torre de babel e o nam-shub de Enki.

- Babel de facto aconteceu. Surge um vasto número de línguas. Demasiadas até. Dezenas de milhares de idiomas. Nalgumas zonas encontra-se gente do mesmo grupo étnico a algumas milhas de distância umas das outras em vales idênticos, nas mesmas condições, falando línguas sem absolutamente nada em comum. Isto não é um caso isolado. É o que ocorre em muitos sítios. Os linguistas tentam compreender Babel e a questão porque é que as línguas tendem a fragmentar-se em vez de dinvergirem (?) em relação a uma língua comum. Alguma teoria existe?

- Pois, há quem ache mesmo que Babel foi de facto um acontecimento real, histórico. Aconteceu num local identificado do espaço e do tempo, coincidindo com o desaparecimento da língua suméria. Que anterior ao ‘infocalipse’ de Babel as línguas tendiam na verdade a convergir. Que depois disso, as línguas têm tido sempre uma tendência inata para divergir e tornarem-se mutuamente incompreensíveis e que esta tendência reside e permanece enrolada como uma serpente à volta do tronco cerebral humano.

- Só se explicaria todo esse fenómeno se algo tivesse havido que alastrasse por entre toda a população mudando as mentes de tal forma que as deixassem incapazes de processar doravante a língua suméria. Tal como um vírus passando de um computador a outro danificando cada uma das máquinas por onde vai circulando, enrolando-se à volta do cérebro (ou circuitos)!

- Há quem chame então a esse fenómeno do nam-shub de Enki um vírus neuro-linguístico.

- Mas Enki, serria um personagem real?

- Possivelmente, como se vê noutros casos históricos mesopotâmicos de deificação de sobreanos ou de altos sacerdotes.

- E Enki, teria inventado o tal ‘vírus’ e espalhou-o através da Suméria usando as tais tabletes de barro...?

- Na verdade foi descoberta até uma placa contendo como que uma carta ao deus Enki em que um escriba se queixa.

- Uma carta ao deus Enki?

- Uma carta de um tal Sin-Samuh, o Escriba. Começa por louvar a Enki e realçar a devoção que lhe tem. Então, começa o lamento:

"Como um jovem (... inexperiente ?)

De pulso paralisado

Como um carro com o eixo partido

Fico imóvel

No leito da angústia gemendo Não!

Solto os meus queixumes

O meus corpo antes gracioso estende-se

Pés travados

Põe-me (...) para a cova

O meu aspecto mudou

À noite já não consigo dormir

A força foi-me destroçada

Enquanto a vida me sugam

O dia radioso em trevas se tornou

Para a sepultura deslizei

Eu, um escritor, que muitas coisas conheci, num torpe me tornei

A minha mão a escrita parou

A boca, o discurso abandonou.

(...)

Meu deus, é a ti quem temo.

Uma carta te escrevi.

De mim tem piedade.

O coração do meu deus - dá-mo de volta.

 

- Bem, e sobre essa estela preta, o que é que existe de informação?

- O obelisco tem o código de Hamurábi e é de cerca de 1750 AC. Enki investiu bastante na transmissão dos seus conhecimentos ao seu filho, o deus Marduk, a divindade principal para os babilónios. Os sumérios adoraram Enki e os babilónios, posteriores aos sumérios, adoraram Marduk, o seu filho. E sempre que disso tinha necessidade Marduk recorria ao pai Enki para ajuda. Nesta estela vemos uma representação de Marduk, no trono, com Hamurábi de pé. Segundo Hamurábi, o código foi-lhe entregue pessoalmente por Marduk. Uma ampliação à estela mostra no topo a representação do deus Marduk entregando a Hamurábi algo parecido com um ‘0’ e um ‘1’. Emblemas do poder real de origem obscura, perde-se na noite dos tempos. Enki será o responsável por esse ‘1’, a ordem, o ser... – especula Hiro no romance.

- Resta falar sobre a Asherah, o tal poste ou árvore sagrada? De que é que se trata? Um totem da deusa Asherah? Já antes ouvi, do próprio Lagos, uma frase comparando, e alertando, sobre algo como as prostitutas do culto de Asherah. Quem era Asherah?

- Era a esposa de El, também conhecido como Yahweh, isto para os judeus, mas com raízes muito mais antigas derivando de raízes mesopotâmicas e até sumérias. Ela é assim ao longo dos tempos e locais também conhecida por muitos outros nomes. Elat era o seu epíteto mais comum. Os gregos conheciam-na como Dione ou Rhea. Os canaanitas chamavam-lhe igualmente Tannit ou Hawwa - o mesmo que Eva! O étimo de Tannit, proposto por Cross, é o feminino de Tannin que significaria ‘o da serpente’. Asherah possuía ainda um outro epíteto na idade do bronze, ‘dat batni’, significando precisamente ‘a da serpente’. Para os sumérios ela era a Nintu ou Ninhursag e o seu símbolo era o de uma serpente enrolada numa árvore ou pau, aquilo a que se chama um caduceu, portanto com origens bem anteriores às gregas do caduceu de Hermes-Mercúrio e de Asclepius, como símbolo de salvação ou da medicina.

- Quem adorava Asherah?

- Toda uma população desde a Índia até Espanha e desde o 2º milénio AC até dentro da era cristã. Com a excepção dos hebreus que só a adoraram até às reformas religiosas de Ezequiel e Josiah. Os hebreus não eram monoteístas Podemos antes chamar-lhes monolatristas. Não negavam a existência de outros deuses mas era suposto adorarem apenas Yahweh. Asherah era venerada sendo esposa de Yahweh!

- Não me lembro de na Bíblia, Deus ter uma mulher...!

- Pois, a Bíblia como tal ainda não existia. O judaísmo era uma colecção dispersa de cultos yahweísticos cada um com diferentes tendências e práticas. As histórias sobre o Êxodus ainda não estavam formalizadas em escrituras. Nem as partes posteriores da Bíblia tinham ainda ocorrido.

 

- Quem decidiu então purgar Asherah do judaísmo?

- A escola deuteronómica. Os que escreveram o livro do Deuteronómio assim como o de Joshua, Juízes, Samuel e Reis. Eles eram essencialmente nacionalistas, monárquicos, centralistas. O núcleo duro dos Fariseus, em suma. Na altura em que o rei assírio Sargão II acabara de conquistar Samaria, o norte de Israel, levando à migração dos judeus para sul, para Jerusalém. Jerusalém cresce e os hebreus iniciam uma ocupação de território mais para ocidente, leste e sul. Foram tempos de intenso nacionalismo e fervor patriótico. A escola deuteronómica encorpava então estas atitudes nas escrituras rescrevendo e reorganizando os velhos contos, reeditando-os. Como? Moisés, por exemplo, acreditava ser o rio Jordão a fronteira de Israel mas os deuteronómicos agora mantinham que Israel incluía a Transjordânia pelo que se justificava a progressão para leste. Mas há mais: a lei pré-deuteronómica nada dizia sobre um monarca. Ao contrário, a lei rescrita pela escola deuteronómica reflectia já um sistema monárquico. Enquanto a legislação anterior se preocupava maioritariamente sobre os assuntos sagrados, a nova lei saída desta escola vem agora debruçar-se sobre a educação do rei e da sua gente, assuntos seculares. Os deuteronómicos insistiam entretanto também em centralizar a religião no Templo de Jerusalém, destruindo os centros de culto exteriores.

"Acrescente-se ainda que o Deuteronómico é o único livro do Pentateuco que se refere a uma Torah escrita segundo o desejo divino, sobre o comportamento do rei: ‘... e quando ele se senta no trono (...) que possa continuar no seu reinado, ele e os seus descendentes, em Israel’ – Deuteronómico 17: 18-20"

- Então os deuteronómicos codificaram a religião, puseram-na numa entidade organizada, auto-replicável, auto-propagável. A Torah, agindo como um vírus, usando o cérebro humano como hospedeiro. O hospedeiro, o Homem, elaborando dela novas cópias. E mais gente acorria à Sinagoga para a ler.

- Em suma, os deuteronómicos reformaram o Judaísmo. Em vez da prática de sacrifícios os judeus agora iam à Sinagoga e liam ‘o Livro’. Se não fossem os deuteronómicos estariam ainda, talvez, a sacrificar animais e a propagar os seus credos pela tradição oral. ‘Partilhando seringas’.

- E a ideia de a Torah, a Bíblia, serem então elas próprias um vírus?

- Algo de comum em certas coisas com um vírus, mas diferentes num caso. Como um vírus benigno, como os usados para vacinações. Neste ponto de vista considerar-se-ia Asherah e as suas práticas como o vírus mais maligno, capaz de se espalhar até pela troca de fluidos corporais. Então, em suma, a estricta religião baseada em livro, dos deuteronómicos, inoculava os hebreus contra o vírus Asherah, em combinação com a estrita monogamia e práticas kosher (higiénicas e sagradas).

"As religiões anteriores, da Suméria até aos deuteronómicos, são conhecidas como pré-racionais. O Judaísmo surgiria então como a primeira das religiões racionais e como tal muito menos sujeita a infecções virais ao ser baseada em registos fixos, escritos. Era esta a razão para a veneração da Torah e do cuidado extremo posto ao elaborarem-se novas cópias dela – higiene informacional!"

- E hoje, estaremos então em que era, na pós-racional?

- Asherah parece ter sido uma portadora, digamos, de ‘infecção viral’. Os deuteronómicos terão identificado tal situação e ‘exterminaram-na’ ao bloquearem todos os vectores pelos quais infectava novas vítimas. No respeitante a isto, infecções virais e grosso modo, examinemos o vírus da herpes simplex, que se aloja no sistema nervoso e nunca desaparece completamente. É capaz na verdade de inserir novos genes para os neurónios existentes e geneticamente modificá-los. Um trabalho de reengenharia. Os terapeutas genéticos actuais usam-no até para esse propósito. O herpes simplex poderá ser um descendente benigno, moderno, de Asherar. Nem sempre benigno: em complicações associadas à sida, por exemplo, na fase final, lesões por herpes podem passar dos lábios até ao fundo da garganta. Benigno se tivermos imunidades.

- Então o vírus Asherah na verdade alterava o DNA das células cerebrais?

- A parte central da hipótese é que o vírus se pode transmutar ele próprio de algo transmitido biologicamente, DNA, para uma série de comportamentos...

- Comportamentos...? Como é que se processava a adoração a Asherah? Sacrifícios?...

- Sacrifícios não, mas há larga evidência de prostituição cultual tanto masculina como feminina. Figuras, entidades religiosas no local, no templo e em redor, ofereciam-se, mantinham relações com todos, os crentes... Um caminho óptimo para espalhar um vírus!

"Anteriormente falámos numa ligação... Eva-Asherah. Eva, cujo nome bíblico é Hawwa é claramente a interpretação hebraica de um mito mais antigo. Hawwa é uma deusa-mãe ofidiana, associada a serpentes. Tal como Asherar que é também uma deusa-mãe ofidiana. E também ambas associadas com árvores. Na Bíblia, Eva é tida como responsável por levar Adão a comer o fruto proibido, tirado da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. Que é como quem diz, não é apenas um fruto mas sim Informação. (ou consciência, é este afinal o grande ‘pecado’!)"

"Quanto aos vírus concretamente, podemo-nos interrogar se terão estado sempre presentes entre nós. Em geral pensa-se que sempre existiram mas isto pode não ser verdade. Talvez tenha havido um tempo no início em que não existissem ou fossem no mínimo raros. E a certa altura quando surge um ‘metavírus’, então o número de diferentes vírus explode. As pessoas adoecem em largas quantidades, como agora. Isso talvez explicará o mito existente em várias culturas sobre um paraíso anterior e uma ‘queda’ desse paraíso."

"Voltando um pouco atrás, aos Essénios, eles até pensavam que as ténias e outros parasitas eram ‘demónios’. Se tivessem alguma ideia sobre vírus teriam pensado deles a mesma coisa. Já para os sumérios, não havia também um conceito de Bem e Mal absoluto, isolado. Segundo S. N. Kramer e P. Maier, para os sumérios o que existia era demónios bons e maus, os bons traziam a saúde física e emocional, os maus eram os responsáveis pela desorientação (caos!) e uma variedade de males tanto físicos como emocionais. E estes demónios dificilmente podem ser distinguidos das doenças que personificam e muitas dessas doenças até soam aos nossos ouvidos como se fossem psicossomáticas (tal como a ‘doença’ do hacker Da5id, no livro)".

"Então, é como se os conceitos de Bem e de Mal tivessem sido inventados pelo escritor de Adão e Eva, do mito, em ordem a explicar porque é que se cai doente, porque se possui vírus tanto físicos como mentais. Assim, quando Eva (Asherah) leva Adão a comer o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, ela estava a introduzir o conceito do Bem e do Mal no mundo, a introduzir o ‘metavírus’, o que criou ou proporcionou os vírus propriamente ditos e/ou a sua dispersão."

- Quem escreve então o mito de Adão e Eva?

- Há muita discussão sobre isso... mas um tal Nicolas Wyatt’s interpreta de uma forma radical o mito e supõe que ele foi de facto escrito como uma alegoria política pelos deuteronómicos.

- Mas eles escreveram os livros posteriores, não o Génesis?...

- Estiveram porém envolvidos na compilação e edição dos livros anteriores. Por algum tempo pensou-se que o Génesis fora escrito por volta de 900 AC ou até antes, muito anterior ao surgir dos deuteronómicos. Análises recentes ao vocabulário e conteúdo sugerem que grande parte do trabalho editorial e possivelmente até autoral foi efectuado por alturas do Exílio quando os deuteronómicos tomaram preponderância. Assim, terão rescrito a história de Adão e Eva.

"De acordo com a interpretação de Hvidberg e depois de Wyatt, Adão no seu jardim é uma parábola ao rei no seu santuário, especialmente ao rei Hosea que governou o reino do norte, o de Israel, até à sua conquista por Sargão II em 722 AC, a mesma conquista já antes mencionada e que levou muitos hebreus – incluindo os deuteronómicos – para sul, para Jerusalém. O Eden, a palavra hebraica para delícias, corresponde então ao estado de graça em que o rei se encontrava anterior à conquista feita por Sargão II. A expulsão do paraíso para as terras agrestes mais a leste é pois uma parábola à deportação em massa dos israelitas para a Assíria seguinte à vitória de Sargão II. De acordo com esta interpretação o rei havia sido desviado do caminho da rectidão ao manter o culto a El associado à adoração a Asherah que surge normalmente, como se disse, associada às serpentes e cujo símbolo é também uma árvore. De certa forma essa ligação a Asherah levou-o a ser derrotado, conquistado. Então, quando os deuteronómicos se estabelecem em Jerusalém usam a história de Adão e Eva como um aviso para este reino sobrevivente no sul, o reino de Judá. E talvez porque ninguém os escutasse devidamente, terão inventado, inserido, o conceito do Bem e do Mal nesse processo, como um atractivo, um chamariz..."

"Não Sargão II mas um seu sucessor, Senaquerib, é quem tenta a conquista desse reino do sul. Porém o soberano de então nesse reino do sul, o de Judá, Hezekiah, preparara-se devidamente melhorando as defesas em redor de Jerusalém, incluindo o fornecimento de água potável. Foi ele também o responsável por uma série de reformas religiosas efectuadas sob a direcção dos deuteronómicos. Então, quando as forças de Senaquerib cercaram Jerusalém ‘e nessa noite o anjo do Senhor avançou e chacinou 185 mil no campo dos assírios; e de manhã quando as pessoas se levantaram, pararam a ver, todos aqueles jaziam por terra. Então Senaquerib, rei da Assíria, decidiu partir’. Reis 19: 35-36"

"Resumindo, os deuteronómicos através de Hezekiah, instituíram uma política de higiene informacional em Jerusalém e efectuaram algum trabalho de engenharia civil, incluindo na parte de fornecimento de água. Sabe-se que bloquearam todas as fontes de água exteriores à torrente subterrânea dizendo ‘porque virão os reis da Assíria e encontrarem tanta água?’ – Crónicas 32:4. Os hebreus cavaram um túnel de mais de 500 metros através de rocha e divergiram toda a água de modo a passar por dentro da cidade. E quando os soldados de Senaquerib chegaram acabam por cair mortos vítimas do que poderá ter sido como uma doença extremamente virulenta e à qual as gentes de Jerusalém estariam aparentemente imunes. O que estaria na água deixada para os assírios? Algum agente biológico ou químico?"

- De regresso a Asherah... De onde é que surge?

- Originalmente, da mitologia suméria. E a partir daí é também importante nos mitos babilónicos, assírios, canaanitas, hebraicos e ugaríticos, que são todos eles descendentes dos sumérios. É interessante pois os mitos de qualquer forma passaram, foram transmitidos para as novas línguas, embora a língua original tivesse morrido. O sumério teria apenas subsistido como uma língua da religião e de instrução em civilizações descendentes, tal como o latim foi usado na Europa na Idade Média. Ninguém o falava como língua original mas os instruídos podiam lê-lo. Assim, desta forma, foi transmitida a religião suméria.

- E o que fazia Asherah nos mitos sumérios?

- Há fragmentos dispersos, alguns de qualidade duvidosa, de difícil sentido para recompô-los. Como por vezes a linguagem de uma criança de dois anos, impertinente. Os caracteres às vezes são legíveis e conhecidos mas uma tradução literal, quando montados, parece uma série de instruções quase sem sentido, como instruções para programar um vídeo. Monótona repetição, redundância. Escribas exultando também amiúde as virtudes da sua cidade sobre outra.

- O que é que tornava uma cidade superior a outra, um zigurate maior? Uma melhor equipa de futebol?!

- Não, melhores ‘me’. As regras, as leis ou princípios que controlavam o funcionamento da sociedade, o seu sistema operativo. Tal como um código de leis mas a um nível mais fundamental. Pois: os mitos sumérios não podem ser interpretados no mesmo sentido que os gregos ou hebraicos. Reflectiam uma diferença fundamental de consciência em relação à nossa. Uma diferença cultural que não nos deixa apreciá-la devidamente.

"De qualquer forma os mitos acadianos seguiram-se aos sumérios e são claramente neles baseados. Os redactores acadianos vasculharam esses mitos mais antigos e editaram até as partes por nós tidas como bizarras e incompreensíveis e alinharam-nas em obras maiores tais como o Épico de Gilgamesh. Os acadianos, note-se, eram semitas, ‘primos’ dos hebreus."

- E então o que é que referem os acadianos sobre ela, Asherah?

- Era uma deusa do erotismo e da fertilidade, mas tem também o seu lado destrutivo, vingativo. Num dos mitos, Kirta, um rei humano, é tornado gravemente doente por Asherah. Apenas El, o rei dos deuses, o pode curar. El dá a algumas pessoas o privilégio de se alimentarem dos seios de Asherah. El e Asherah por vezes adoptam bebés humanos e deixam-nos amamentarem-se de Asherah. E num dos textos ela amamenta mais de 70 filhos divinos, ‘espalhando o vírus!’ Bem, estas são versões acadianas.

Só para dar ideia de como é um conto sumério, veja-se por exemplo a história de como Asherah fez adoecer Enki. A maneira como a história é traduzida depende até de como ela é interpretada. Alguns vêm-na como uma história da queda do paraíso. Outros, vêm-na como uma batalha entre o masculino e o feminino ou entre a água e a terra. Outros ainda consideram-na como uma alegoria sobre a fertilidade. O texto seguinte deriva da interpretação de Bendt Alster:

"Enki e Ninhursag (que é Asherah, embora nesta história também comporte outros epítetos) habitam um local denominado Dilmun. Dilmun é puro, limpo, brilhante. Não existe doença, as gentes não envelhecem, os animais predadores não caçam... Mas não existe água! Então Ninhrsag pede a Enki, que é um género de deus da água, para que traga água para Dilmun. Ele assim faz masturbando-se entre esse entrançado de ravinas e canais deixando escorrer o seu sémen portador da vida – a ‘água do coração’ – como lhe chamava. Ao mesmo tempo profere um nam-shub proibindo todos de entrarem nesta zona. Não queria que ninguém se aproximasse da sua ‘água do coração’. O mito não explica porquê. Ou pensou que era valioso, ou perigoso, ou ambos... Então Dilmun é agora um local melhor do que fora antes. Nos campos produz-se abundante colheita. A agricultura suméria usava já muita irrigação. Era praticamente dependente disso. E de acordo com os mitos, Enki, o deus da água, era o responsável por irrigar os campos com a sua ‘água do coração’."

"Mas Ninhursag (Asherah) viola o seu decreto e pega na ‘água do coração’ de Enki para se engravidar, o que consegue. Após nove dias de gravidez dá à luz sem dores uma filha, Ninmu. Mais tarde no mito Ninmu caminha pela margem. Enki avista-a e fica excitado. Atravessa o rio e mantém relações com ela, com a sua própria filha. Dessa relação, ela, Ninmu, após nove dias de gravidez,, tem uma filha, Ninkurra. E o mesmo padrão volta a repetir-se: Enki terá relações com Ninkurra! Daí nasce uma filha, Uttu (a deusa do estuário). Por esta altura já Ninhursag se apercebe do que se passa, de toda essa matriz seguida por Enki. Daí, resolve avisar Uttu para que permaneça em casa prevendo que Enki tentará aproximar-se de Uttu com oferendas para também a seduzir."

"Enki entretanto volta a encher os canais com a ‘água do coração’ o que faz as colheitas crescer. O jardineiro, o plantador, rejubila e abraça Enki. Traz-lhe uvas e outra fruta. Mas Enki disfarça-se agora ele próprio como jardineiro e vai até Uttu procurando conquistá-la. Não há mais detalhes, o mito conta porém que Ninhursag depois consegue obter uma porção da ‘água do coração’ de Enki retirada das coxas de Uttu. Espalha-a então pelo solo dando vida a oito plantas. Só faltava Enki ter relações com as plantas! Mas não, a história conta que o deus Enki acaba por comer as tais oito plantas, isto é, em certo sentido apreende o segredo dessas oito plantas, ao fazê-lo. Então aqui, para alguns, teremos um paralelismo, o nosso motivo, o nosso quadro ‘Adão e Eva’ sumérios."

"A história não termina aqui. Ninhursag amaldiçoa Enki dizendo " ‘até estares morto nunca mais olharei para ti com o olho da vida’ ". Ela desaparece deixando Enki gravemente enfermo. Oito dos seus órgãos adoecem. Um por cada uma das plantas. Por fim Ninhursag é persuadida a regressar. Dará então nascimento a oito divindades, uma para cada parte doente do corpo de Enki até que este, por fim, é curado. Estas divindades constituem o panteão de Dilmun. Através deste acto é assim quebrado o ciclo de incesto e criada uma nova raça de deuses, masculinos e femininos, que se reproduzem normalmente. Bendt Alster interpreta o mito como uma exposição de um problema lógico: supondo-se que originalmente não havia nada a não ser um criador, como podiam surgir as normais relações sexuais binárias?"

"Este mito pode ser comparado com o mito sumério da criação no qual o céu e a terra estavam unidos no início. Mas o mundo não é na verdade criado até que os dois sejam separados. Muitos dos mitos da criação começam com um paradoxo da unidade de tudo, tido como caos inicial ou um paraíso, e o mundo tal como o conhecemos não tem existência até que esse estado seja alterado. De salientar aqui que o nome inicial de Enki era EnKur, o senhor de Kur. Para os sumérios, Kur era o oceano primordial, o caos, conquistado e dominado por Enki. ‘Qualquer Hacker pode identificar-se com esta figura, a de Enki!’."

"Mas Asherah terá conotações semelhantes. O seu nome em ugarítico ‘atiratu yammi’ significa ‘a que esmaga o dragão marinho’. Tanto Enki como Asherah foram então figuras que em certo sentido derrotaram o caos. E esta derrota do caos, a separação do estático, de um mundo unificado para um sistema binário, é identificada com a Criação."

"Mais: Enki era o ‘en’ da cidade de Eridu. O ‘en’ era como um rei-sacerdote. Tinha à sua guarda o templo local onde os ‘me’ – as regras da sociedade – estavam armazenados, nas tais tabletes de argila. Eridu situava-se onde é hoje o sul do Iraque."

"Como diz Samuel Noah Kramer, Enki era também um deus da sabedoria. Mas essa é uma tradução deficiente. A sua sabedoria não é aquela de um ancião mas antes o conhecimento de como fazer as coisas, especialmente as coisas ocultas. Ele será então um deus da sabedoria oculta. Espanta até os outros deuses com soluções engenhosas, chocantes, para problemas impossíveis. No geral, é um deus ‘simpático’, ajudando a Humanidade. Os mais importantes mitos sumérios centram-se nele. É associado também com a água, especialmente com a água doce. É ele quem irriga os rios, lembre-se, e toda a extensa rede de canais com a sua ‘água do coração’ portadora da vida. Diz-se ter criado o rio Tigre numa única e marcante masturbação. Ele descreve-se assim a si próprio: "Eu sou o Senhor, o Mestre. Eu sou aquele cuja palavra subsiste. Eu sou eterno". Outros descrevem-no assim: "uma palavra tua e as despensas e celeiros enchem-se com grão. Tu que trazes as estrelas do céu, tu que já contaste o seu número..." "Ele pronuncia e sabe o nome de todas as coisas criadas..." Pois que em muitos dos mitos da Criação, nomear uma coisa é criá-la. Em várias histórias ele é referido como um ‘sábio que instituiu os encantos, o da palavra rica’. "Enki, senhor de todas as ordens certas. A sua palavra traz a ordem para onde antes só existia o Caos, e pode trazer a desordem onde antes havia a harmonia".

"O papel mais importante de Enki terá sido como o criador e guardião dos ‘me’ e das ‘gis-hur’ – as palavras-chave e as matrizes que regem o Universo. Os ‘me’. Os sumérios acreditavam na existência desde os tempos primordiais de uma série compreensível, fundamental, inalterável, de poderes e tarefas, normas e standards, regras e regulamentações conhecidas como ‘me’, em relação com o cosmos e os seus componentes, os deuses e os humanos, cidades e países, e a todos os aspectos da vida civilizada. Um tipo de Torah, ainda sem estar estruturada... Com uma impregnação mística, de magia. E em geral lidavam até, esses ‘me’, com assuntos banais do dia a dia, não apenas com religião."

- Exemplos?

- Num dos mitos a deusa Inanna vai a Eridu e seduz Enki para que este lhe entregue 94 ‘me’. Consegue, e leva-os para a sua cidade, Uruk, onde são recebidos no meio de enorme comoção e alegria. Ela é então saudada como uma salvadora ao levar a cabo a execução perfeita desses ‘me’. Execução. Processamento. Tal como um programa de computador. Aparentemente, funcionavam, desempenhavam-se como algoritmos para executar certas actividades essenciais à sociedade. Algumas tinham a ver com o sacerdócio ou a condução do reino. Outras, explicam como celebrar cerimónias religiosas. Outras ainda, relacionam-se com a guerra e a diplomacia. Várias, tinham a ver com arte e obras diversas: música, carpintaria, pedra, construção, agricultura, até tarefas simples como acender fogos.

"Em suma, todo um sistema operativo da sociedade. Tal como um computador, quando se liga. Antes, é só uma série de circuitos inertes. Para a máquina funcionar tem que se colocar nesses circuitos uma colecção de regras, instruções, que digam à máquina como funcionar, como ser um computador! Parece então os ‘me’ servirem como o sistema operativo da sociedade organizando uma colecção ‘inerte’ de gente num sistema funcional. Enki era então o guardião dos ‘me’, um deus ‘bom’, o mais amado dos deuses...

- Torna difícil entender, sendo ele um ‘tipo bom’, então porquê o nam-shub, a história de Babel?

- Esse é um dos mistérios de Enki. O seu comportamento nem sempre foi o mais consistente com as normas actuais. Na verdade, no outro mito, não se sabe bem se a história do ciclo incestuoso é para ser lida apenas dessa maneira. Parece antes uma metáfora para algo diferente, para qualquer tipo de processo informacional recursivo (feed-back). É a isso que cheira todo o mito. Para essa gente, a água equivalia ao sémen. Talvez faça sentido. Talvez não tivessem o conceito de água pura, toda ela castanha, com lama... cheia de vírus. Para uma visão moderna, o sémen é um portador de informação. Tanto para a informação ‘benigna’, cromossomas, como para os vírus malévolos. A ‘água de Enki’, a sua ‘data’, dados, Informação, o seu ‘me’, fluía através da terra da Suméria e fê-la prosperar.

"A Suméria existia na extensa planície entre dois rios principais, o Tigre e o Eufrates. Era daí que todo o barro vinha. Tiravam-no directamente das margens. Assim, Enki providenciava-os com o meio de transportar informação: o barro. Escreviam na argila húmida e depois secavam-na, extraíam-lhe a água. Se a água depois a atingisse, a informação era destruída. Porém se levassem ao lume as placas, a um forno, retirassem toda a água, estirilizavam de facto o sémen de Enki pelo calor e então a placa duraria para sempre, imutável, tal como as palavras na Torah!"

– Mas quem eram afinal todos esses ‘deuses’?

- Há quem pense terem sido magos, mágicos, feiticeiros. Humanos com poderes especiais ou até... ‘aliens’. Elaborando sobre os eventuais ‘humanos com poderes especiais’: partindo do princípio de que o nam-shub de Enki funcionasse como um vírus e que alguém chamado Enki o tivesse inventado, então este Enki teria qualquer espécie de poder linguístico para lá do nosso conceito de ‘normal’. Qual seria o mecanismo e como funcionaria esse poder? Há alguns exemplos sobre o poder e uso da linguagem.

"Por exemplo, a crença no poder mágico da linguagem não é rara tanto entre a literatura mística como académica. Os cabalistas, místicos judeus da Espanha e Palestina, acreditavam que uma visão e poder supra-normais podiam ser atingidos ao recombinarem-se devidamente as letras do ‘nome divino’. Diz-se que Abu Aharon, um antigo cabalista que emigrou de Bagdad para Itália, operava milagres através do poder dos nomes sagrados."

- Mas de que tipo de poder é que se está a falar?

- Muitos dos cabalistas eram teóricos interessados apenas na meditação pura. Contudo, os cabalistas práticos, esses tentavam aplicar a força da Cabala na vida do dia a dia. Por outras palavras, como feiticeiros. Os cabalistas práticos usavam um intitulado ‘alfabeto arcânjico’ descendente dos alfabetos teúrgicos grego e aramaico do 1º século, o qual tinha parecenças cuneiformes (a escrita suméria, e da Mesopotâmia em geral). Os cabalistas referiam-se a este alfabeto como ‘escrita do olho’ pois as letras eram compostas de linhas e pequenos círculos que pareciam olhos. Mais uma vez a analogia com ‘1s’ e ‘0s’!

"Mais importante: alguns cabalistas dividiam as letras do alfabeto de acordo com o local onde elas eram produzidas dentro da boca, no nosso aparelho fonético. Estavam assim a traçar uma ligação entre a letra impressa numa página e as conexões neurais que tinham que ser invocadas de modo a pronunciá-la. Ao analisar a pronúncia de várias palavras eram capazes de esquematizar o que pensavam ser as profundas conclusões sobre a sua verdade e significado interior mais profundo."

"Na área académica tem-se tentado explicar ‘Babel’. Não a Babel histórica – que muitos consideram um mito – mas o facto do que já disse atrás, de as linguagens tenderem a divergir. Uma série de teorias têm sido desenvolvidas no esforço de considerar todas as línguas, considerar uma regra comum que as englobe a todas. Até a hipótese ‘viral’!"

"Bem, há duas grandes escolas: a dos Relativistas e a dos Universalistas. George Steiner sintetiza que os Relativistas tendem a acreditar que a linguagem não é o veículo de pensamento mas é o seu meio determinante. A sua estrutura de conhecimento. As nossas percepções de tudo são organizadas pelo fluxo de sensações passando nessa estrutura. Assim, o estudo da evolução da linguagem é o estudo da evolução da mente humana, ela própria."

"Quanto aos Universalistas, ao contrário dos Relativistas que dizem que as línguas não precisam de ter qualquer traço de união entre elas, os Universalistas acreditam que se analisarmos línguas em número suficiente podemos encontrar traços que indiquem certos factores comuns. É isso que pesquisam. Uma raiz comum a todas elas. Até agora, nada. Há sempre excepções. Mas o Universalismo não é posto de parte. Diz-se é que os traços comuns estarão profundamente implantados, enterrados, para serem analisados. O ponto é que a um certo nível a língua tem que acontecer dentro do cérebro humano. E todos os cérebros são mais ou menos idênticos, o hardware é o mesmo, mas não o software!"

 

"Um francês e um inglês começam com cérebros ‘idênticos’. Conforme crescem são programados de forma diferente, com diferente software, aprendem línguas diferentes. De acordo com os Universalistas, o inglês, o francês, e outras línguas, partilham certos circuitos que têm as suas raízes nas estruturas mais profundas do cérebro. Pela teoria de Noam Chomsky, as estruturas profundas são componentes inatos do cérebro que permitem efectuar certo tipo de operações formais em cadeias de símbolos. Ou, segundo Steiner, seguindo Emmon Bach, estas estruturas profundas levam eventualmente à partição/ramificação e estruturação do córtex com a sua imensamente ramificada – e programada, ao mesmo tempo – rede de canais electroquímicos e neurofisiológicos."

- Mas não se conseguem observar, provar melhor essas estruturas? Em quem acreditar, nos Relativistas ou nos Universalistas?

- No fundo, talvez nem haja assim uma tão grande diferença. Ambas as teorias são um pouco místicas, chegando ao mesmo ponto por vias diferentes. Mas há uma diferença ainda. Os Universalistas dizem que somos determinados pela estrutura pré-fixada do nosso cérebro, pelos ‘caminhos’ do córtex. Os relativistas não acreditam que tenhamos quaisquer limitações.

"Pegando na teoria de Chomsky, pode-se supor que aprender uma língua seja como inserir código, inicializar um chip de PROM (programmable read-only memory), os que são usados nas BIOS dos computadores. Quando vêm da fábrica, vêm limpos. Uma é única vez recebem informação, não apagável. O software como que passa a pertencer ao chip. Torma-se hardware. Podemos ler essa informação mas não rescrevê-la. Talvez os cérebros dos recém-nascidos não tenham estruturas – como diriam os Relativistas – e conforme a criança aprende o cérebro, as estruturas cerebrais desenvolvem-se de acordo, a linguagem ‘é soprada’ para dentro do hardware e torna-se parte permanente e integrante da estrutura cerebral profunda, como dirão os Universalistas."

"Quando se disse que Enki era uma pessoa real, com poderes mágicos, estava-se a dizer que ele era de certa forma capaz de entender a ligação entre a linguagem e o cérebro e sabia como manipulá-la. Da mesma forma que um hacker conhecendo os segredos de um sistema de computador, pode escrever código para controlá-lo, ‘nam-shubs’ digitais! Enki tinha a habilidade de descer ao universo da linguagem e vê-la perante os seus olhos. Tal como nós pesquisamos na Internet. Isso dava-lhe o poder de criar os ‘nam-shubs’. Os nam-shubs tinham o poder de alterar o funcionamento do cérebro e do corpo."

- Porque é que já não existem nam-shubs, em inglês, por exemplo? Porque é que hoje já ninguém faz esse tipo de coisas?

- Segundo Steiner, nem todas as línguas são iguais. Umas são melhores para o uso de metáforas do que outras. Hebraico, aramaico, grego e chinês, entregam-se aos jogos de palavras e mantém-se mais agarradas à realidade. A Palestina tinha Qiryat Sefer, a ‘cidade da letra’ e a Síria tinha Byblos, a ‘cidade do livro’. Por contraste, outras civilizações parecem ‘sem discurso’ ou, no mínimo, como o Egipto, não inteiramente conscientes do poder criativo e transformativo da linguagem. O sumério teria sido uma língua extraordinariamente poderosa, pelo menos na Suméria de há 5.000 anos. Uma língua que se entregou ao hacking neurolinguístico de Enki.

"Os antigos linguistas, assim como os cabalistas, acreditavam numa língua imaginária. Chamavam-lhe a língua do Éden, a língua de Adão. Permitia aos homens entenderem-se uns aos outros, comunicarem sem mal entendidos. Era uma língua do ‘logos’, do conhecimento, rebatendo ao momento em que deus criou o mundo por meio de uma só palavra. Na língua do Éden, nomear a coisa era o mesmo que criá-la. Ainda segundo Steiner: a nossa fala interpõe-se entre a apreensão do real e o próprio real, como algo fosco ou um espelho distorcido. A língua do Éden, pelo contrário, era como um vidro transparente. Uma luz de total compreensão atravessa-o. Babel foi então como que uma 2ª queda do paraíso."

"Isaac, o Cego, um dos primeiros cabalistas, dizia que ‘a fala do Homem é ligada à fala divina e todas as línguas, celestes ou humanas, provêm de uma fonte, o ‘nome divino’. Os cabalistas práticos, os ‘feiticeiros’, envergavam o título de Ba’al Shem, ‘Mestre do nome divino’."

- A ‘linguagem-máquina’ do universo! Computadores ‘falam’ linguagem-máquina. Escrita apenas em ‘0’ e ‘1’. Código binário. Ao nível básico, todos os computadores são programados em cadeias de ‘0’ e ‘1’. Ao programar em linguagem-máquina estamos a controlar o computador directamente no seu ‘cérebro’. É a língua do Éden da máquina! Mas é difícil trabalhar em linguagem-máquina, ‘fica-se louco’!, trabalhando a esse nível de programação. Então toda uma ‘babel’ de linguagens de programação foi criada para os programadores: Fortran, Basic, Cobol, Lisp, Pascal, C, Prolog, Forth, etc. ‘Falamos’ para computadores numa destas línguas e uma peça de software, o compilador, converte-a para linguagem-máquina. Não se vê, claro, o trabalho do compilador. Por vezes as ordens até emergem daí com erros, tal como se atravessassem um ‘espelho distorcido’. Um hacker avançado acaba por entender o funcionamento básico da máquina, ‘vê’ através da linguagem que está a usar e entrevê o funcionamento ‘oculto’ do código binário. Torna-se então um tipo de Ba’al Shem...

- As lendas sobre a tal língua do Éden seriam uma versão exagerada de acontecimentos reais. Reflectiam talvez, essas lendas, a nostalgia por uma era em que todos falavam sumério, uma língua superior a todas as que se lhe seguiram. Seria ela tão boa assim? É difícil dizer, hoje, apreender todo o significado. As palavras então funcionariam de forma diferente...

"Se a nossa língua influencia a estrutura física de um cérebro em desenvolvimento, poder-se-á então dizer que os sumérios, que falavam uma língua radicalmente diferente de todas as existentes hoje, teriam cérebros fundamentalmente diferentes dos nossos. Por essa razão o sumério poderia ser uma língua ideal para a criação e propagação de vírus. Um tal vírus, largado na Suméria, espalhar-se-ia rápida e virulentamente até que todos estivessem infectados. Talvez Enki soubesse isso. Talvez o nam-shub de Enki não tivesse sido uma coisa má. Talvez Babel fosse até o melhor que nos podia ter acontecido!"

"E ao falarmos neste Enki, nas suas habilidades e nos seus mitos somos obrigatoriamente levados a referirmo-nos a Inanna – uma outra figura da mitologia suméria. Culturas posteriores conhecem-na como Ishtar ou Esther. Uma deusa amada, surge muito associada a Enki. Ela e Enki, conforme as épocas, tiveram bom e mau relacionamento. Ela foi conhecida como a rainha de todos os grandes ‘me’. Os ‘me’ pertenciam a Enki mas ela foi até ao Abzu, ou Apsu, a fortaleza aquática na cidade de Eridu, onde Enki armazenava os ‘me’ e conseguiu que ele os entregasse, como já referi anteriormente. Foi assim que os ‘me’ foram largados na civilização. Enki encontrava-se seduzido e embriagado. Ao ficar sóbrio ainda tentou recuperá-los mas já era tarde."

- Há mais alguma coisa interessante sobre esta Inanna?

- Noutro mito, Inanna desce até ao ‘Mundo Inferior’. Ela agarra em todos os ‘me’ e entra nessa ‘terra do não-retorno’. Atravessa pois o mundo inferior e alcança aí o templo governado por Ereshkigal, a deusa da morte. Inanna viaja disfaraçada mas isso é facilmente descoberto pela visão poderosa de Ereshkigal. Deixam-na entrar no templo. Logo que entra é despojada de todas as roupas, jóias e ‘me’ e é levada nua perante Ereshkigal e os sete juizes do mundo inferior. Fustigam-na com o olhar, um olhar de morte. Com uma palavra deles, a palavra que tortura o espírito, Inanna é transformada em cadáver, um pedaço de carne a apodrecer, dependurada de um gancho na parede. Isto, segundo a tradução de Kramer.

Numa análise de Diane Wolkstein, ‘Inanna desistira de tudo, entregara tudo o que conseguira em vida, até ser despojada, tudo, excepto o seu desejo de renascer... e, pela sua viagem ao mundo inferior, apanhava os poderes e mistérios da morte e renascimento, da ressurreição’. O mensageiro de Inanna aguarda três dias. Ao ver que ela não regressa do Mundo Inferior dirige-se aos deuses pedindo auxílio. Nenhum tenciona ajudar, só Enki, por fim. É ele quem cria dois seres e os envia ao Mundo Inferior para resgatar Inanna. Através da magia deles Inanna é trazida de volta à vida. Retorna do ‘Mundo do Nada’ seguida por uma legião dos mortos.

"It’s time to get hacking". Bem, é altura de piratearmos um pouco, de resgatar quem foi apanhado na ‘jangada’ - the raft.

Hiro recompila todo o material, a informação já disponível. Porquê o projecto Snow Crash? A ideia de Lagos e de L. Bob Rife. Lagos aproximara-se de L. Bob Rife, que tinha para aí cerca de um milhão de programadores a trabalharem para ele. Rife andava paranóico, com receio que eles desviassem, roubassem ‘data’, informação. Colocava-lhes até as casas sob escuta. Lagos entretanto na pesquisa de mercado que fizera, tropeçara na informação sobre as preocupações de Rife. E ao mesmo tempo, procurava alguém a quem pudesse vender o que encontrou no estudo que fizera e mantinha na pasta Babel-Infocalipse.

Bob Rife poderia ter um uso para certos vírus... Fazer uso desse velhíssimo vírus, algo vocacionado contra pensadores de elite. Na actualidade, a malta do ‘sacerdócio tecnológico’, os infocratas. O tal vírus, havia limpo toda a infocracia na antiga Suméria. Mas isto seria de loucos! É como descobrir que os empregados roubam esferográficas e pegarmos neles e matá-los. Não era capaz de funcionar sem neutralizar a mente dos programadores. Isso, seria na forma original.

Lagos queria contudo desenvolver as possibilidades. Pesquisar nesta faceta de guerra informacional. Queria isolar o factor e modificá-lo para que pudesse ser usado para controlar os programadores sem contudo lhes dar cabo dos cérebros. Só que Rife roubou-lhe a ideia sem ser aperfeiçoada. Dois anos depois, Lagos principia a ficar apreensivo com o que começou a ver: o crescimento espectacular da igreja do Reverendo Wayne – Pearly Gates, e uns tais russos ortodoxos a falar línguas, glossolália. E as escavações em Eridu... Mais o interesse pela radioastronomia. Lagos começa então a aproximar-se da nova Mafia, e de Juanita, e de Mr. Lee. Uma data de gente, que passou a conhecer o tal projecto.

A Nova Mafia está agora bem aceite, os seus slogans espalham-se. Há que compreender o seu lema e maneira de agir: perseguimos grandes objectivos por sob toda a teia de relacionamento pessoal. "No negócio das pizzas, não se entrega rapidamente para se fazer mais dinheiro dessa forma ou porque seja apenas uma política de entregas. Tem que ser assim pois isso é o cumprimento de uma combinação, um pacto, entre o Tio Enzo e cada cliente. É assim que se evita a armadilha da ideologia perpetuante. Ideologia é um vírus. Efectua-se uma manifestação concreta de um objectivo político que pode ser abstracto e nós gostamos é do concreto."

Rebate-se sempre no aspecto! viral da informação

O vírus que atingiu o cérebro de Da5id, o seu bioware, o equipamento biológico, é uma cadeia de informação binária, e que no caso lhe foi mostrada na forma de um bitmap, uma série de pixels – pontos no écran – brancos e pretos, onde os brancos são zeros e os pretos são uns. Continha pois a versão digital do vírus Snow Crash. Mas Hiro interroga-se. E Juanita, porque não é ela atingida pelo Snow Crash? É curiosa e inteligente, ela, plena de ideias e citações: ‘Condense fact from the vapor of nuance’ (condensar factos a partir do vapor das nuances!). A maneira como ela consegue observar as coisas. Ela, que se considera ‘a missionary to the intelligent atheists of the world (uma missionária junto dos ateus inteligentes do mundo) e que ‘religion is not for simpletons’ (a religião não é coisa para gente simplória).

"99% do que se passa na maior parte das igrejas cristãs não tem nada a ver com a autêntica religião pelo que os inteligentes consideram que 100% é treta e daí o ateísmo estar ligado ao ‘ser inteligente’. Passei alguns anos com os Jesuítas. Olha, o nosso cérebro tem como que um sistema imunitário tal como todo o corpo. Quanto mais o usamos – a quantos mais vírus o expomos – assim melhoramos o sistema imunitário. E eu tenho um tal sistema bem forte. Lembra-te, eu havia sido ateísta durante um período e voltei então à religião de uma forma dura. Vim aqui à ‘raft’ de livre vontade tal como Inanna a descer ao Mundo Inferior!" – explicará ela depois, quando Hiro a encontra já na jangada.

- Porquê?

- Este é o centro nervoso de uma religião, nova, e ao mesmo tempo muito antiga. Estar aqui é como seguir Jesus ou Maomé no seu tempo, observar o nascer de uma nova fé. L. Bob Rife pode ser um ‘anti-Cristo’ mas é interessante. As placas com os ‘me’ que me interessam estão aqui, neste ‘Abzu’ de Rife. Temos que achar a placa com o nam-shub certo, o nam-shub de Enki, desencadear ‘Babel’!

Os controladores nesta imensa jangada possuem antenas implantadas no crânio. A base delas ramifica-se, os terminais enrolam-se, entranham-se pelos cérebros como à volta da base de uma árvore. Os portadores, a balbuciar em glossolália. As antenas, em contacto com a parte cerebral que aloja Asherah...

- Estou à procura de um pedaço de software, ou se quisermos, de medicina, um remédio, para ser mais específico, que foi escrito há uns 5.000 anos por alguém sumério chamado Enki, um hacker neurolinguístico – explica ela - Isto é, alguém que é capaz de programar a mente de outros com pedaços de informação verbal, conhecidos como nam-shubs, encantos.’

- Qual é o mecanismo usado nesse processo? Mas Hiro até já sabia a resposta. Os dois comparam informações.

- Temos dois tipos de linguagem nas nossas cabeças. O tipo que usamos agora é o adquirido. Vai moldando o nosso cérebro conforme a vamos aprendendo. Mas há também uma língua que é baseada nas mais profundas estruturas do cérebro, as que são em princípio comuns a todos. Tais estruturas consistem de circuitos neurais básicos cuja existência é primordial para permitir que os nossos cérebros adquiram então as outras linguagens (as de uso corrente no dia a dia) de nível mais elevado. A essas estruturas profundas chamemos se quiserem, a infra-estrutura linguística.

"Bem, poderemos ter acesso a essas partes recônditas do cérebro em determinadas condições. Glossolália – o falar em línguas – é o canal de saída, onde e quando, infra-estrutura linguística, toma o controle dos nossos órgãos vocais e falamos, ultrapassando todas as outras linguagens de nível mais elevado. Há algum tempo já que se sabe isso. Mas há também um canal de entrada: o circuito também funciona ao inverso. Debaixo de condições determinadas, os ouvidos – e olhos – podem ligar directamente a informação recebida às infra-estruturas cerebrais respectivas, ultrapassando os níveis superiores da linguagem."

- É o mesmo que dizer que alguém que conheça as palavras ou sons certos, pode falar, ou então mostrar os símbolos visuais, ou caracteres, que passando as nossas defesas, penetram directamente no mais fundo do cérebro. Como um pirata informático entrando num sistema de computador que ultrapassa todas as barreiras de segurança e mergulha directamente no âmago, o que lhe dará um controle absoluto sobre a máquina. Aqui, o dono do computador nada pode fazer pois só acede ao sistema a um nível já mais elevado, o tal que foi ultrapassado.

- Da mesma forma, um hacker neurolinguístico vai directamente ao fundo do cérebro, não o podemos impedir porque não podemos controlar o cérebro a esse nível básico.

- Porquê a placa cuneiforme, a que estará aqui a bordo da jangada?

- A tal língua, a língua-mãe, é um vestígio de uma fase inicial do desenvolvimento social humano. As sociedades primitivas eram controladas por regras e leis, ao princípio verbais, os ‘me’. Estes ‘me’ eram como pequenos programas para os humanos de então. Eram uma parte necessária na transição da sociedade das cavernas para uma sociedade organizada e agrícola. Havia um programa para abrir sulcos no chão, para arar, ou para plantar cereais. Ou programas para fazer pão e outros para construir casas. Havia ainda ‘me’ para funções superiores, como a guerra, a diplomacia, ou celebrar rituais religiosos. Toda a arte necessária para operar uma cultura auto-sustentável estava contida nestes ‘me’ escritos nas placas de argila ou passados pela tradição oral.

"De qualquer forma o repositório dos ‘me’ era o templo local, uma autêntica ‘base de dados’ dos ‘me’, controlado por um sacerdote-rei, o ‘en’. Se alguém precisava de pão, pediam ao ‘en’ ou um subordinado e faziam o ‘download’, traziam do templo o programa correspondente. Poderiam então seguir as instruções, correr o programa. Quando terminassem, tinham uma carcaça de pão! Era necessária uma base centralizada pois os ‘me’ deviam ser programados no tempo, alguns tinham um timing certo para serem corridos, executados. Se executassem na altura errada os ‘me’ de uma plantação ou colheita, o resultado podia ser a fome. E uma das formas para assegurar o timing correcto era construir observatórios astronómicos para observar os céus, detectando a mudança de estações. Assim os sumérios construíam torres ‘com o seu cimo nos céus’ – com diagramas astronómicos no topo."

- Mas isto tudo parece o ovo e a galinha... Como é que uma tal sociedade começou por ser organizada?

- ‘Metavírus’

- ?

- Existe uma entidade informacional a que podemos chamar metavírus. Permite que sistemas de informação (biológicos ou não) se deixem infectar ou se infectem a eles próprios, com vírus próprios, personalizados. Isto pode ser um princípio básico da natureza, tal como a selecção de Darwin, ou ser até, na verdade, um pedaço de informação que ‘flutua’ pelo Universo em cometas e ondas de rádio. De qualquer forma, e resumindo, qualquer sistema de informação a partir de uma certa complexidade, irá inevitavelmente tornar-se infectado com vírus, vírus gerados no interior do próprio sistema.

"Em qualquer altura no passado distante os metavírus infectaram, chegaram à raça humana e assim tem sido desde então. A primeira coisa que fez foi como abrir toda uma caixa de Pandora de vírus de DNA – varíola, gripe, etc. Saúde e longevidade são agora uma coisa do passado. Uma memória distante deste acontecimento pode ser o que está preservado nas lendas da expulsão do paraíso, em que a humanidade é lançada de uma vida feliz para um mundo infestado pela doença e pela dor."

"Eventualmente a ‘praga’ atingiu uma certa fase de plataforma, estabiliza. Ainda descobrimos novos vírus de DNA de tempos a tempos mas parece que os nossos corpos terão desenvolvido uma certa resistência aos vírus de DNA em geral. Talvez haja um número limite de vírus que afectem o DNA humano e que o metavírus os tenha criado a todos. Bem, a cultura suméria, a sociedade baseada nos ‘me’, era outra manifestação de metavírus. Só que, neste caso, é um metavírus linguístico e não de DNA."

- Então, a civilização surge como infecção?

- Civilização, na sua forma primitiva, sim. Cada ‘me’ era um género de um vírus, lançado, desencadeado, impulsionado pelo mesmo princípio dos metavírus. Como exemplo, o ‘me’ para fazer pão: uma vez esse ‘me’ na sociedade torna-se uma peça de informação auto-sustentável, que subsiste por si. É uma questão de selecção natural. Quem sabe cozer pão viverá melhor e estará mais apto a reproduzir-se do que os que não o sabem fazer. Naturalmente, irão divulgar, espalhar os ‘me’, funcionando como hospedeiros para esse pedaço de informação auto-replicante. É isso o que faz um vírus. A cultura suméria, com os seus templos cheios de ‘me’, era apenas uma colecção de vírus bem sucedidos acumulados ao longo de milénios. Era uma acção de ‘franchise’ excepto que tinha os zigurates em vez de arcos dourados (como os da McDonalds) e placas de argila em vez de manuais fotocopiados.

"Curiosamente, a palavra suméria para ‘mente’ ou ‘sabedoria’ é idêntica à palavra para ‘ouvido’ ou ‘escutar’. Era o que eram essas pessoas – ouvidos com corpos atarrachados, receptores passivos de informação. Mas Enki era diferente. Enki era um ‘en’ que acontece ser extremamente bom no seu trabalho. Com uma rara habilidade a escrever novos ‘me’, era um hacker autêntico. Na verdade terá sido o primeiro homem moderno, um ser humano plenamente consciente, tal como nós."

"Em dada altura Enki terá visto que a Suméria havia estagnado num autêntico atoleiro. As pessoas usavam em geral sempre os mesmos velhos ‘me’ sem surgirem com novos, sem pensarem por elas próprias, sem racionalizar. Suspeita-se ter sido Enki um tipo isolado, um dos poucos, ou ele sozinho, o único ser humano consciente no mundo de então. Viu que para a raça humana avançar tinha que se libertar das garras dessa civilização viral."

"Criou então o nam-shub, como um contra-vírus que se espalharia pelas mesmas vias que os ‘me’ e os metavírus. Iria até às mais fundas estruturas do cérebro e reprogramá-las-ia. Então, mais ninguém conseguiria entender a língua suméria ou qualquer outra linguagem baseada nessa infraestrutura cerebral. Cortados, separados dessas estruturas profundas comuns a todos, começámos a desenvolver novas linguagens que nada tinham em comum umas com as outras. Os ‘me’ antigos não funcionavam mais e não era mais possível escrever outros ‘me’ do mesmo tipo. A ulterior transmissão do metavírus ficava também bloqueada."

- Então, e ninguém morreu por falta de pão, por exemplo?

- Alguns provavelmente. De agora em diante tinham que usar o cérebro, o neocortex, para descobrir novas formas de o voltar a fazer. Redescobri-lo. Pode-se dizer que o nam-shub de Enki terá sido o início da consciência humana, quando pela primeira vez tivemos que pensar por nós próprios.

"E foi simultaneamente o início da religião ‘racional’, a primeira vez que se começou a pensar em temas abstractos como Deus e o Bem e o Mal. É daqui que virá o nome de Babel. Literalmente significa o Portão de Deus. É a porta que permitiu a deus alcançar a espécie humana. Babel é uma porta, uma passagem, nas nossas mentes, uma passagem que é aberta pelo nam-shub de Enki, que nos libertou dos metavírus e concedeu a habilidade de pensar. Traz-nos de um mundo materialista para um universo dualista, um mundo binário, com uma componente física e outra espiritual. Houve decerto caos e agitação. Enki, ou o seu filho Marduk, tentaram recompôr a ordem na sociedade, suplantando o velho sistema dos ‘me’ com um código de leis, o código de Hamurábi, o que em parte teve sucesso."

"Prosseguia porém a adoração a Asherah em muitos locais. Foi um culto incrivelmente tenaz e persistente. Era um retrocesso apontado à antiga Suméria e que se espalhava tanto verbalmente como através da troca de fluidos corporais – além das prostitutas cultuais também adoptavam órfãos e transmitiam-lhes assim o vírus por via da amamentação."

- Estamos aqui de novo a falar de um vírus biológico...

- Exactamente. Esse é o ponto central de Asherah. Existe em ambas as facetas. Tomemos o exemplo do vírus herpes simples. O herpes ‘aponta’ directamente ao sistema nervoso quando entra no organismo. Algumas estirpes mantém-se no sistema nervoso periférico mas outras dirigem-se que nem uma bala para o sistema nervoso central e alojam-se aí permanentemente, nas células cerebrais, ‘enrolando-se à volta do cérebro como uma serpente na árvore’! O vírus Asherah – que pode estar relacionado com a herpes, ou os dois podem ser um e o mesmo até – passa através das membranas celulares e fixa-se no núcleo onde se mistura com o DNA da célula hospedeira, da mesma forma que os esteróides.

- Mas Asherah é bem mais complicado que um simples esteróide. E após alterar o DNA qual é o resultado?

- Provavelmente traz a tal língua-mãe até mais próximo da superfície, torna as pessoas mais aptas ao ‘falar línguas’ e mais susceptíveis aos ‘me’. Tenderá ainda a encorajar um comportamento irracional, talvez baixe as defesas da vítima em relação a ideias virais, fá-las mais sexualmente promíscuas. Será que qualquer ideia viral tem uma contraparte em vírus biológico? Parecerá que não, apenas com Asherah tal acontece. De todos os ‘me’ e de todos os deuses e práticas religiosas que predominavam na Suméria, apenas Asherah ainda hoje subsiste com certa força.

"Uma ‘ideia viral’ pode sobressair e desaparecer, como aconteceu com o nazismo, T-shirts dos Simpsons, calças à boca de sino, etc., mas Asherah, por ter uma faceta biológica, pode manter-se latente no organismo humano. Após Babel, Asherah continuou residente no cérebro humano, passando de mãe para filho e de um amante para outro."

"Somos todos susceptíveis ao impulso de ideias virais tal como a histeria em massa, ou uma cantiga que fica a bailar na cabeça e que acabamos por trautear ao longo de todo o dia e passamos a outro. Anedotas, lendas e mitos urbanos. Seitas. Marxismo. Não importa o quão espertos nos tornamos, há sempre esta parte profundamente irracional que nos torna potenciais hospedeiros para a informação auto-replicante. Mas sermos fisicamente infectados com uma estirpe virulenta do vírus Asherah torna-nos logo mais susceptíveis, mais expostos. A única coisa que trava tais coisas de vencer, e dominar o mundo, acaba por ser o factor ‘Babel’, essas paredes de incompreensão mútua que compartimentam a espécie humana e impede uma maior dispersão de vírus."

"Babel levou a uma explosão no número de línguas. Isso foi parte do plano de Enki. Monoculturas, como um extenso campo de milho, são susceptíveis a infecção, mas culturas geneticamente diversas, tal como uma pradaria, são extremamente robustas."

"Bem, e tempos depois uma nova língua surge, o hebreu. Uma língua que possui excepcional flexibilidade e poder. Os deuteronómicos – o tal grupo de monoteístas radicais nos séculos VII e VI A.C. foram os primeiros a tirar proveito disso. Vivia-se um tempo de extremo nacionalismo e xenofobia o que tornou mais fácil a rejeição de ideias estranhas como o culto a Asherah. Formalizaram as histórias antigas constituindo a Torah e implantaram nela uma lei que assegurava a sua propagação fiel pelo tempo fora. Uma lei que dizia com efeito ‘façam uma cópia exacta de mim e leiam-na todos os dias’. E encorajara ainda um tipo de higiene informacional, uma crença em copiar as coisas estritamente e tomando elevado cuidado (como uma cópia digital!) com a informação, que como eles agora compreendiam, podia ser potencialmente perigosa. Passaram a fazer da ‘data’, dados, informação, uma substância controlada."

"Eles até terão ido para além desses conceitos. Há evidência já nesse tempo de uma cuidadosamente planeada guerra biológica contra o tal exército assírio de Senaquerib quando este tentou conquistar Jerusalém".

Aqui Hiro relembra as palavras de Lagos.

"Assim –prossegue ela - os deuteronómicos terão tido também um ‘en’ deles próprios, um alto-sacerdote e ‘expert’. Ou ter-se-ão apercebido bem que os vírus podiam ser uma arma e como tirar então proveito deles, e de estirpes existentes na natureza. As técnicas cultivadas por esta gente foram passando em segredo de geração em geração e acabam por se manifestar até mais tarde, já na Europa, quase 2.000 anos depois, entre esses ‘feiticeiros’ cabalísticos, os Ba’al Shem, os ‘Mestres do Nome Divino’."

"De qualquer forma, foi o surgir da religião racional. Todas as subsequentes religiões monoteístas, classificadas pelos muçulmanos muito apropriadamente como as ‘religiões do Livro’, passaram a incorporar em maior ou menor extensão essas ideias. O Alcorão diz amiúde ser uma transcrição, uma cópia exacta, de um livro existente no céu. Claro que quem nisso acreditar nunca se atreverá a mudar uma vírgula sequer. Ideias como esta foram pois eficazes para parar a expansão de Asherah de modo que cada palmo de território onde o culto viral antes aconteceu, da Índia a Espanha, ficaria sob a alçado do Judaísmo, do Cristianismo ou do Islão."

"Mas pela sua latência – ‘enrolada no cérebro dos que infectava’ – foi passando ainda de geração em geração e encontra sempre um caminho para ressurgir. No caso do Judaísmo, veio na forma dos Fariseus, os que impuseram uma teocracia rigidamente legalística sobre os hebreus. Com a sua estrita obediência às leis guardadas no templo, administrado por sujeitos sacerdotes mas ao mesmo tempo investido de autoridade civil, parecia em muito o antigo sistema sumério e era igualmente paralisante."

"O ministério de Jesus Cristo terá sido um esforço para retirar o Judaísmo desse atoleiro, género de um eco do que Enki fizera. O evangelho de Cristo é um novo nam-shub, uma tentativa de levar a religião para fora do templo, das mãos dos sacerdotes, e trazer o reino de deus para toda a gente. É essa a mensagem explicitamente marcada nos sermões de Cristo e é essa a mensagem simbolicamente encorpada, representada pelo seu túmulo vazio. Após a cruxificação os apóstolos foram até ao seu túmulo espetando encontrar o corpo e em vez dele não acharam nada. A mensagem era clara: ‘não vamos idolatrar Jesus pois as suas ideias subsistem sem ele, a sua igreja não está centralizada em alguém mas dispersa por entre a gente’."

"As pessoas, acostumadas à rígida teocracia dos Fariseus, não podiam conceber a ideia de uma igreja popular, não-hierárquica. Queriam papas, bispos, padres. E então veio o mito da ressurreição juntar-se aos evangelhos. A mensagem foi mudada para uma nova forma de idolatria, pois nesta nova versão das escrituras Jesus voltava à terra e organizava a igreja que se tornaria na igreja de todo o império romano do ocidente e do oriente, mais uma teocracia rígida, brutal e irracional."

"Paralelamente e ao mesmo tempo, era fundada uma igreja Pentecostal. Os primeiros cristãos ‘falaram em línguas’. Conforme a Bíblia reporta, ‘e todos estavam admirados, perplexos, comentando uns para os outros: o que é que isto quer dizer?’. Bem, terá sido um ‘surto viral’. Asherah esteve presente sempre, incrustada, esgueirando-se entre a população, desde o triunfo dos deuteronómicos. As medidas de higiene informacional praticadas pelos judeus haviam-na mantido reprimida. Mas nos primórdios do Cristianismo terá havido um certo caos, com uma série de radicais, pensadores livres a girarem à volta, ignorando a tradição. Algum retrocesso houve em direcção aos dias da religião pré-racional. Como em sentido à antiga Suméria. E decerto que começaram a palrar naquela ‘língua do Éden’."

"A igreja cristã instituída recusa-se contudo a aceitar a glossolália. Suportaram-na por alguns séculos mas purgaram-na oficialmente em 381 D.C. no Concílio de Constantinopla. O culto com glossolália mantinha-se nas franjas do mundo cristão. Mas a igreja acaca por aceitar um pouco de xenoglossia (glossolália para estrangeiros!) se isso ajudasse a converter os ateus, como no caso de São Louis Bertrand, que converte assim milhares de índios no século XVI espalhando a glossolália pelo continente americano mais rapidamente que uma epidemia de varíola. Mas assim que eram convertidos, tratavam de lhes dar com o latim."

"A reforma abriu um pouco mais a porta. Mas o pentecostismo não floresceria senão em 1900 quando um pequeno grupo de estudantes do Colégio Bíblico, no Kansas, começou a ‘falar línguas’. Daí a prática passou para o Texas, onde ficou conhecido como o Movimento Revivalista. Espalha-se como um incêndio através dos Estados Unidos e do mundo, alcançando até a China e a Índia em 1906. Os ‘mass media’ do século XX, altos níveis de escolaridade e transportes rápidos, tudo serviu como vectores excelentes para a ‘infecção’. Num salão aglomerado do Movimento Revivalista ou num campo de refugiados do 3º mundo, a glossolália transmite-se de uns para outros tão rápida como pânico. Nos anos ’80, o número de pentecostais em todo o mundo contava-se por dezenas de milhões. Todo este comportamento e prática pode ser seguido numa linha contínua e em retrospectiva, remontando primeiro aos cultos pentecostais do início da cristandade e daí até aos cultos pagãos envolvendo a glossolália. O culto de Asherah está vivo. O Movimento Revivalista é o culto de Asherah."

Um resumo final:

Lagos, o investigador assassinado, descobrira um bom pedaço sobre isto tudo, sobre Asherah. Originalmente, ele fora um investigador na biblioteca do Congresso. Desenterrou aí e não só material interessante. Aquilo que podia dar rendimento, vendia toda a informação respectiva que encontrasse. Ao deparar com o material sobre Enki e Asherah acaba por abordar Rife, aquele que mais programadores empregava. Mas Lagos não era um businessman dotado. Pensava demasiado por baixo e contava que com um pequeno investimento apenas, podia transformar essa ‘pirataria’ neurolinguística numa tecnologia que permitiria a Rife tomar conta, controlar, a informação que passava para o cérebro dos seus programadores. O que, tirando algumas considerações morais, não era má ideia.

Mas Rife pensava em grande, e achava que a ideia podia ser muito mais poderosa. Aproveita a ideia mas corre com Lagos, e investe numa série de igrejas pentecostais. Acaba por construir uma série de ‘franchises’ religiosas pelo planeta. A sua universidade forma milhares de missionários que envia para o 3º mundo e que aí começam a converter gente tal como São Louis Bertrand o fizera. O culto da glossolália torna-se a mais bem sucedida religião desde o surgimento do Islão. Falam, claro, sobre Jesus, mas tal como muitas auto-intituladas igrejas cristãs, nada tem a ver com a cristandade, excepto que usam o seu nome. É uma religião pós-racional.

Ele, L. Bob Rife, também pretendia espalhar o vírus biológico como promotor e optimizador do culto, mas não o podia fazer obviamente pela prostituição cultual por ser flagrantemente anti-cristã. Mas uma das funções principais dos seus missionários no 3º mundo era ir para o interior e vacinar gente, e havia algo mais do que a vacina, nessas seringas. Aqui, no 1º mundo, já se está vacinado e não deixamos fanáticos religiosos aproximarem-se a espetar-nos agulhas. Cá, porém, consomem-se drogas em quantidade. No nosso caso, portanto, Bob Rife arranjou um método de isolar o vírus do soro sanguíneo e colocá-lo numa droga conhecida também como Snow Crash.

Paralelamente, ele tem a ‘raft’ como vector para transportar centenas de milhares dos seus crentes saídos das partes miseráveis do continente asiático até às costas dos EUA. O que os ‘media’ podem dar como imagem da ‘raft’ parece ser, ao princípio, como um local de caos aberto onde milhares de diferentes dialectos se entrecruzam, e sem autoridade central. Mas não é assim. É uma ‘jangada’ altamente organizada e com um controle apertado. Essa gente compreende-se, ‘fala em línguas’. Rife pega na xenoglossia e glossolália e aperfeiçoa-a, torna-a numa ciência. Controla essa gente implantando em alguns os tais receptores de rádio, as antenas incrustadas no crânio, transmite-lhes instruções, ‘me’ directamente ao cérebro. Um em cada cem, digamos, tem um receptor, actua localmente como um ‘en’, distribuidor dos ‘me’ para todos os outros.

Rife possui igualmente um metavírus digital, em código binário, o tal que infecta computadores e os próprios hackers, via nervo óptico.

- Como é que foi ‘traduzido’ para a forma binária?

- Talvez não tivesse sido necessário traduzi-lo. ‘Pode tê-lo encontrado no espaço’. Ele possui a melhor rede de astronomia do mundo, radotelescópios. Escuta os sinais de outros planetas, dos confins do cosmos. Apercebeu-se que mais cedo ou mais tarde algo chegaria até nós, um dos ‘pratos’ à escuta iria captar o metavírus...

- Como é que se explica isso?

- Tal metavírus, encorpando o eterno desejo ou tendência de regresso ao Caos, estará em todo o lado. Em todo o local em que exista vida o metavírus está presente espalhando-se através dela. Originalmente seria espalhado pelo espaço através dos cometas. Poderá ter sido essa até a via como a vida começou na Terra e como o metavírus chegou até nós. Mas os cometas são lentos, ao contrário das ondas de rádio. Na forma binária um vírus pode atravessar o espaço à velocidade da luz. Infecta um planeta civilizado, entra nos computadores, reproduz-se e inevitavelmente consegue ser difundido pelas redes de TV, rádio ou qualquer outro meio.

"Tais transmissões não ficarão retidas na atmosfera mas propagam-se até ao espaço exterior, para sempre. Ao darem com outro planeta e cultura civilizada onde exista gente ‘à escuta das estrelas’, então esse planeta também poderá ser infectado. Terá sido esse o plano de Rife e que funcionou. Só que Rife, esperto, apanhou-o de forma controlada, ‘engarrafou-o’. Um agente de guerra informacional, só para ele. Ao ser introduzido num computador, ‘snowcrasha’ o computador e torna-o susceptível a ser infectado por qualquer vírus. Mais devastador ainda, ao atingir o cérebro de um hacker, alguém que decifre directamente código binário, com essa habilidade bem entranhada no seu cérebro. O metavírus binário, aqui, destruirá completamente a mente do hacker."

Assim, Rife conseguiu dominar dois tipos de pessoas. Por um lado, os pentecostais, usando os ‘me’ escritos na tal língua-mãe. E por outro, os hackers, de uma forma ainda mais violenta, ao danificar-lhes o cérebro através de vírus binários.

- O que é que ele pretende?

- Ele quereria ser como um Ozymandias, um rei dos reis. É simples. Uma vez que converta alguém à sua religião, pode controlá-la com os ‘me’. E pode converter milhões pois espalha-se como um vírus desenfreado. As pessoas não têm resistências pois ninguém estava habituado a racionalizar acerca da religião, pelo menos o suficiente para poderem argumentar sobre este tipo de situação. Qualquer um que veja ‘programas de treta’ na TV, luta livre, o ‘National Enquirer’, etc., torna-se uma presa fácil. E então com o Snow Crash como catalizador, é ainda mais facilmente convertível.

"Uma descoberta chave de Rife foi que não há diferença significativa entre a cultura moderna e a da Suméria. Temos uma tremenda força de trabalho que é iletrada ou aletrada e se baseia na TV – que funcionará como um género de tradição oral! E temos uma minoria extremamente literada, elite intelectual, poderosa, como os que usam a Internet, e podem entender que Informação é Poder, e controlam a sociedade, pois possuem essa habilidade semi-mística de ‘falar a língua mágica dos computadores’. O que os torna um bloco que podia fazer tropeçar Rife. Mas também Rife, sem eles, não conseguiria fazer nada. E mesmo que conseguisse convertê-los, não os poderia usar, pois o que eles fazem é criativo intrinsecamente e não pode ser duplicado por gente correndo ‘me’. Mas pode ameaçar toda essa elite com esse instrumento grosseiro do Snow Crash. Foi o que ocorreu com o programador Da5id. Terá sido uma experiência para ver como funcionava com um hacker autêntico, e ao mesmo tempo, um aviso à comunidade hacker, mostrando o poder de Rife. A mensagem era simples: "se Asherah for largada no seio da ‘igreja tecnológica’..." É como napalm no mato!"

"Tanto quanto se sabe não há maneira de parar o vírus binário, a não ser um antídoto para a falsa religião de Rife. O nam-shub de Enki ainda existe. Ele entregou uma cópia ao seu filho, Marduk, que a passou a Hamurábi. Agora, Marduk pode ter sido ou não alguém real. A questão é que Enki salientou, deixou a impressão, que passou o nam-shub, transmitiu-o, plantou uma mensagem para gerações posteriores de hackers a poderem descodificar, não fosse Asherah ressurgir. Decerto estará numa das placas no interior de um dos envelopes desenterrados na cidade de Eridu. Era esse o local de Enki, ou seja, Enki era o ‘en’ local de Eridu, e o templo de Eridu continha os ‘me’ incluindo certamente o nam-shub procurado."

"Rife, com os nam-shubs de Enki e engenharia reversiva, desmontando e analisando os ‘me’ de Enki, quis criar os seus próprios hackers neurolinguísticos que iriam escrever novos ‘me’, que se tornariam nas novas leis básicas, o ‘programa’ para a nova sociedade a criar, no seu entender. Só que entre esses ‘me’, claro, há uma cópia decerto do nam-shub de Enki, anti-Asherah, um perigo pois para tão grandes planos. Claro que ele, Rife, queria identificar essa placa não para analisá-la mas apenas para tê-la para ele próprio, para que ninguém a usasse contra si."

- Qual o efeito se a conseguissem obter, e usá-la?

- Se pudermos transmitir tal nam-shub de Enki a todos os ‘en’ na ‘raft’ (a jangada), passariam o mesmo a todos os outros a bordo. Será algo que irá baralhar os neurónios correspondentes à tal ‘língua-mãe’ e impedi-los de ser programados com novos ‘me’. E os tipos com os receptores no crânio, esses ‘en’, são controláveis a partir da torre do Enterprise, no centro da jangada... Se conseguirmos deitar a mão ao nam-shub de Enki e ‘infectar’ com tal antídoto cada um que está a bordo antes de a ‘raft’ se separar ao chegar à costa americana, isso será o ideal.

Uma nova arma que o grupo de heróis tem consigo, a Reason, também está em baixo, ‘crashou’, o sistema operativo acaba de ser atingido com o Snow Crash digital. Uma nova versão com um pouco menos de ‘bugs’ está prometida pela produtora, embora saibam que nunca, nenhuma peça de software está totalmente isenta de ‘bugs’! No fundo, talvez haja um pouco de Asherah em cada um de nós!

Snow Crash – conclusão

1) Os hebreus acabam por ver na relação Marduk-Hamurábi dos babilónios o exemplo da unificação nos mundos: um chefe único ou cada vez mais poderoso nos Céus; um chefe unificador na terra, que reúne as antigas cidades-estado. Mas eles, os hebraicos, não têm um território extenso na Terra, o mundo, o ‘senhor único e todo poderoso’ para eles, residirá no além-morte.

2) Na confusão das línguas, atente-se que terá havido por alturas de ‘babel’ uma intensificação forte dos contactos com outros povos, laços mesmo com Dilmun, o vale do Indo, etc. E grandes migrações ocorriam. Chegavam entretanto os amorritas, entre outros povos semitas, com toda uma diferente estrutura linguística. Acade cresce.

3) Neal Stephenson não terá tido a coragem ou a vontade para abordar mais a fundo uma identificação do ‘metavírus’ (e também do próprio vírus Asherah) com a sida. Lembre-se que o ‘metavírus’ é descrito como ‘dando acesso a todas as outras infecções’ e que o vírus ‘Asherah’ era ao mesmo tempo um vírus biológico e comportamental.

4) O ‘panteão’ actual: o automóvel, a casa, a TV, o PC, a Net, o telemóvel... . A nova ‘Ki’ é a casa, An/Marduk revêm-se na força do automóvel; Enki é a comunicação mágica dada pelo T-móvel, pelo PC, pela Net... Inanna está presente na TV e revistas cor-de-rosa entre muita outra coisa!