Na Terra dos Zigurates

Mitos sumérios na raiz de episódios bíblicos



Compilação de textos realizada por Paulo Oliveira



Na Terra dos Zigurates não é baseado apenas em conhecimentos transmitidos pelo historiador Samuel Noah Kramer no seu livro From the tablets of Sumer (A História Começa na Suméria), mas dele comporta extractos diversos – nomeadamente os poemas épicos. A pesquisa para este texto foi realizada também em páginas diversas da Internet e noutras obras listadas no final do documento.

Quem se debruça sobre a história suméria ou babilónica e os escritos bíblicos, não pode tornear o acontecimento descrito como o Dilúvio. Descobertas recentes parecem indicar terem sido detectados sinais dessa catástrofe e é isso que se relata em Vestígios do Dilúvio Bíblico no Mar Negro, que surge aqui em apêndice.

O presente trabalho termina com um Glossário que além de termos da mitologia mesopotâmica, abarca ainda algumas noções e vocabulário relacionados com as civilizações vizinhas.

 

 

ÍNDICE

A "IDADE HERÓICA" SUMÉRIA 9; *

A COSMOGONIA SUMÉRIA *

A Descida de Enlil e Ninlil ao Inferno *

A CRIAÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 9; *

Enki E A Ordem Do Mundo *

A Criação do Homem *

O Gado e a Semente *

O Verão e o Inverno: Enlil escolhe o deus dos lavradores *

O PARAÍSO - I *

Enki e Ninhursag *

O PARAÍSO – II - A "IDADE DE OURO" DA HUMANIDADE *

O Encanto de Enki *

O UNIVERSO GEOGRÁFICO SUMÉRIO 9; *

UMA DISPUTA "CAIM-ABEL" SUMÉRIA *

Inanna cortejada *

O DILÚVIO *

O Dilúvio segundo os sumérios *

A PRAGA DA ÁGUA EM SANGUE *

A Vingança de Inanna *

O "LIVRO DE JOB" SUMÉRIO *

O "Livro de Job" Sumério *

O SURGIR DA CIVILIZAÇÃO *

O lançamento dos ME na civilização *

Hino de Louvor a Enlil *

O PRIMEIRO CÓDIGO DE LEIS * UM ‘PARLAMENTO’ SUMÉRIO 9; *

Um Parlamento Sumério *

O "CÂNTICO DOS CÂNTICOS" SUMÉRIO 9; *

Um "Cântico dos Cânticos" sumério *

Cântico de amor a Shu-Sin *

A DERROTA DO DRAGÃO – OS MITOS DE GILGAMESH *

Gilgamesh, Enkidu e os Infernos (prólogo) *

Acções e façanhas do deus Ninurta *

Gilgamesh e a Terra dos Vivos *

A BUSCA DA IMORTALIDADE *

Gilgamesh, Enkidu e os Infernos *

A RESSURREIÇÃO *

A descida de Inanna ao Inferno *

A IMPORTÂNCIA DA MITOLOGIA SUMÉRIA 9; *

O CULTO A INANNA – ISHTAR - ASHTART - ASHERAH *

O "FIM" DA SUMÉRIA *

A Maldição de Destruição contra Agade *

APÊNDICE A - VESTÍGIOS DO DILÚVIO BÍBLICO NA MAR NEGRO 9; *

GLOSSÁRIO *

 

 

Comecemos por Uruk...

Uruk foi uma das cidades-estado sumérias e em dada altura o centro dessa civilização. Na Bíblia aparece referida como Erech. Actualmente é Warka. Como todas as outras cidades da antiga Suméria, possuía templos a diversas divindades, templos esses dirigidos cada um pelo seu En (Ensi) ou Ishakku, um sacerdote, uma entidade ao mesmo tempo civil e religiosa. Fértil é o mundo imaginário dos sumérios regido por esse imenso número de deuses, "disputando" e complementando o seu poder com as entidades políticas terrenas. Mas o mesmo passou-se afinal com várias das civilizações antigas. No caso particular dos sumérios, temos porém aqui a génese de fenómenos e conceitos que posteriormente se viriam a generalizar noutras civilizações. A invenção da escrita – cuneiforme e em placas de argila - seria uma das principais realizações deste povo instalado na baixa Mesopotâmia desde o 4º milénio antes de Cristo.

Como exemplo, no plano político e social, surgem novos conceitos e novas palavras correspondentes: amargi – liberdade - é pela primeira vez escrita na História. Descobriu-se recentemente que existiram códigos de leis mais antigos que o famoso código de Hamurábi: o de Lipit-Ishtar, no fim do 3º milénio AC e, anterior a este, o código sumério do rei Ur-Nammu. Este código contemplava já a conversão de castigos corporais em coimas, suplantando o antigo hábito do olho-por-olho-dente-por-dente.

***

O que se deduz dos escritos recuperados em achados arqueológicos, é a existência de um notável paralelismo entre diversos acontecimentos bíblicos e as narrações sumérias anteriores, como a praga transformando a água em sangue citada no Êxodo bíblico e muitos outros: Innana, a deusa suméria comparada à Afrodite grega, ou à Vénus romana, num dos mitos vinga-se ao ter sido abusada por um jardineiro. Enche de sangue todos os poços e desencadeia uma tempestade devastadora. Esta é apenas uma das comparações (aqui, com uma das pragas sobre o Egipto).

Por outro lado, verifica-se o poder criador da palavra, ditada pelos deuses, como mais tarde viriam a referir também os hebreus. Proferir era criar. Isto derivará de uma observação do social, da comparação dos deuses a reis, aliás, da sua colocação num plano acima dos reis, e por verificarem os sumérios que já um pedido do rei era uma ordem. A palavra executava.

O termo sumério genérico para deuses teria sido dingir. Na observação da genealogia destes 'dingir', destes deuses sumérios, convém destacar o papel inicial e preponderante da ligação An-Ki (Céu-Terra). Aprendemos ainda que En era um prefixo muito usado e que significaria Senhor, assim como Nin será um designativo de Senhora. En Lil, um deus que surge logo a seguir a An e a Ki, seria assim o Senhor, o deus do vento, do ar, da atmosfera, En=Senhor Lil=ar, vento, atmosfera. Ki, a Terra, terá sido o nome primordial de Ninhursag, a grande deusa-mãe suméria. É talvez um pouco complicado estabelecer a esta distância a representação do panteão – a genealogia dos deuses – da Suméria. Mas An (o Céu, ou "rei" dos deuses), Ninhursag (a Deusa-Mãe), Enlil (o deus do Ar) e Enki (o deus das águas profundas e da sabedoria oculta) estão entre os chamados sete deuses principais, todos eles regentes dos destinos. Mais tarde, cerca de 2500 AC, Enlil, o deus do Ar, terá ganho preponderância sobre An e ter-se-á tornado mesmo no ‘pai dos deuses’. Além desses sete deuses do destino, havia outros cinquenta deuses tidos como deuses maiores. Mas debrucemo-nos para já nos aspectos mais concretos da História. Como é que surge, e progrediu, a civilização suméria?

 

 

A "IDADE HERÓICA" SUMÉRIA

A "Idade Heróica" suméria é de longe mais antiga que as ditas idades heróicas dos gregos, dos teutónicos do norte da Europa ou dos indianos. Estas, foram períodos essencialmente bárbaros com caracteres comuns: as unidades políticas são reinos esparsos, com reis ou príncipes no poder graças a façanhas guerreiras, e que se apoiam num comitatus – um grupo de leais partidários armados. Todas essas três idades heróicas indo-europeias tinham um culto de divindades antropomórficas reconhecidas nos diversos estados e principados respectivos. Há cultos animistas residuais. Em geral consideram que após a morte a alma vai para um local afastado, como que uma ‘pátria universal das sombras’. Alguns heróis têm origem divina. Estes traços característicos também surgiram na idade heróica suméria. Só que esta é até anterior. Há ainda um outro traço comum a todas elas: a existência de uma narrativa épica na forma poética.

Pode-se ainda dizer que estes períodos heróicos, de apogeu, coincidem com épocas de migrações nacionais. Povos tidos anteriormente como possuindo civilização num nível relativamente primitivo e tribal, entram em dada altura em contacto com um estado mais civilizado em vias de desintegração. Muitas vezes já como mercenários ao serviço desses estados, vão assimilando a sua técnica militar e aspectos culturais. Quando acabam por irromper pelas fronteiras desse império civilizado para aí constituírem por si próprios reinos e principados - acumulando riqueza neste processo - é que desenvolvem o tal nascente e bárbaro estádio cultural a que chamamos idade heróica. No caso dos sumérios, existem duas teorias: a) que os sumérios foram os primeiros ocupantes da baixa-Mesopotâmia; b) mais consistente, apoiada por espólios, achados arqueológicos, que indiciariam uma quebra de continuidade, e defende que existiu uma cultura pré-suméria, pelo que houve então essa época de conquista, essa idade heróica suméria, e logo, migrações.

Então, que movimentos populacionais ocorreram na baixa-Mesopotâmia? Qual foi a tal civilização anterior, adiantada? A civilização suméria propriamente dita será o produto, os cinco ou seis séculos seguintes à "barbárica" idade heróica suméria, que por sua vez absorveu a herança de uma civilização pré-suméria do sudeste da Mesopotâmia (que se calcula ter sido um período iraniano-semítico). Uma comunhão de imigrantes vindos do sudoeste do Irão e de semitas (depois), com raízes aldeã-campesinas, passam a constituir cidades-estado transformando-se numa civilização estadual urbana. Terá sido aí constituído como que o primeiro império da História. Os sumérios tribais raiam esta região ao nordeste, irrompem da Transcaucásia, ou do além-Cáspio. São sucessivamente reféns e mercenários dos da Mesopotâmia, até ao enfraquecimento destes estados. Alguns sacerdotes terão integrado esses primeiros grupos.

Em resumo, o período pré-sumério começou por uma civilização aldeã-campesina introduzida pelos iranianos vindos do leste, passa por um estádio intermédio de invasão pelos semitas, vindos do oeste. Dá-se um apogeu de civilização urbana que nasce desse ‘casamento’ com predominância semítica, mas esse poder político terminará com a chegada e implantação das hordas sumérias.

 

 

A COSMOGONIA SUMÉRIA

O breve trecho que se segue é um extracto do prólogo de Gilgamesh, Enkidu e os Infernos um dos poemas épicos sumérios. Refira-se ainda que, para os sumérios, os deuses viviam na "montanha do Céu e da Terra, o lugar onde o sol nasce".

Depois de o Céu ter sido afastado da Terra,

Depois de a Terra ter sido separada do Céu,

Depois de o homem ter sido fixado,

Depois de An (o deus do Céu) ter arrebatado o Céu,

Depois de Enlil (o deus do ar) ter arrebatado a Terra (...)

Pode-se deduzir que, no entender dos sumérios:

  1. em dada altura, Céu e Terra estiveram unidos; b) existiam alguns deuses antes da separação do Céu e da Terra; c) aquando da separação, o deus do Céu, An ‘levou’ o Céu, mas o deus do ar, Enlil, é que ‘levou’ a Terra.

Mas por quem foram criados o Céu e a Terra, se é que foram criados? Qual era a forma do Céu e a da Terra? Quem separou o Céu da Terra?

Através da análise deste e de vários outros textos, alguns investigadores concluem, que uma deusa, Nammu – também representada pelo símbolo do "mar primordial", é designada como "a mãe que deu origem ao Céu e à Terra". Céu e Terra foram tidos como criados pelo "mar primordial". De um mundo unívoco, caótico, passou-se a um universo bipolar.

Um outro texto, O Gado e o Grão, inicia-se com os versos: "Sobre a montanha do Céu e da Terra, An criou os Anunnaki (os filhos de An, os 50 deuses maiores, nalgumas traduções)". Noutro pedaço de texto, temos ainda mais respostas:

"O Senhor, a fim de produzir o que era útil,

O Senhor, cujas decisões são inalteráveis,

Enlil, que da terra faz germinar as sementes do "país",

Teve a ideia de separar o Céu da Terra

Teve a ideia de separar a Terra do Céu".

Céu e Terra seriam então concebidos como uma montanha, cuja base era a parte ‘inferior’ da Terra e cujo cume era a parte ‘superior’ do Céu. Quem efectua a separação é de facto Enlil. Talvez se possa então resumir a concepção suméria desta forma, com base ainda noutras placas analisadas:

De início era o "mar primordial" – nada há sobre a sua origem ou nascimento, talvez para os sumérios, existisse desde sempre.

Do "mar primordial" produziu-se a montanha cósmica, composta do Céu e da Terra, ainda unidos.

Como deuses, de forma humana, temos o Céu – An – no papel masculino, e a Terra – Ki – num papel feminino. Da sua união é que nasce Enlil, o deus do ar.

É Enlil, deus do ar, quem separa o Céu da Terra. O seu pai, An, ‘leva’ o Céu, e Enlil ‘leva’ a Terra, sua mãe.

Depois disso, a união de Enlil e da sua mãe, a Terra, foi a origem do universo organizado, criação do Homem, animais e plantas, e estabelecimento da civilização.

Após estes passos é que temos o surgimento de Sin (ou Nanna) como deus da Lua, sendo filho de Enlil. Era um corpo aéreo brilhante, considerado como "criado" pela atmosfera. Utu (o deus do Sol) e Inanna (a deusa associada a Vénus), eram por sua vez filhos de Sin-Nanna o deus da Lua. Os planetas restantes são os "grandes seres – os Deuses Errantes - que caminham ao redor da Lua como bois selvagens" e as estrelas são "pequenos seres espalhados ao redor da Lua como ‘grãos’ ". Para os sumérios, o ferro tinha uma origem celeste: chamavam-lhe o metal forjado no Céu, talvez pela observação dos restos de meteoritos caídos. Os assírios, posteriores aos sumérios, chamariam ao ferro fragmento do Céu.

O nascimento de Sin, deus da Lua, relata-se em mais um mito. O casal Enlil-Ninlil (outra deusa maior) é um dos mais célebres da mitologia suméria. Trechos como o seguinte, referindo-se ao deus do ar, Enlil, são frequentes: "Oh, Ninlil, Senhora das Terras, no teu leito nupcial, na morada do teu deleite, intercede por mim junto de Enlil, o teu amado" (de Mili-Shipak, um Shatammu de Ninmah).

É explicada no texto de um dos poemas a criação deste deus, Nanna (Sin), e de três outras divindades condenadas ao ‘mundo inferior’ em vez de irem morar no Céu oriental (o local reservado para as divindades sortudas). As placas de argila que contêm este mito, descobertas em Nippur, contam que ainda não fora criado o Homem e em Nippur só os deuses habitavam. O ‘rapaz’ era o deus Enlil. A ‘rapariga’ era a deusa Ninlil, e a ‘velha’ tratava-se da mãe de Ninlil, a deusa Nunbarshegunu. Esta última, um dia, com o pensamento na união de Ninlil com Enlil recomenda à filha que se junte a este:

Enlil e Ninlil – A Criação de Nanna/Sin

Na onda pura, mulher, banha-te na onda pura,

Ninlil passeia ao longo da margem do ribeiro Nunbirdu,

O de olhos brilhantes, o Senhor, o de olhos brilhantes,

A ‘grande montanha’, o pai Enlil, o de olhos brilhantes, te verá,

O pastor que decreta os destinos, o de olhos brilhantes, te verá,

Enlaçar-te-á imediatamente, beijar-te-á.

Ninlil segue os conselhos

Na onda pura, a mulher banhou-se na onda pura,

Ninlil passeou ao longo da margem do ribeiro Nunbirdu,

O de olhos brilhantes, o Senhor, o de olhos brilhantes,

A ‘grande montanha’, o pai Enlil, o de olhos brilhantes, viu-a,

O pastor que decreta os destinos, o de olhos brilhantes, viu-a,

O Senhor falou-lhe de relações amorosas, ela recusou,

Enlil falou-lhe de relações amorosas, ela recusou;

"O meu sexo é muito pequeno, eu não sei fazer amor,

Os meus lábios são muito pequenos, eu não sei beijar (...)".

Enlil chama o seu vizir Nusku e fala-lhe do desejo por Ninlil. Nusku arranja uma barca. Enlil voga com Ninlil e é aí que abusa dela. É assim criado o deus da Lua, Sin. A imoralidade de Enlil choca outros deuses e não é o facto de Enlil ser um ‘rei’ deles que os trava de o lançarem para os Infernos:

Enlil anda de um lado para o outro no Kiur (o santuário privado de Ninlil),

Enquanto Enlil anda no Kiur,

Os grandes deuses, todos os cinquenta,

Os deuses que decretam os destinos, sete deles,

Agarraram Enlil no Kiur, dizendo:

"Enlil, ser imoral, sai da cidade,

Nunamnir (outro dos nomes de Enlil), ser imoral, vai-te embora da cidade!".

 

Como mostra o poema, Enlil acabará por abusar de Ninlil e será desterrado para os Infernos pelos outros deuses. Obedece. Parte então em direcção ao Hades sumério (ao Inferno). Ninlil porém já estava grávida. Decide acompanhá-lo nesse exílio. Enlil perturba-se: o seu filho, o que governará a Lua – para os sumérios esta era até o corpo celeste mais importante – afinal ia morar nas profundezas infernais, em vez de habitar o Céu... Para obstar a esta desgraça engendra um estratagema. No caminho de Nippur para o Inferno, o viajante cruzava-se com três personagens – talvez fossem divindades menores: o guarda das portas do Inferno, o homem do rio do mundo infernal, e o barqueiro (o equivalente sumério ao Caronte grego, o que fazia atravessar os mortos para o Hades). Então, o que faz Enlil? Toma sucessivamente a forma de cada um desses três personagens – talvez o primeiro caso conhecido e escrito de metamorfose divina – e "fecunda Ninlil de três divindades infernais" (Meslamtaea, Ninazu e uma terceira) para que substituíssem Sin nos Infernos de modo que este pudesse subir ao Céu! A parte do poema aqui reproduzida, apenas relata até ao encontro com o "guarda das portas do Inferno".

A Descida de Enlil e Ninlil ao Inferno

Enlil, em conformidade com o que a seu respeito fora decidido,

Nunamnir, em conformidade com o que a seu respeito fora decidido,

Enlil veio, Ninlil acompanhou-o,

Nunamnir veio, Ninlil entrou,

Enlil disse ao homem da porta:

"Homem da porta, homem da fechadura,

Homem do ferrolho, homem da fechadura de prata,

A tua rainha chegou,

Se ela te fizer perguntas a meu respeito,

Nada lhe digas de mim".

Ninlil disse ao homem da porta:

"Homem da porta, homem da fechadura,

Homem do ferrolho, homem da fechadura de prata,

Enlil, teu senhor, do lugar que (...)".

Enlil respondeu pelo homem da porta:

"Meu senhor não fez (...) a mais bela, a bela,

Enlil não fez (...) a mais bela, a bela,

Ele fez (...) no meu ânus, ele (...) na minha boca;

Meu leal coração distante,

Foi isto o que Enlil, o senhor de todas as terras, me ordenou".

"Enlil é, na verdade, o teu senhor, mas eu sou a tua senhora".

"Se és a minha senhora, deixa a minha mão tocar a tua face".

"A semente do teu senhor, a semente brilhante, está no meu seio,

A semente de Sin, a semente brilhante, está no meu seio".

Deixa então a semente do meu senhor subir ao alto Céu,

Deixa a minha semente cair na terra,

Deixa a minha semente na semente do meu senhor cair na terra".

Enlil, como (sob o disfarce de) o "homem da porta", deitou-se com ela no quarto de dormir,

Possuiu-a, beijou-a,

E tendo-a possuído, tendo-a beijado,

Plantou no seu seio a semente de Meslamtaea (...).

 

A CRIAÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM

Um paralelismo sumério sobre a Criação poderá ser retirado do texto Enki E A Ordem Do Mundo

Após ir a Meluhha – a montanha negra (Etiópia?) - Enki volta aos rios Tigre e Eufrates. Abastece-os de água cintilante e encarrega deles o deus Enbilulo. Enche os rios de peixes e cria a divindade ‘filho de Kesh’ por eles responsável. No mar, o Golfo Pérsico, coloca a deusa Sirara. Chama depois os ventos e para governá-los nomeia o deus Ishkuri, o que cavalga trovoadas e tempestades.

Enki E A Ordem Do Mundo

Ó Suméria grande terra entre as terras do Universo,

cheia de luz constante, repartindo desde o nascer ao pôr-do Sol

as suas divinas leis por todo o povo,

As tuas divinas leis são exaltadas, intocáveis,

A verdade aprendida que tu comportas como o Céu, é intocável

O rei de quem foste berço é adornado com o diadema eterno,

O rei de quem foste berço coloca sempre a coroa na cabeça,

O teu senhor é um honrado senhor; com An o rei senta-se no estrado celeste

O teu rei é a grande montanha, o pai Enlil

Os Anunnaki, os grandes deuses,

Em ti estabeleceram a sua residência,

Nos teus amplos bosques consomem o seu alimento.

Ó casa da Suméria, possam os teus estábulos ser muitos, que as tuas vacas se multipliquem.

Que sejam numerosos os teus redis, que as tuas ovelhas se contem por miríades.

Possam os teus templos sólidos erguer a mão ao Céu,

Possam no meio de ti os Anunnaki decretar os destinos.

A Benção De Ur:

Para Ur, o santuário, ele veio,

Enki, o rei do abismo, decreta o destino:

-Ó cidade, bem fornecida, banhada por muita água, boi sólido,

Estrado de abundância da Terra, joelhos abertos, verde como a montanha,

Floresta-Hasshur, cheia de sombra, heróica,

Possam as tuas perfeitas leis divinas ser bem dirigidas,

A grande montanha Enlil, no Céu e na Terra, proferiu o teu exaltado nome;

Cidade cujos destinos foram decretados por Enki,

Sagrada Ur, possas tu erguer-te no alto Céu".

A charrua e a canga dos bois ele guiou,

O grande príncipe Enki,

Abriu os sulcos sagrados,

Fez que o grão crescesse no campo perene,

O senhor, a jóia e ornamento da planície,

Revestido da sua força, o rendeiro de Enlil,

Enkimdu, o deus dos canais e fossos,

Enki o encarregou deles.

O Senhor, chamado ao campo perene, fê-lo produzir grão-gunu,

Enki fez brotar abundantemente os feijões pequenos e grandes,

O grão amontoou no celeiro,

Enki juntou celeiro a celeiro,

Com Enlil multiplicou a abundância para o povo;

A Senhora, a fonte da força da terra, o suporte firme do povo de cabeça negra (os sumérios),

Ashnan, força de todas as coisas,

Enki colocou no cargo.

Um outro poema relata já especificamente sobre A Criação do Homem. Note-se que em várias partes foram descobertas placas de argila com este mesmo texto. Os sumérios já copiavam, reproduziam e distribuíam documentos! Havia vários exemplares do mesmo texto. Foi o que aconteceu com o presente poema, tendo uma das muitas cópias sido desenterrada no local da antiga Nippur. Em resumo o texto relata que Enki, o deus da água e da sabedoria, está adormecido. Os outros deuses precisam do seu auxílio para encontrar uma solução para a falta de alimentos. Nammu, que é aqui referida como a sua mãe, mãe de todos os deuses (ela é ainda citada como sendo o mar primordial) tenta acordá-lo.

A Criação do Homem

-Ó meu filho, levanta-te da cama, faz o que é sábio:

Modela servos de deuses, possam eles produzir os seus ‘duplos’ (?)

Ele responde-lhe:

"Ó minha mãe, a criatura cujo nome tu pronunciaste existe,

Ata-lhe a imagem dos deuses.

Mistura o coração da argila que há sobre o abismo,

Os bons e magníficos modeladores hão-de amassar a argila,

Tu trarás os membros à existência.

Ninmah (outra referência à deusa-mãe da Terra) trabalhará sobre ti,

As deusas do nascimento permanecerão junto de ti enquanto modelares;

Ó minha mãe decreta o destino (deste recém-nascido)

Ninmah atar-lhe-á a imagem dos deuses

É o Homem...

O texto fala da criação do homem em geral e da modelagem de seis tipos de homens ‘imperfeitos’. Durante uma festa Enki e Ninmah bebem vinho em excesso e é Ninmah que pegando em argila modelará essa meia-dúzia de imperfeitos. Enki decide o seu destino e dá-lhes pão a comer. Só há pormenores sobre dois desses tipos:

"A ela, Ninmah concebeu uma mulher que não podia dar nascimento.

Enki, vendo a mulher que não podia dar nascimento,

Decretou-lhe o destino, destinou-a a fixar-se na ‘casa da mulher’ ".

"...Ninmah concebeu um ser que não tinha órgão masculino, que não tinha órgão feminino.

Enki, vendo aquele que não tinha órgão masculino, que não tinha órgão feminino,

Decretou como seu destino permanecer junto do rei"

Após esses seis tipos de homens é Enki quem se decide por uma nova criatura, também um ser defeituoso: "fraco de corpo e de espírito". Pede a Ninmah que ajude esta criatura:

"Àquele que a tua mão modelou eu tracei o destino,

E dei-lhe pão a comer;

Decreta a sorte daquele que a minha mão modelou,

E dá-lhe pão a comer".

 

 

O Gado e a Semente, mostra outros traços da concepção suméria sobre a origem do Homem. É uma disputa entre o deus do gado – Lahar – e a sua irmã Ashnan, deusa das sementes. Foram eles os dois concebidos para que os Anunnaki – os filhos de An (o deus do Céu) pudessem ter com que se alimentar e vestir. Até ao momento da criação do Homem os Anunnaki haviam sido incapazes de tirar partido do gado e da semente. A meio, o poema descreve a descida de Lahar e Ashnan à Terra e os benefícios culturais levados para a humanidade. No fim, bem bebidos de vinho, discutem de novo. Enlil e Enki, divindades superiores, acabarão por intervir mais tarde declarando Ashnan vencedora.

O Gado e a Semente

(...) Depois na montanha de Céu e Terra,

An (o deus do Céu) originou o nascimento dos Anunnaki (os seus seguidores),

Porque o nome de Ashnan não tinha nascido, não tinha sido formado,

Porque Uttu (a deusa do Estuário) não tinha sido formada,

Não havia ovelhas, não nasciam cordeiros,

Não havia cabras, não nasciam cabritos,

A ovelha não pariu os seus dois cordeiros,

A cabra não pariu os seus três cabritos.

Porque o nome de Ashnan, a sábia, e o de Lahar, o deus do gado,

Eram ignorados pelos Anunnaki, os grandes deuses,

A semente shesh de trinta dias não existia,

As pequenas sementes, a semente da montanha, a semente das puras criaturas vivas, não existiam.

Porque Uttu não tinha nascido, porque a coroa (da vegetação?) não se tinha erguido,

Porque o Senhor (...) não tinha nascido,

Porque Sumugan, o deus da planície, ainda não tinha chegado,

Como a humanidade, quando fora criada inicialmente,

Eles, os Anunnaki, não conheciam o acto de comer o pão,

Não conheciam o acto de vestir trajes,

Comiam plantas com a boca como os carneiros,

Bebiam água do fosso.

Nesses dias, na câmara de criação dos deuses,

Na sua casa Duku, Lahar e Ashnan foram formados;

Os produtos de Lahar e de Ashnan,

Os Anunnaki de Duku comeram-nos mas permaneceram insaciados;

Nos seus puros redis, o leite shum, o bom,

Os Anunnaki de Duku beberam-no,

Mas permaneceram insaciados;

Por intenção dos seus puros redis, os bons,

Foi dada a respiração ao homem.

Nesses dias Enki diz a Enlil:

Pai Enlil, Lahar e Ashnan,

Eles que foram criados no Duku

Façamos que eles desçam do Duku.

À pura palavra de Enki e de Enlil,

Lahar e Ashnan descem do Duku.

Para Lahar eles – Enlil e Enki – edificaram o redil,

Plantas e ervas em abundância lhe ofereceram;

Para Ashnan ergueram uma casa,

O arado e a canga lhe ofereceram.

Lahra, erguendo-se do seu redil,

É um pastor aumentando a produtividade do redil;

Ashnan erguendo-se entre as colheitas,

É uma donzela benfazeja e generosa.

A abundância que vem do Céu,

Lahar e Ashnan originaram o seu aparecimento (sobre a Terra),

À sociedade trouxeram a abundância,

Para o solo trouxeram o sopro da vida,

Decretaram as leis dos deuses,

Multiplicaram o conteúdo dos armazéns,

Encheram os celeiros.

Na casa do pobre, apanhando a poeira,

Entrando, trazem a abundância;

Ambos, onde quer que estejam,

Trazem grande progresso à casa;

O lugar onde eles permanecem saciam-no;

O lugar onde se sentam abastecem-no,

Eles alegram o coração de An e Enlil.

 

 

O conto seguinte O Verão e o Inverno: Enlil escolhe o deus dos lavradores, retrata mais uma disputa e continua a descrição do processo de Criação, complementando o texto anterior de O Gado e a Semente.

 

 

 

O Verão e o Inverno: Enlil escolhe o deus dos lavradores

Enten fez que a ovelha desse à luz o cordeiro, que a cabra desse à luz o cabrito,

Fez a vaca com o vitelo multiplicarem-se, a nata e o leite aumentarem,

Na planície fez rejubilar o coração da cabra selvagem, do carneiro e do burro,

Às aves do céu – na vasta Terra fê-las instalar os ninhos,

Ao peixe do mar – no canavial fê-lo pôr os ovos,

No palmar e na vinha ele fez abundar o mel e o vinho,

Às árvores, onde quer que fossem plantadas, ele mandou dar frutos,

Aos jardins, que ele adornou de verde, tornou-lhes as plantas luxuriantes,

Fez as sementes germinarem nos sulcos,

Como Ashnan, a deusa das sementes, a bondosa donzela, ele fê-las brotar vigorosamente.

Emesh deu assistência às árvores e aos campos, alargou estrebarias e redis,

Nas granjas ele multiplicou os produtos, enfeitou a terra.

Fez a colheita abundante para ser trazida para as casas, para os celeiros serem cheios até acima,

Serem fundadas as cidades e as habitações, serem construídas casas no país,

Elevaram-se os templos à altura de montanhas.

Depois, junto de Enlil, cada um expõe os seus feitos, e disputam o título de "lavrador dos deuses". Enten começa por queixar-se:

-Pai Enlil, encarregaste-me dos canais, eu trouxe a água da abundância,

À herdade juntei herdades, enchi até acima os celeiros,

Fiz crescer as sementes nos sulcos,

Como Ashnan, a amável donzela, fê-las brotar vigorosamente,

Ora Emesh, o que nada entendia dos campos,

Empurrou o meu braço, e ombro,

No palácio do rei.

Após Emesh se defender, Enlil responde-lhes:

As águas vitalizantes de todas as terras – Enten está encarregado delas,

Lavrador dos deuses – ele tudo produz,

Emesh, meu filho, como te comparas com o teu irmão Enten!

A exaltada palavra de Enlil, de profundo significado,

Cujo veredicto é inalterável – quem ousa transgredi- la?

Emesh dobrou o joelho ante Enten, ofereceu-lhe uma oração,

À sua casa trouxe néctar, vinho e cerveja,

Eles saciaram-se com o néctar, o vinho e a cerveja

que alegram o coração,

Emesh presenteou Enten com ouro, prata e lápis-lazuli,

Em fraternidade e camaradagem eles entregaram-se a alegres libações.

Na disputa entre Emesh e Enten,

Enten o dedicado lavrador dos deuses, tendo-se mostrado vitorioso sobre Emesh,

...pai Enlil, seja louvado!

 

O PARAÍSO - I

 

Não ficará concluída qualquer discussão sobre o processo de Criação se não se abordar a questão do Paraíso. O mito sumério do Paraíso fala-nos num local – Dilmun – em que intervêm Enki, o deus das águas profundas e da sabedoria e a grande deusa-mãe Ninhursag (ou Ki, a Terra).

Dilmun é uma terra ‘pura’, ‘limpa’ e ‘brilhante’. Uma ‘terra de vivos’, que não conhece a doença ou a morte. Falta-lhe contudo a água fresca, essencial à multiplicação dos animais e plantas. Enki, o grande deus sumério da água, ordena então a Utu, deus do Sol, que abasteça Dilmun com a água fresca trazida da Terra. Dilmun converte-se num jardim divino, verdejante, com pomares carregados de frutos e prados.

Neste paraíso dos deuses, Ninhursag – a grande deusa-mãe fará brotar oito plantas do corpo da deusa Uttu, deusa do estuário e uma das descendentes de Enki após um complexo processo, um ciclo incestuoso envolvendo três gerações de deusas, ciclo esse engendrado pelo próprio deus da água e da sabedoria (Enki). As tais divindades foram concebidas, sublinha o mito, e nascidas, sem quaisquer dores de parto ou sofrimento. Enki quererá então provar as plantas e o seu mensageiro – Isimud (o deus de duas faces) – irá colhê-las. Enki come-as uma a uma. Em face de todo este comportamento transgressor, Ninhursag rogará uma maldição de morte a Enki e com receio de se arrepender da decisão tomada resolve desaparecer.

A saúde de Enki declina. Oito dos seus órgãos são atingidos pela doença. Entretanto os grandes deuses reúnem-se, ‘sentam-se no chão poeirento’. Até Enlil, o deus do ar, parece impotente para resolver a situação. Contra uma recompensa adequada a raposa compromete-se a procurar e trazer Ninhursag. Consegue assim o regresso da deusa-mãe e reconciliá-la com o moribundo Enki. Sentada a seu lado cria oito divindades com poderes para curar cada um dos correspondentes órgãos atingidos. Enki melhora.

Além deste conto há indícios para acreditar que a verdadeira ideia do Paraíso divino, um jardim dos deuses, é de origem suméria. De acordo com o poema, o paraíso sumério era localizado na ‘terra de Dilmun’, provavelmente situada no sudoeste da Pérsia. Outros apontam contudo a Etiópia. Neste mesmo Dilmun, mais tarde, os babilónios (o povo semita que conquistaria a suméria) localizaram também a ‘terra dos vivos’, dos imortais. É uma indicação de que o paraíso bíblico, que é descrito como um jardim plantado no lado oriental do Éden, de cujas águas se formaram quatro rios, incluindo o Tigre e o Eufrates, deve ter sido originariamente idêntico ao Dilmun, a terra do paraíso sumério.

Também aqui o poema sugere o texto da Bíblia, ao descrever a rega de Dilmun pelo deus do Sol com água fresca levada da Terra: "Uma torrente saía da terra e regava toda a superfície do solo" – Génesis II-6. O parto sem sofrimento entre as deusas opõe-se já à maldição contra Eva, que deverá conceber e ter filhos na dor, mas emparelha com outras concepções divinas como a da Nossa Senhora cristã, a Virgem Maria. Enki, a comer as oito plantas e a maldição pronunciada contra ele por esse motivo, lembram Adão e Eva comendo o fruto da árvore do saber e a maldição correspondente.

O mais interessante porém será o estabelecer de uma analogia com a modelação de Eva – a mãe de todos os vivos – a partir de uma costela de Adão. Porquê uma costela? Porquê esta parte escolhida pelo narrador hebraico para modelar Eva – que de acordo com o conceito da Bíblia significará ‘a que cria vida’? A chave pode estar na língua suméria e expressa até no poema que se segue. Um dos órgãos doentes de Enki é precisamente a costela.

A palavra suméria para costela é ti. A deusa criada para curar a costela de Enki chamava-se Ninti (Nin-ti) – a Senhora da Costela. Mas em sumério ti significava também ‘criar vida’! Ninti tanto referenciará a ‘Senhora que cria vida’ como a ‘Senhora da costela’, neste antigo jogo de palavras, depois introduzido e perpetuado na Bíblia. Em hebreu, contudo, já não existe uma palavra comum para os dois sentidos (costela e criar vida). Resta dizer que para os teólogos sumérios o Paraíso ficara só para os deuses, imortais, e não para os homens comuns, os mortais. Porém um mortal podia ganhar o favor de ser admitido no paraíso divino.

Vejamos então alguns extractos do poema Enki e Ninhursag. As deusas Ninmu, Ninkurra e Uttu que participam do tal ciclo incestuoso são sucessivamente filha, neta e bisneta de Enki e simultaneamente suas parceiras.

Enki e Ninhursag

Em Dilmun o corvo não costuma grasnar,

O pássaro ittidu não solta o grito do pássaro ittidu,

O leão não mata,

O lobo não apresa o cordeiro,

É desconhecido o cão selvagem devorador de cabritos,

É desconhecido o (...) devorador de sementes,

É desconhecida a viúva,

O pássaro no alto não (...) o seu (...),

O pombo não inclina a cabeça,

O doente dos olhos não diz "eu sou doente dos olhos",

O doente da cabeça não diz "eu sou doente da cabeça",

A sua (de Dilmun) velha não diz "eu sou uma velha",

O seu velho não diz "eu sou um velho",

A donzela não se banha, na cidade não se verte água de aspersão,

Quem atravessa o rio (da morte) não (...),

Os sacerdotes carpidores não andam em torno dele,

O cantor não profere nenhum lamento,

Do lado da cidade ele não profere nenhuma lamentação.

(...)

Um dos passos do ciclo incestuoso:

A deusa Ninmu saiu para a margem do rio,

Nos pantanais Enki olha em roda, olha em roda,

Ele diz ao seu mensageiro Isimud:

"Não beijarei a jovem, a bela?

Não beijarei Ninmu, a bela?"

O seu mensageiro Isimud responde:

"Beija a jovem, a bela,

Beija Ninmu, a bela,

Para o meu rei eu soprarei um vento favorável".

Sozinho, pousou os pés no barco,

Pela segunda vez ele sentou-se ali...

Abraçou-a, beijou-a,

Enki verteu o sémen no útero,

Ela recebeu o sémen no útero, o sémen de Enki,

Um dia sendo nela um mês,

Dois dias sendo nela dois meses,

Nove dias sendo nela dois meses, os meses da gestação da mulher,

Como nata, como nata, como boa, principesca nata,

Ninmu, como nata, como nata, como boa, principesca nata,

Deu nascimento à deusa Ninkurra.

(...)

O comer das oito plantas:

Enki, nos pantanais, olha em redor, olha em redor,

Diz ao seu mensageiro Isimud:

"Eu quero decretar a sorte destas plantas, quero conhecer o seu coração;

Por favor, que planta é esta? Por favor, que planta é esta?"

O seu mensageiro Isimud responde:

"Meu rei, é a planta-árvore, diz-lhe; deita-a abaixo para ele, e ele (Enki) come-a.

... (A pergunta é sucessivamente repetida para as várias perguntas) ...

"Meu rei, é a planta-mel, diz-lhe; colhe-a para ele, e ele (Enki) come-a.

"Meu rei, é a má-erva do caminho, diz-lhe; deita-a abaixo para ele, e ele (Enki) come-a.

"Meu rei, é a planta-água, diz-lhe; colhe-a para ele, e ele (Enki) come-a.

"Meu rei, é a planta-espinheiro, diz-lhe; deita-a abaixo para ele, e ele (Enki) come-a.

"Meu rei, é a planta-alcaparra, diz-lhe; colhe-a para ele, e ele (Enki) come-a.

"Meu rei, é a planta-(...), diz-lhe; deita-a abaixo para ele, e ele (Enki) come-a.

"Meu rei, é a planta-(...), diz-lhe; colhe-a para ele, e ele (Enki) come-a.

Das plantas Enki decretou o destino, conheceu o seu coração.

Então Ninhursag amaldiçoou o nome de Enki:

"Até que ele morra eu não o olharei com olhar da vida".

Ninhursag desaparece mas a raposa trá-la de volta. Cura Enki através da criação de oito novas divindades:

Ninhursag sentou Enki junto do seu sexo,

"Meu irmão, que te dói?"

"Dói-me o meu (...)".

"Por ti dei nascimento ao deus Abu".

E assim sucessivamente, dando origem além do deus Abu, a outras divindades: Nintulla (para a doença do maxilar); Ninsutu, para o dente; Ninkasi, para a boca; Nazi; Azimua, para o braço; Ninti, para a costela (a Senhora da Costela ou a Senhora que cria a vida); e o deus Enshag.

 

 

O PARAÍSO – II - A "IDADE DE OURO" DA HUMANIDADE

Alguma da mitologia, não só suméria, rebate para uma assim chamada primeira Idade de Ouro da humanidade. É um tempo que denota uma imagem idílica, o tempo do Paraíso, em que os homens vivem em felicidade, sem trabalho e sem disputas. Na literatura suméria há uma primeira concepção desta ideia. No conto "Enmerkar e o Senhor de Aratta", é repetido, recitado amiúde, um trecho intitulado O Encanto de Enki. Descreve-se aqui um estado de paz e segurança o qual termina com a queda do homem deste lugar de bem aventurança:

O Encanto de Enki

"Era uma vez, não havia cobras, não havia escorpiões

Não havia hienas, não havia leões,

Não havia cães selvagens, não havia lobos,

Não havia medo nem terror,

O homem não tinha rival.

Era uma vez as terras Shubur e Hamazi,

A Suméria de língua harmoniosa, a grande terra das divinas leis dos principados,

Uri, a grande terra que tem tudo o que é próprio,

A terra Martu, que descansa em segurança,

O universo inteiro, o povo em uníssono,

A Enlil numa língua fizeram preces.

Mas então o senhor-pai, o príncipe-pai, o rei-pai,

Enki, o senhor da abundância, cujas ordens eram confiantes

Senhor da Sabedoria que vigia a terra,

Senhor dos deuses,

Senhor de Eridu, dotado de sabedoria

Nas suas bocas trocou as palavras, instalou a discórdia,

Na fala do homem que havia sido única.

 

 

As primeiras linhas retratam os dias felizes do início. O homem sem medo, sem rivais, em abundância, dominava. Todos os povos em dada altura, rendiam culto principalmente à mesma divindade, Enlil, numa só voz. Parece indicar que os sumérios, tal como depois os hebreus, acreditaram na existência de uma língua universal única, anterior à "confusão das linguagens". Há quem conjecture que aqui o fim da ordem feliz – da Idade de Ouro dos primeiros tempos da humanidade e anterior à dispersão das linguagens – se deveu a uma ‘disputa entre deuses’. Enki, ciumento, desgostoso com a supremacia de Enlil, interveio, tenta derrubá-lo. Iniciam-se lutas, as guerras entre povos. Enki é também indicado como o responsável pela confusão das línguas, sendo isto o equivalente sumério ao episódio bíblico da Torre de Babel (Génesis 11, 1-9). Para os sumérios a causa efectiva foi assim um ciúme entre deuses. Para os hebreus, a ‘queda’ (do Homem) ficava-se antes a dever ao desagrado de Elohim (Deus) em relação à ambição do Homem em se igualar a Deus. O trecho de O Encanto de Enki – parte encontra-se deteriorada – relata-nos como Enki acabou com o poder de Enlil sobre a Terra e os seus habitantes. Note-se que anteriormente fora Enlil a suplantar o poder inicial de An. O texto terá sido até habilmente utilizado por um dos senhores de Uruk (um favorito do deus Enki) para impressionar adversários, como o senhor de Aratta, aos quais o poema era lido como um conjuro e aviso.

 

O UNIVERSO GEOGRÁFICO SUMÉRIO

O texto O Encanto de Enki fazia parte do conto épico mais vasto – Enmerkar e o senhor de Aratta – em que além de se falar na Idade de Ouro da humanidade, se descreve a ideia da grandeza geográfica então conhecida pelos sumérios. Concebiam o universo como que dividido em quatro partes principais. A Suméria formava a região no sudeste deste universo, e o seu território, grosseiramente, era entre os rios Tigre e Eufrates (na imagem), desde uma linha um pouco abaixo do paralelo 33º até ao Golfo Pérsico. Logo ao norte da Suméria ficava Uri, provavelmente a terra entre os mesmos rios mas ao norte desse paralelo, incluindo as regiões que seriam séculos mais tarde a Acádia e Assíria. A leste da Suméria e de Uri ficava Shubur-Hamazi, incluindo grande parte do Irão ocidental. A Oeste e sudoeste da Suméria localizava-se Martu, incluindo o território entre o Eufrates e o mar Mediterrâneo, bem como a Arábia. Em suma, o universo tal como era imaginado pelos sumérios estendia-se, pelo menos, das montanhas da Arménia, ao norte, até ao Golfo Pérsico, e das montanhas do Irão, no leste, até ao Mediterrâneo. Mas recorde-se ainda a existência a referências diversas de territórios que alguns identificam como a Etiópia e a contactos com civilizações do vale do Indo.

No capítulo da medição do tempo, cerca de 3.000 anos AC os sumérios tinham já inventado um calendário com divisões dos meses em 30 dias. Posteriormente sabe-se de um calendário dos babilónios com um ano de doze meses de 29 e 30 dias, somando 354 dias, pelo que se adivinha um sistema de ajuste se funcionasse em termos de ciclos solares. Mas como verificámos, pelo menos no caso dos sumérios, a Lua tinha uma importãncia superior à do Sol, pelo que não será de estranhar a existência de calendários mais baseados em ciclos lunares. Os egípcios teriam entretanto desde 4.236 AC um calendário em que dividiam já o ano em ciclos de 365 dias (ciclo solar), seriam os primeiros a terem o dia dividido em períodos mais ou menos idênticos às nossas horas e basearam-se ainda para a execução dos seus calendários na observação do movimento aparente da estrela Sirius, da constelação do Cão.

 

 

UMA DISPUTA "CAIM-ABEL" SUMÉRIA

Seguindo a flecha do tempo, e de acordo ainda com a história bíblica, após a criação do Homem e a expulsão do Paraíso, temos a géneso do desentendimento, os primeiros confrontos, que surgem com Caim e Abel. O trecho seguinte traz-nos já alguns laivos dessa disputa posterior Caim-Abel. Aqui, bem como em muitos outros escritos sumérios, trata-se de mais um choque entre divindades. Inanna cortejada é um poema, envolvendo a deusa Inanna, o deus do Sol (Utu), Dumuzi (ou Támuzi) o deus dos Pastores, e Enkimdu, um deus dos Lavradores. Utu prefere que a sua irmã Inanna case com o pastor Dumuzi. Tanto Dumuzi como Enkimdu pretendem-na. Ela, de início, estava mais disposta a casar com Enkimdu...

Inanna cortejada

Seu irmão, o herói, o guerreiro Utu,

Diz à pura Inanna

-Ó minha irmã, deixa que o pastor case contigo,

Ó virgem Inanna, porque não queres?

A sua nata é boa, o seu leite é bom,

O pastor, tudo o que a sua mão toca é brilhante,

Ó, Inanna, deixa que o pastor Dumuzi case contigo,

Ó tu, que estás adornada com jóias, porque não queres?

Ele comerá a sua boa nata contigo,

Ó protectora do rei, porque não queres?

Com o seu novo traje ele não me vestirá,

A sua fina lã não me cobrirá,

Eu, a virgem, casarei com o lavrador,

O lavrador que faz as plantas desenvolverem-se abundantemente,

O lavrador que faz a semente desenvolver-se abundantemente.

O Pastor:

O lavrador mais do que eu, o lavrador mais do que eu, o lavrador

o que tem ele mais do que eu?

Enkimdu, o homem do dique, valas e arado,

Mais do que eu, o lavrador, que tem ele mais do que eu?

Se ele me desse o seu fato preto,

Dar-lhe-ia, ao lavrador, a minha ovelha preta,

Se ele me desse o seu fato branco,

Dar-lhe-ia, ao lavrador, a minha ovelha branca,

Se ele me servisse a sua primeira cerveja,

Servir-lhe-ia, ao lavrador, o meu leite amarelo,

Se ele me servisse a sua boa cerveja,

Servir-lhe-ia, ao lavrador, o meu leite kisim,

Se ele me servisse a sua apetitosa cerveja,

Servir-lhe-ia, ao lavrador, o meu leite.

Se ele me servisse a sua cerveja aguada,

Servir-lhe-ia, ao lavrador, o meu leite de planta,

Se ele me desse os seus bons bocados,

Dar-lhe-ia, ao lavrador, o meu leite itirda,

Se ele me desse o seu bom pão,

Dar-lhe-ia, ao lavrador, o meu queijo de mel,

Se ele me desse os seus feijõezinhos,

Dar-lhe-ia, ao lavrador, os meus queijinhos;

Depois de eu ter comido, de ter bebido,

Ainda lhe deixaria os sobejos da nata,

Ainda lhe deixaria os sobejos do leite;

Mais do que eu, o lavrador, o que tem ele mais do que eu?

Disputa do Pastor e Enkimdu:

Ele alegrava-se, ele alegrava-se no barro da margem do rio,

ele alegrava-se,

Na margem do rio, o pastor na margem do rio alegrava-se,

O pastor, além disso, conduzia os carneiros na margem do rio.

Do pastor andando de um lado para o outro na margem do rio,

Dele, que é um pastor, se aproximou o lavrador,

O lavrador Enkimdu aproximou-se.

Dumuzi (...) do lavrador, o rei dos diques e valas,

Na sua planície, o pastor, na sua planície, inicia uma disputa com ele,

O pastor Dumuzi, na sua planície, inicia uma disputa com ele.

Enkimdu não quer discussões:

o que poderei eu disputar?

Deixa que os teus carneiros comam a erva da margem do rio,

Nas minhas terras cultivadas deixa que os teus carneiros andem,

Nos campos brilhantes de Uruk deixa-os comer a semente,

Deixa que os teus cabritos e cordeiros bebam a água do meu unun (canal).

Dumuzi:

-Quanto a mim, que sou um pastor, no meu casamento,

Lavrador, podes ser considerado como meu amigo,

Lavrador Enkimdu, como meu amigo, lavrador, como meu amigo,

Que sejas considerado como meu amigo.

Enkimdu:

Eu trar-te-ei trigo, trar-te-ei feijões,

Trar-te-ei lentilhas...

Tu, donzela, seja o que for para ti

Donzela Inanna, trar-te-ei (...)

 

 

O DILÚVIO

Após a Criação do Mundo, após o Paraíso, encontramos novas semelhanças com mais uma história bíblica posterior: o Dilúvio. Na mitologia babilónica, temos uma correspondência no Épico (ou Epopeia) de Gilgamesh. O mito nasceu porém na Suméria, passou para os babilónios e destes para os hebreus, como veremos adiante.

Assim, também o Dilúvio aparece na Epopeia de Gilgamesh babilónica (na 11ª placa), mas tem como se disse antecedentes sumérios, provados por outras placas de argila com escrita cuneiforme desenterradas em Nippur. Nestas mesmas placas sumérias para além do Dilúvio surgem descrições sobre a cosmogonia e cosmologia e trechos sobre a própria Criação do Homem. Fala-se ainda de cinco cidades nos tempos ante-diluvianos. O texto é como que um relato efectuado por uma divindade a outras, sobre o salvar-se a Humanidade da destruição total, devendo depois o Homem construir novas cidades e templos aos deuses

O Dilúvio segundo os sumérios

"A minha humanidade, na sua destruição farei (...),

A Nintu eu farei voltar o (...) das minhas criaturas,

Eu farei voltar o povo às suas instalações,

Nas cidades eles construirão lugares consagrados às leis divinas,

Tornarei repousante a sua sombra,

Das nossas casas, eles colocarão os tijolos em lugares puros,

Os lugares das nossas decisões, eles os restabelecerão em lugares puros".

Ele dirigiu a pura água apagadora do fogo,

Aperfeiçoou os ritos e exaltou as leis divinas,

Sobre a Terra ele colocou (...)

Depois de An, Enlil, Enki e Ninhursag

Terem criado as gentes de cabeça negra,

A vegetação brotou luxuriante da Terra,

Animais, (as criaturas) de quatro patas da planície, foram sabiamente trazidas à existência.

Depois da realeza ter descido do Céu,

Depois de a teara sublime e o trono da realeza terem descido do Céu,

Ele aperfeiçoou os ritos e exaltou as leis divinas

Fundou as cinco cidades em lugares puros,

Chamou-as pelos seus nomes, distribuiu-as como centros de culto.

A primeira destas cidades, Eridu, ele deu-a a Nudimmud, o chefe,

A segunda, Badtibira, ele deu-a a (...),

A terceira, Larak, ele deu-a a Endurbilhursag,

A quarta, Sippar, ele deu-a ao herói Utu,

A quinta, Shuruppak, ele deu-a a Sud.

Quando ele deu os nomes a estas cidades, distribuiu-as como centros de culto.

Ele trouxe (...)

Estabeleceu a limpeza dos regatos...

Há falhas no texto original onde os deuses tomam a decisão sobre o dilúvio. O texto volta a ser conciso na altura em que se fala de Ziusudra, o correspondente sumério ao Noé bíblico ou ao Ut-Napshitim babilónico. É tido como um rei piedoso, temente aos deuses e atento às revelações divinas, transmitidas por "sonhos e encantamentos". Ziusudra está junto a uma muralha quando a voz divina lhe anuncia que a assembleia dos deuses decidiu provocar um dilúvio e "destruir a semente do género humano".

"O Dilúvio (...)

Assim foi tratado (...)

Então Nintu chorou

A pura Inanna entoou uma lamentação pelo seu povo,

Enki aconselhou-se consigo mesmo,

An, Enlil, Enki e Ninhursag...

Os deuses do Céu e da Terra pronunciaram os nomes de An e de Enlil

Então Ziusudra, o rei, o pashishu,

Construiu um gigantesco (...)

Humildemente, obediente, reverentemente, ele

Diariamente ocupado, constantemente, ele

Produzindo todas as espécies de sonhos, ele

Invocando o Céu e a Terra, ele,

Os deuses, uma muralha,

Ziusudra, de pé a seu lado, escutava:

"Permanece junto da muralha à minha esquerda...

Junto da muralha eu dir-te-ei uma palavra, escuta a minha palavra,

Ouve as minhas instruções:

Por nosso (...) um Dilúvio varrerá os centros do culto;

Destruir a semente da humanidade.

É a decisão, a palavra da assembleia dos deuses.

Por ordem emitida por An e Enlil (...)

A sua realeza, a sua lei (ser-lhes-á posto fim).

(...)

Todos os vendavais, muitíssimo poderosos, atacaram em conjunto,

Ao mesmo tempo o Dilúvio assolou os centros do culto.

Depois de, durante sete dias e sete noites.

O Dilúvio ter assolado a Terra

E o grande barco ter sido sacudido pelos vendavais sobre as águas imensas,

Utu, aquele que espalha a luz no Céu e na Terra, surgiu,

Ziusudra abriu uma janela do grande barco,

O herói Utu introduziu os seus raios dentro do gigantesco barco.

Ziusudra, o rei,

Prosternou-se perante Utu,

O rei mata um boi, abate um carneiro.

An e Enlil disseram "respiração do Céu",

"respiração da Terra", pelos seus (...) se estendeu,

A vegetação ao sair da terra cresce.

Ziusudra, o rei,

Prosternou-se perante An e Enlil.

An e Enlil trataram Ziusudra com ternura,

Vida como a um deus lhe deram;

Respiração eterna como a um deus lhe ofereceram.

Então, a Ziusudra, o rei,

O preservador do nome da vegetação e da semente da humanidade,

Na terra da encruzilhada, a terra de Dilmun, o lugar onde o sol nasce, fizeram-no morar.

 

 

A PRAGA DA MUDANÇA DA ÁGUA EM SANGUE

Outra maldição, uma praga, referida de passagem logo no início do texto, é descrita em A Vingança de Inanna. Vemos assim que já na mitologia suméria existia uma praga de transformação da água em sangue. Água dos poços e dos rios. Surge esta praga (e mais duas outras) de Inanna contra a Suméria, na sequência de a deusa ter sido abusada, e durante as suas diligências para encontrar o profanador. Este, Shukallituda, conforme o poema anexo narra, parece ter conseguido escapar à ira da deusa. No fim ela vai a Eridu pedir conselho e ajuda a Enki.

A Vingança de Inanna

Shukallituda,

Quando deitava água nos regos,

Quando cavava sulcos ao longo dos canteiros,

Tropeçava nas raízes, era arranhado por elas;

Os ventos furiosos, com tudo o que trazem,

Com a poeira das montanhas, fustigavam-lhe o rosto,

No seu rosto e mãos,

Eles sopravam a poeira, e ele já não reconhecia os seus (...)

Ele então levantou o seu olhar para as terras do sul,

Olhou as estrelas do leste,

Levantou os olhos para as terras do norte,

Olhou para as estrelas do oeste,

Contemplou o Céu, onde se inscreviam os auspícios,

Aprendeu os presságios inscritos no Céu,

Neles aprendeu a observar as leis divinas,

Estudou as decisões dos deuses.

No jardim, em cinco para dez lugares inacessíveis,

Em cada um destes lugares plantou uma árvore como sombra protectora,

A sombra protectora da árvore, a árvore sarbatu de muita folhagem

A sombra que ela dá ao alvorecer,

Ao meio-dia e ao crepúsculo nunca desaparece.

Ora, um dia, a minha rainha, depois de ter atravessado o Céu, atravessado a Terra,

Inanna, a minha rainha, depois de ter atravessado o Céu, atravessado a Terra,

Depois de ter atravessado Elam e Shubur,

Depois de ter atravessado (...),

A hierodula (Inanna), exausta, aproximou-se do jardim, deixou-se adormecer,

Shukallituda viu-a do extremo do seu jardim,

Possuiu-a, beijou-a,

E regressou ao extremo do seu jardim.

Ao alvorecer, quando o sol se ergueu,

A mulher olhou à sua volta horrorizada.

Inanna olhou à sua volta horrorizada.

Então, a mulher, por causa do seu sexo, que mal fez!

Inanna, por causa do seu sexo, que fez ela!

Encheu de sangue todos os poços do país,

Encheu de sangue todos os bosques e jardins do país,

O escravos (varões) que vinham buscar lenha para o lume só tiveram sangue para beber,

Os escravos (fêmeas) que vinham buscar água só tiveram sangue para levar,

"Eu quero encontrar aquele que me possuiu procurando em todas as terras", disse a deusa.

Mas ela não encontrou aquele que a tinha possuído,

Porque o homem entrou em casa de seu pai,

Shukallituda disse a seu pai:

"Pai, quando deitava água nos regos,

Quando abria sulcos ao longo dos canteiros,

Tropeçava nas raízes, era por elas arranhado;

Os ventos furiosos, com tudo o que eles trazem,

Com a poeira das montanhas, fustigavam-me o rosto,

No meu rosto e mãos,

Eles sopravam a poeira, e eu já não reconhecia os seus (...)

Eu então levantei os meus olhos para as terras do sul,

Olhei as estrelas do leste,

Levantei os meus olhos para as terras do norte,

Olhei para as estrelas do oeste,

Contemplei o Céu, onde se inscrevem os auspícios,

Aprendi os presságios inscritos no Céu,

Neles aprendi a observar as leis divinas,

Estudei as decisões dos deuses.

No jardim, em cinco para dez lugares inacessíveis,

Em cada um deles plantei uma árvore como sombra protectora.

A sombra protectora da árvore – a árvore sarbatu de muita folhagem

A sombra que ela dá ao alvorecer

Ao meio-dia e ao crepúsculo nunca desaparece.

Um dia a minha rainha, depois de ter atravessado o Céu, atravessado a Terra,

Inanna, depois de ter atravessado o Céu, atravessado a Terra,

Depois de ter atravessado Elam e Shubur,

Depois de ter atravessado (...),

A hierodula (Inanna), exausta, aproximou-se do jardim, deixou-se dormir;

Eu vi-a do extremo do meu jardim,

Possuí-a, beijei-a,

E voltei para o extremo do meu jardim.

Ao alvorecer, quando o sol se ergueu,

A mulher olhou à sua volta horrorizada,

Inanna olhou à sua volta horrorizada,

Então, a mulher, por causa do seu sexo, que mal fez!

Inanna, por causa do seu sexo, que fez ela!

Encheu de sangue todos os poços do país,

Encheu de sangue todos os bosques e jardins do país,

O escravos (varões) que vinham buscar lenha para o lume só tiveram sangue para beber,

Os escravos (fêmeas) que vinham buscar água só tiveram sangue para levar,

"Hei-de encontrar aquele que me possui", disse ela".

Mas aquele que a possuiu não foi encontrado,

Porque o pai respondeu ao jovem,

O pai respondeu a Shukallituda:

"Filho, conserva-te junto das cidades dos teus irmãos,

Dirige os teus passos para junto dos teus irmãos, o povo da cabeça preta,

A mulher (Inanna) não te encontrará no meio das terras".

Ele (Shukallituda) conservou-se junto das cidades dos seus irmãos,

Dirigiu os seus passos para junto dos seus irmãos, o povo da cabeça preta,

A mulher não o encontrou no meio de todas as terras.

Então a mulher, por causa do seu sexo, que mal fez!

Inanna, por causa do seu sexo, que fez ela! (...)

 

O "LIVRO DE JOB" SUMÉRIO

O Livro de Job bíblico trata da humildade, da súplica, da perseverança perante o sofrimento. No equivalente sumério encontra-se talvez o primeiro texto escrito sobre a submissão e sofrimento do Homem, o tema que muito mais tarde (mais de 1000 anos depois) seria reeditado através do Livro de Job. O que se diz: a ‘vítima’ só tem um recurso válido e eficaz, o de glorificar sem cessar o seu deus e ficar chorando, lamentando-se, até que ele atenda as suas súplicas. Nada de desafiar a ordem divina ou de blasfemar. Humildade perante o seu deus, orações, súplicas. O deus ficará inclinado à compaixão se ficar agradado, libertando-o dos infortúnios. O sofrimento será finalmente transformado em alegria. É o que podemos ver neste "Livro de Job" Sumério.

O "Livro de Job" Sumério

Eu sou um homem, um homem esclarecido, e, no entanto quem me respeita não prospera,

A minha palavra recta foi transformada em mentira,

O homem impostor cobriu-me com o vento do sul, sou forçado a servi-lo,

Quem não me respeita envergonhou-me perante ti.

Distribuiste-me sempre sofrimento,

Voltei para casa, o espírito é pesado,

Eu, o homem, voltei para as ruas, o coração oprimido,

Comigo, o valente, o meu recto pastor ficou zangado,

Olhou para mim com inimizade.

O meu guarda de gado buscou forças malévolas contra mim, que não era seu inimigo,

O meu companheiro não me diz uma palavra verdadeira,

O meu amigo atribuiu mentira às minhas palavras rectas,

O homem impostor conspirou contra mim,

E tu, meu deus, não o contrarias...

Eu, o sábio, porque sou embaraçado por jovens ignorantes?

Eu, o esclarecido, porquê ser contado junto com os ignorantes?

A alimentação rodeia-me, mas a minha comida é fome,

Os quinhões do dia são distribuídos por todos, o quinhão que me cabe é o sofrimento.

Meu deus, eu ficaria frente a ti

Falar-te-ia, ..., a minha palavra é um queixume,

Eu contar-te-ia, choraria a amargura do meu caminho,

Deploraria a confusão.

Ah, que a minha mãe, que me deu o ser, me não cale este lamento perante ti,

Que a minha irmã cale a alegre canção e o cântico,

Que ela conte em lágrimas as minhas desgraças perante ti.

Que a minha mulher exprima em tristeza o meu sofrimento,

Que o hábil cantor chore o meu amargo destino.

Meu deus, o sol brilha esplendorosamente sobre a Terra, para mim o dia é negro.

O dia brilhante, o dia bom (...)

As lágrimas, o gemido, a angústia e a depressão estão alojados dentro de mim.

O sofrimento submerge-me como um eleito das lágrimas,

A má-sorte toma-me na sua mão, leva-me o sopro da vida,

A doença maligna banha o meu corpo.

Meu deus, tu que és o meu pai, que me gerou,

ergue o meu rosto.

Como uma vaca inocente, em piedade (...) o gemido,

Por quanto tempo me desatenderás, me deixarás desprotegido?

Como um boi, (...)

Por quanto tempo me deixarás sem guia?

Eles dizem – valorosos sábios – uma palavra recta e rigorosa:

Nunca uma pura criança nasceu de sua mãe

... um puro jovem nunca existiu dum velho.

Depois, vem o final feliz :

"Ao homem – o seu deus escutou as lágrimas e prantos amargos,

Ao jovem – os seus lamentos e queixumes enterneceram o coração do seu deus,

As palavras verdadeiras, as palavras puras por ele pronunciadas, o seu deus as aceitou.

As palavras que o homem devotamente confessou

Agradaram a (...), a carne do seu deus, e o seu deus tirou-lhe a mão

do mundo perverso,

Que oprime o coração, ... ele abraça,

O circundante demónio da doença, que tinha desdobrado largamente as suas asas, voou para longe.

A doença que o tinha ferido ele dissipou,

A má-sorte que lhe tinha sido designada de acordo com a sua sentença, ele a afastou,

Ele converteu o sofrimento do homem em alegria,

Como vigilantes e guardiães, colocou junto dele os génios bondosos

Deu-lhe anjos de semblantes graciosos.

 

O SURGIR DA CIVILIZAÇÃO

 

O Mundo, o Universo, está criado. O Homem já existe. O Dilúvio, o cataclismo, está suplantado. Como é que a ordem, as leis, são então espalhadas, governam o Mundo? A explicação suméria pode ser encontrada eventualmente num conto, reportando como Inanna tira os me (as regras, as leis divinas) a Enki, e os lança na civilização, em Uruk. Inanna, a rainha do Céu, deusa tutelar de Uruk, quer aumentar a prosperidade da cidade, fazer dela o centro da civilização suméria. Decide ir a Eridu o antigo centro da civilização, onde mora Enki, senhor da sabedoria – o que conhece o próprio coração dos deuses. É ele o guardião dos me, as leis, é ele aquele que tem a seu cargo todas as leis divinas essenciais à civilização. Enki vive em Eridu, no seu abismo de águas, o Apsu (ou Abzu). Inanna decide obter os me, e levá-los para Uruk.

O trecho que relata tal situação inicia-se com a aproximação de Inanna ao Apsu, e a fascinação de Enki por ela, o qual, chama o seu mensageiro Isimud..

 

 

 

O lançamento dos ME na civilização

"Vem, meu mensageiro Isimud, vem ouvir as minhas instruções,

Uma palavra dir-te-ei, toma a minha palavra.

A donzela, só, encaminhou-se para o Apzu,

Inanna, só, encaminhou-se para o Apzu,

Faz a donzela entrar no Apzu de Eridu,

Faz Inanna entrar no Apzu de Eridu,

Dá-lhe a comer bolo de cevada com manteiga,

Derrama sobre ela água fria que refresca o coração,

Dá-lhe a beber cerveja na ‘face de leão’

Na mesa sagrada, a mesa do Céu,

Diz a Inanna palavras de saudação".

Inanna e Enki sentam-se. É a festa, o banquete. A bebida alegra os corações. Enki exclama:

"Em nome do meu poder,

Em nome do meu poder,

À sagrada Inanna, minha filha, darei de presente as leis divinas"

Dá-lhe então mais de uma centena de mes. Inanna está feliz pelo que Enki, no meio da sua embriaguez lhe oferece. Recebe-os e metendo-se na ‘barca do Céu’ inicia a viagem de volta a Uruk, com o seu precioso carregamento. Enki ao acordar dá pela falta dos me, mas já é tarde demais. Ela partiu. Depois, apesar das ordens dadas por Enki, procurando interceptá-la, Inanna consegue chegar a Uruk, tal como ilustra a continuação do poema.

O príncipe chama o seu mensageiro Isimud,

Enki dá a palavra ao Bom Nome do Céu.

"Ó mensageiro Isimud, meu Bom Nome do Céu"

"A barca do Céu, onde chegou ela agora?"

"Vai e deixa que os monstros do mar a tomem".

Isimud encontra Inanna e ‘retoma’ a barca do Céu.

Ó minha rainha, teu pai mandou-me junto de ti,

Ó Inanna, teu pai mandou-me junto de ti

Teu pai exaltou-se na sua elocução,

Enki exaltou-se na sua elocução,

As suas grandes palavras não são para serem desprezadas.

A sagrada Inanna responde-lhe:

Meu pai, de que te falou, o que te disse ele?

Por favor, quais as grandes palavras suas que não são para desprezar?

O meu rei falou-me

Enki disse-me:

"Deixa que Inanna vá para Uruk,

Mas traz-me a ‘barca do Céu’ para Eridu".

A sagrada Inanna diz ao mensageiro Isimud:

"O meu pai, porque mudou ele a sua palavra para mim?

Porque quabrou ele a sua justa palavra para mim?

Porque profanou ele as suas grandes palavras para mim?

Meu pai falou-me falsamente, falou-me falsamente,

Jurou falsamente em nome do seu poder, pelo nome de Abzu.

Apenas ela pronunciou estas palavras,

Os monstros do mar apoderaram-se da barca do Céu.

Inanna diz ao seu mensageiro Ninshibur:

"Vem, meu verdadeiro mensageiro de Inanna,

Meu mensageiro de palavras favoráveis,

Meu portador da verdadeira palavra,

Cuja mão nunca hesita, cuja fé nunca vacila,

Salva a barca do Céu e apresenta as leis divinas de Inanna.

Ninshubur, o mensageiro de Inanna também intervém mas Enki persiste. Para retomar a barca continua a ordenar a Isimud que acompanhado dos monstros marinhos vá a cada uma das sete paragens entre Eridu e Uruk para tentar interceptá-la. Mas de cada uma das vezes Ninshubur socorre Inanna a qual chegará a Uruk, onde no meio da alegria geral desembarca uma a uma as leis divinas.

 

Parte da civilização após a criação do mundo, é também devida a Enlil (o deus da atmosfera, do ar, do vento), embora mais tarde fosse Enki (deus da sabedoria e das águas profundas) a suplantar Enlil, assim como antes, por volta de 2.500 AC, Enlil havia eclipsado An (o deus do Céu). Ficou contudo um hino, cantando o papel civilizacional de Enlil, um hino de louvor ao deus do vento e da atmosfera.

Hino de Louvor a Enlil

Enlil, cujas ordens alcançam a distância, cuja palavra é santa,

O senhor cuja decisão é imutável, que decreta para sempre os destinos,

Cujos olhos erguidos percorrem as terras,

Cuja luz levantada prescruta o coração de todas as terras,

Enlil, que está sentado com abandono sobre o altar branco, sobre o altar sublime,

Que consuma os decretos da força, da realeza, da soberania,

Perante o qual se inclinam, temerosos, os deuses da Terra,

Perante o qual se humilham os deuses do Céu (...),

A cidade (Nippur), seu aspecto inspira terror e respeito (...),

O ímpio, o mau, o opressor,

O denunciante,

O arrogante, o violador dos pactos,

Ele não tolera os seus malefícios na cidade,

A grande rede (...)

Ele não deixa os opressores e malfeitores escapar às suas malhas.

Nippur – o santuário onde habita o pai, a "grande montanha",

O altar da abundância, o Ekur que se ergue,

A alta montanha, o nobre lugar,

Seu príncipe, a "grande montanha", pai Enlil,

Estabeleceu a sua morada no altar de Ekur, sublime santuário;

O templo – as suas divinas leis, como o Céu, não podem ser subvertidas,

Os seus puros ritos, como a Terra, não podem ser abalados,

As suas divinas leis são como as divinas leis do abismo, ninguém as pode olhar,

O seu ‘coração’ como um distante santuário, desconhecido como o zénite do Céu...,

As suas palavras são orações,

Os seus propósitos são súplicas,

O seu ritual é precioso,

Nas suas festas jorram a gordura e o leite, são ricas e abundantes,

Os seus armazéns dão felicidade e alegria,

A casa de Enlil é uma montanha de abundância,

O Ekur, a casa de lápis-lazúli, a sublime morada, que inspira medo,

Cujo medo e terror estão próximos do Céu,

Cuja sombra se estende sobre todas as terras,

Cuja majestade atinge o coração do Céu,

Onde os senhores e os príncipes levam os seus presentes sagrados, as suas oferendas,

Vêm dizer as suas orações, as suas súplicas, os seus pedidos.

Enlil, o pastor que contemplais favoravelmente,

A quem chamastes e tornastes eminente na Terra,

Que prostra todas as terras estranhas por onde passa,

Libações apaziguadoras de toda a parte,

Sacrifícios dos pesados produtos,

Foram trazidos; no armazém

Nos altos pátios determinou as suas oferendas;

Enlil, o digno pastor, sempre em movimento,

O rei do principal pastor de tudo o que respira,

Trouxe à existência o seu principado,

Colocou a coroa sagrada na sua cabeça.

No Céu – é o príncipe; na Terra – é o grande,

Os Anunnaki – é o seu exaltado deus;

Quando no seu poder aterrador, ele decreta os destinos,

Nenhum deus se atreve a olhá-lo.

Só ao seu exaltado vizir, o camarista Nusku,

A ordem, a palavra do seu coração,

Deu a conhecer, só a ele informou,

Mandou-o executar todas as ordens que a todos obrigavam,

Confiou-lhe todas as regras sagradas, todas as sagradas leis.

Sem Enlil, a grande montanha,

Nenhuma cidade seria construída, nenhumas instituições fundadas,

Não seriam construídos quaisquer estábulos, nem feito nenhum redil,

Ninguém seria levado à realeza, não nasceria qualquer grande sacerdote,

Nenhum sacerdote-mah, nenhuma grande sacerdotisa seriam escolhidos

pelo carneiro-presságio,

Os trabalhadores não teriam nem chefe nem superintendente,

Os caudais dos rios não teriam transbordado,

O peixe do mar não depositaria os ovos no canavial,

Os pássaros do Céu não construiriam ninhos na vasta Terra,

No Céu as arrastadas nuvens não produziriam a sua humidade,

Plantas e ervas, a glória da planície, não poderiam crescer,

No campo e no prado o rico grão não poderia florir,

As árvores plantadas na floresta da montanha não produziriam o seu fruto (...)

 

O PRIMEIRO CÓDIGO DE LEIS * UM ‘PARLAMENTO’ SUMÉRIO

A vingança, o olho por olho, dente por dente, vigorou por muitos e longos anos desde a antiguidade, e mesmo entre os hebreus. Pela análise dos textos sumérios, descobrimos até códigos mais antigos (os de Ur-Nammu e o de Lipit-Ishtar) que o conhecido código de Hamurábi, babilónico. O trecho seguinte é um pequeno extracto com três leis sumérias, permitindo já a conversão em ‘coimas’ de diversas infracções de natureza corporal:

"Se um homem a um homem, com um instrumento, cortou o pé, dez siclos de prata deverá pagar"

"Se um homem a um homem, com uma arma seus ossos (...) quebrou, uma mina de prata deverá pagar"

"Se um homem a um homem, com um geshpu cortar o nariz, 2/3 de uma mina de prata deverá pagar".

No aspecto social e político são visíveis pela primeira vez ideias que só muito mais tarde se generalizaram. Anterior à Grécia clássica, temos aqui alguns traços de democracia, num texto que nos retrata um assunto a ser discutido no que pode ser considerado um Um Parlamento Sumério de duas câmaras.

 

Um Parlamento Sumério

"Os emissários de Agga, filho de Enmebaraggesi,

Vindos de Kish procurar Gilgamesh, em Uruk,

O senhor Gilgamesh aos mais velhos da sua cidade

Pôs a questão, pediu-lhes conselho:

- Não nos submetamos aos reis de Kish, batamo-los pelas armas".

A assembleia convocada dos mais velhos da cidade

Respondeu a Gilgamesh:

Submetamo-nos aos reis de Kish, não levantemos contra eles as nossas armas.

Uma segunda vez Gilgamesh, o senhor de Kullab,

Diante dos homens combatentes da sua cidade pôs a questão, pediu-lhes conselho:

- Não nos submetamos aos reis de Kish, batamo-los pelas armas.

A assembleia reunida dos homens combatentes da sua cidade

Respondeu a Gilgamesh:

Não nos submetamos aos reis de Kish, batamo-los pelas armas.

Então Gilgamesh, o senhor de Kullab

Ao parecer dos varões combatentes da sua cidade, o seu coração rejubilou,

a sua alma iluminou-se.

 

O "CÂNTICO DOS CÂNTICOS" SUMÉRIO

Um outro tipo de paralelismo com escritos do Antigo Testamento é encontrado num poema que se assemelha ao ‘Cântico dos Cânticos’. O trecho, com cerca de 4.000 anos, é recitado por uma noiva eleita do rei Shu-Sin. Ela fora escolhida de entre as sacerdotisas de Inanna, a deusa do amor e da procriação, a fim de assegurar a fecundidade da Terra e dos ventres:

Um "Cântico dos Cânticos" sumério

Noivo, caro ao meu coração,

Agradável é a tua beleza, doce mel,

Leão, caro ao meu coração,

Agradável é a tua beleza, doce mel.

Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,

Noivo, eu deixaria que me levasses para o quarto,

Tu cativaste-me, deixa-me permanecer tremente perante ti,

Leão, eu deixaria que me levasses para o quarto.

Noivo, deixa que te acaricie,

A minha preciosa carícia é mais saborosa do que o mel,

No quarto o mel corre,

Disfrutemos a tua agradável beleza,

Leão, deixa-me acariciar-te,

A minha preciosa carícia é mais saborosa do que o mel,

Noivo, tu de mim tomaste o teu prazer,

Diz a minha mãe, ela far-te-á gentilezas,

O meu pai, ele dar-te-á presentes.

O teu espírito, eu sei onde recrear o teu espírito,

Noivo, dorme na nossa casa até ao amanhecer,

O teu coração, eu sei onde alegrar o teu coração,

Leão, dorme na nossa casa até ao amanhecer.

Tu, porque me amas,

Dá-me o favor das tuas carícias,

meu senhor deus, meu senhor protector,

Meu Shu-Sin que alegra o coração de Enlil,

Dá-me o favor das tuas carícias.

O teu lugar agradável como mel, por favor estende a tua mão sobre ele,

Traz a tua mão sobre ele como um traje gishban

Cola a tua mão sobre ele como um traje gishban-sikin,

É uma canção balbale (dedicada)de Inanna.

 

Um outro cântico de amor, por uma sacerdotisa anónima, e que exalta o nascimento de Shu-Sin logo ao início, louva-o, fala dos presentes oferecidos e foca os próprios encantos dela:

Cântico de amor a Shu-Sin

Ela deu nascimento a ele que é puro,

Ela deu nascimento a ele que é puro,

A rainha deu nascimento a ele que é puro,

Abisimti deu nascimento a ele que é puro,

A rainha deu nascimento a ele que é puro,

Ó minha rainha que é premiada do limbo,

Ó minha rainha que és (...) de cabeça, minha rainha Kubatum,

Ó meu senhor (...) de cabelo, meu senhor Shu-Sin,

Ó meu senhor, que és (...) de palavra, meu filho de Shulgi!

Porque eu a disse, porque eu a disse, o senhor deu-me um presente,

Porque eu disse a canção allari, o senhor deu-me um presente,

Um pendente de ouro, um selo de lápis-lazúli, o senhor deu-me um presente,

Um anel de ouro, um anel de prata, o senhor deu-me um presente,

Senhor, o teu presente é repleto de (...), ergue o teu rosto para mim,

Shu-Sin, o teu presente é repleto de (...), ergue o teu rosto para mim.

Senhor, senhor, como uma arma,

A cidade ergue a sua mão como um dragão, meu senhor Shu-Sin,

Jaz a teus pés como uma cria de leão, filho de Shulgi.

Meu deus, da virgem do vinho, doce é a sua bebida,

Como a sua bebida, doce é o seu sexo, doce é a sua bebida,

Como os seus lábios, doce é o seu sexo, doce é a sua bebida,

Doce é a sua bebida misturada, a sua bebida.

Meu Shu-Sin, que me escolheste,

Ó meu Shu-Sin que me escolheste, que me acariciaste,

Meu Shu-Sin que me escolheste, que me acariciaste,

Meu amado de Enlil, meu Shu-Sin,

Meu rei, o deus da sua Terra!

É uma balbale (dedicada) de Bau.

 

A DERROTA DO DRAGÃO – OS MITOS DE GILGAMESH

É nos mitos sumérios referentes ao herói Gilgamesh, nomeadamente no prólogo de Gilgamesh, Enkidu e os Infernos, que voltamos a encontrar um trecho que além de abordar de passagem a Criação do mundo, fala de um combate contra Kur – descrito por vezes além de local infernal, como tratando-se também de um monstro-dragão. Enki vai a Kur para vingar o rapto da rainha Ereshkigal. Isto dá a entender que Ereshkigal – considerada a rainha dos Infernos - poderá não ter ido para o Kur de livre vontade, mas sim, prisioneira ou refém, e acabou por lá ficar e reinar. Ela é ainda conhecida como sendo a esposa de Nergal, deus do inferno. Extracto de Gilgamesh, Enkidu e os Infernos (prólogo).

Gilgamesh, Enkidu e os Infernos (prólogo)

(...)

"Depois de An ter levado o Céu,

Depois de Enlil ter levado a Terra,

Depois de Ereshkigal ter sido levada para Kur como prémio,

Depois de ele se ter feito à vela, depois de ele se ter feito à vela,

Depois de o pai se ter feito à vela contra Kur,

Depois de Enki se ter feito à vela contra Kur,

Contra o rei, Kur atirou as pequenas

Contra Enki ele atirou as grandes.

As pequenas pedras de mão,

As grandes pedras de juncos "dançantes",

A quilha do barco de Enki

Na batalha, como atacada por tempestades, naufragou.

Contra o rei, a água à proa do barco

Devora como um lobo,

Contra Enki, a água à popa do barco

Fere como um leão.

 

No texto acima citado – um extracto do prólogo de Gilgamesh, Enkidu e os Infernos – não era bem explícito que se tratava de um combate contra um dragão, travado por Enki. Este deus, note-se, é em certa medida equivalente ao Poseídon grego ou ao Neptuno romano, deuses das águas. Os combates contra dragões abundam na mitologia grega e mais tarde no cristianismo, protagonizados por santos como São Jorge. Ambos os ramos poderão ter uma raiz suméria. Uma segunda versão suméria sobre a morte do dragão existe no poema Acções e Façanhas do deus Ninurta. Ninurta é o deus do vento sul. O "mau da fita" aqui não é Kur mas sim Asag, um demónio da doença, que mora porém em Kur. Vencido Asag, nova calamidade: as águas primordiais do Kur irrompem à superfície e travam a água doce. Ninurta empilha pedras, constrói diques, para proteger a Suméria das "poderosas águas" do Tigre que sofrem a investida desse refluxo, talvez marinho (do golfo Pérsico?). O trecho do poema aqui transcrito é essencialmente já sobre essa parte da calamidade. No fim, Ninmah, mãe de Ninurta, visita-o, estando ele ainda em "território inimigo". Ele mira-a com o "olhar de vida".

Acções e façanhas do deus Ninurta

A fome era severa, nada era produzido,

Nos regatos não havia onde "lavar as mãos",

As águas não subiam.

Os campos não eram regados,

Não havia escavações de fossos (de irrigação),

Não havia vegetação em quaisquer campos,

Só cresciam ervas más.

Então o senhor interessou nesta situação o seu espírito sublime.

Ninurta, o filho de Enlil, criou grandes coisas.

Aquilo que foi disperso, ele o reuniu,

Aquilo que do Kur foi disperso,

Ele o levou e arremessou para dentro do Tigre,

As altas águas o Tigre as espalha por sobre os campos.

E eis que então tudo na Terra

Regozijava de longe Ninurta, o rei da Terra,

Os campos produziam grão abundante,

A vinha e o pomar deram os seus frutos,

(As colheitas) foram amontoadas nos celeiros e nas colinas,

O senhor fez que o luto desaparecesse da Terra,

Ele encheu de alegria o espírito dos deuses.

(À chegada de Ninmah)

"Ó senhora, porque quiseste vir ao Kur,

Ó Ninmah, porque, por minha causa, entrarias no território inimigo,

Porque não receias o terror da batalha que se trava à minha volta,

Que ao monte que eu, o herói, ergui

Seja dado o nome de Hursag (montanha) e que sejas tu a sua rainha.

(Ninmah é também um dos nomes de Ninhursag – a Senhora da Montanha, também a deusa-mãe, a Terra)

 

 

Uma terceira versão envolvendo combates com monstros, explicados depois como tratando-se de dragões, é encontrada no poema sumério Gilgamesh e a Terra dos Vivos. Aqui, Gilgamesh mata o monstro Huwawa, o guardião dessa "Terra dos Vivos". A narração debruça-se sobre a angústia do homem perante a morte. Gilgamesh parte com o seu fiel servidor Enkidu numa expedição que tem o propósito de abater ou recolher os cedros desse país e trazê-los para Uruk. Antes, aconselha-se com Utu, o deus do Sol, o qual vela pelo país dos cedros, e leva-lhe oferendas.

Utu neutraliza os sete demónios referentes a sete desastres naturais. Ainda com a ajuda de Utu, Gilgamesh prossegue galgando com Enkidu e cinquenta combatentes uma série de sete cadeias de montanhas. Após o esforço adormece profundamente. Só a custo Enkidu o acorda e o incita a apressar-se, advertindo-o sobre o terrível Huwawa, o "guarda dos cedros". Este observa a sua aproximação e tenta evitar que entrem nos seus domínios, mas Gilgamesh, após derrubar sete árvores, encontra-se agora face a face com o monstro-dragão nos aposentos deste. Huwawa parece amedrontar-se. Apela ao deus do Sol, Utu, e implora a Gilgamesh que não o mate. Gilgamesh até está disposto a ser generoso e propõe a Enkidu a liberdade de Huwawa. Mas segue-se o receio de Enkidu, que alerta para as possíveis consequências. Huwawa indigna-se face a esta atitude pouco simpática de Enkidu. Enfim, de nada lhe vale, pois os dois heróis cortam-lhe o pescoço. O cadáver do monstro é depois levado aos deuses Enlil e Ninlil.

Gilgamesh e a Terra dos Vivos

O senhor para a Terra dos Vivos dirigiu o seu pensamento,

O senhor Gilgamesg para a Terra dos Vivos dirigiu o seu pensamento,

Ele diz ao seu servidor Enkidu:

"Ó Enkidu, o tijolo e o selo ainda não deram origem ao fim fatal,

Eu entraria na "terra", eu elevaria o meu nome,

Nos lugares onde os nomes foram elevados eu elevaria o meu nome,

Nos lugares onde os nomes ainda não foram elevados eu elevaria os nomes dos deuses".

O seu servidor Enkidu respondeu-lhe:

"Ó meu senhor, se tu queres entrar na "terra", informa Utu,

Informa Utu, o herói Utu –

A "terra" está a cargo de Utu,

A terra dos cedros abatidos está a cargo do herói Utu – informa Utu".

Gilgamesh poisou as suas mãos sobre um cabrito todo branco,

Um cabrito castanho, uma oferenda, ele apertou contra o peito,

Na sua mão colocou o bastão de prata (...)

Diz a Utu do Céu:

"Ó Utu, eu quereria entrar na "terra", sê meu aliado,

Eu quereria entrar na terra do cedro abatido, sê meu aliado".

Utu do Céu respondeu-lhe:

"É verdade que tu é (...), mas o que és tu para a "terra"?"

"Ó Utu, eu quereria dizer-te uma palavra, para a minha palavra o teu ouvido,

Eu fá-la-ia chegar a ti, dá-lhe ouvidos.

Na minha cidade morre-se, oprimido está o coração,

O homem perece, pesado está o coração.

Eu espreitei sobre o muro,

Vi os cadáveres... flutuando no rio;

Quanto a mim, eu terei o mesmo destino; verdadeiramente assim será.

O homem, por mais alto, não pode chegar ao Céu,

O homem, por mais largo, não pode cobrir a Terra.

O tijolo e o selo não decretaram ainda o fim fatal

Eu quereria entrar na "terra", fixaria o meu nome,

Nos lugares onde os nomes foram erguidos eu ergueria o meu nome,

Nos lugares onde os nomes não foram erguidos ergueria o nome dos deuses".

Utu aceitou as suas lágrimas como oferenda,

Como um homem de misericórdia, mostrou-lhe misericórdia,

Os sete heróis, os filhos de uma mãe, (...)

Ele trouxe para dentro das cavernas da montanha.

Quem abateu o cedro agiu alegremente,

O senhor Gilgamesh agiu alegremente,

Na sua cidade, como um homem, ele

Como dois companheiros, ele

"Quem tem casa, para sua casa! Quem tem mãe, para a sua mãe!

Que os homens solteiros que fariam como eu, cinquenta, permaneçam a meu lado".

À casa dos forjadores ele se dirigiu,

O machado, o seu "poder de heroísmo" ele ali mandou fundir.

Ao jardim da planície se dirigiu,

A árvore, o salgueiro, a macieira, o buxo, a árvore ali derrubou.

Os "filhos" da sua cidade que o acompanhavam colocaram-nos nas suas mãos.

Após passarem as montanhas, Gilgamesh adormeceu. Enkidu tenta despertá-lo.

Toca-lhe, ele não se ergue,

Fala-lhe, ele não responde.

"Tu que estás deitado, tu que estás deitado,

Ó Gilgamesh,, senhor, filho de Kullab, por quanto tempo permanecerás deitado?

A "terra" escureceu, as sombras derramaram-se sobre ela,

O crepúsculo fez brotar a sua luz,

Utu foi de cabeça erguida para o seio de sua mãe, Ningal,

Ó Gilgamesh, por quanto tempo permanecerás deitado?

Não deixes que os filhos da tua cidade que te acompanham

Permaneçam esperando por ti ao pé da montanha,

Não permitas que a tua mãe que te deu o ser seja conduzida à "praça" da cidade".

Ele consentiu,

Com a sua "palavra de heroísmo" cobriu-se como um vestuário,

O seu vestuário de trinta siclos que levava na mão cruzou sobre o peito,

Como um touro, fixou-se na "grande terra",

Encostou a boca ao solo, os seus dentes abanaram.

"Pela vida de Ninsun, minha mãe que me deu o ser, e do puro Lugalbanda, meu pai,

Possa eu tornar-me como alguém que se senta, para ser admirado, nos joelhos de Ninsun, a mãe que me deu o ser":

Uma segunda vez ele lhe diz:

"Pela vida de Ninsun, minha mãe que me deu o ser, e do puro Lugalbanda, meu pai,

Até que eu tenha morto esse ‘homem’, se ele for um homem, até que o tenha morto, se ele for um deus,

Os meus passos dirigidos para o ‘campo’, não os dirigirei para a cidade".

O atento servidor suplicou, (...) ou a vida,

Ele respondeu ao senhor:

"Ó meu senhor, tu, que nunca viste este ‘homem’, não estás aterrorizado,

Eu, que vi este ‘homem’, estou aterrorizado.

O guerreiro, os seus dentes são os dentes de um dragão,

O seu rosto, é o rosto de um leão,

O seu (...) é o curso de água torrencial,

Da sua fronte, que devora árvores e juncos, nada escapa.

Ó meu senhor, parte para o ‘campo’, eu partirei para a cidade,

Direi a tua mãe da tua glória, que ela te louve,

Dir-lhe-ei da tua morte próxima, que ela verta lágrimas amargas.

Por mim um outro não morrerá, o barco carregado não se afundará,

O fato de três pregas não será cortado,

O (...) não será submergido,

O fogo não destruirá a casa e a cabana.

Ajudai-me e ajudar-te-ei, o que pode acontecer-nos?

Vem, vamos para a frente, fixá-lo-emos com os nossos olhos,

Se avançarmos,

E se houver medo, se houver medo, fá-lo arrepiar caminho,

Se houver terror, se houver terror, fá-lo arrepiar caminho,

No teu (...), vem, vamos para a frente".

Quando ainda não tinha chegado a uma distância de 1200 pés,

Huwawa, a sua casa de cedro,

Fixou o seu olhar sobre ele, o olhar da morte,

Inclinou a cabeça sobre ele, agitou a cabeça para ele,

Ele próprio Gilgamesh arrancou a primeira árvore,

Os ‘filhos’ da sua cidade que o acompanhavam

Cortaram-lhe a rama, apanharam-na,

Puseram-na no sopé da montanha.

Depois ele próprio, tendo arrancado a sétima, aproximou-se do seu quarto,

Dirigiu-se para a ‘cobra do cais do vinho’ na sua parede,

Como alguém depondo um beijo, ele esbofeteou-lhe a face.

Huwawa, o seu dente abanou, a sua mão tremeu,

"Eu gostaria de te dizer uma palavra,

(Ó Utu), não conheço a mãe que me deu o ser, não conheço o pai que me criou,

Na ‘terra’ deste-me o ser, criaste-me".

Ele esconjurou Gilgamesh pela vida do Céu, pela vida da Terra, pela vida do mundo inferior,

Tomou-o pela mão (...).

Então o coração de Gilgamesh teve piedade,

Diz ao seu servo Enkidu:

"Ó Enkidu, deixa o pássaro cativo voltar para o seu lugar,

Deixa o homem cativo voltar ao seio de sua mãe".

Enkidu responde a Gilgamesh:

"O mais alto que não tem razão,

Namtar (demónio da morte) o devorará, Namtar que não conhece distinções.

Se o pássaro cativo voltar ao seu lugar,

Se o homem cativo voltar ao seio de sua mãe,

Tu não voltarás à cidade da mãe que te deu o ser".

Huwawa diz a Enkidu:

"De mim, ó Enkidu, tu disseste-lhe mal,

Ó homem vendido (...) tu disseste-lhe mal".

Quando ele assim falou,

Eles cortaram-lhe o pescoço;

Colocaram sobre ele (...)

Trouxeram-no perante Enlil e Ninlil (...).

 

 

Dissemos já que o Dilúvio consta de um conjunto de placas que inclui a tal Epopeia de Gilgamesh babilónica mas que essas placas, claro, não se limitam ao Dilúvio. Mais ainda, o episódio sumério acima abordado, do dragão, está também aí presente, na sua versão babilónica. Nos escritos sumérios, anteriores, o próprio Gilgamesh, conforme a linguagem da época, teria 2/3 de divindade e 1/3 de mortal. No entanto é o Gilgamesh ‘homem’ que predomina no poema babilónico – mais rico em pormenores - o qual resumimos agora: Gilgamesh, rei de Uruk, é um herói inquieto que não suporta rival, não se sujeita a disciplina. Oprime os súbditos e é um tirano exigente. Os de Uruk queixam-se aos deuses, pedem à deusa-mãe Aruru que ponha cobro a esta situação.

Ela modela do barro o poderoso Enkidu, nu e coberto de pelos, inocente de todas as relações humanas, e que viverá entre os animais selvagens da planície. Ele é mais animal que homem e é destinado a domar o carácter de Gilgamesh. Mas para já é preciso que o próprio Enkidu se humanize. Por uma relação com uma cortesã de Uruk, Enkidu perde o seu anterior aspecto e desenvolve-se espiritual e mentalmente. Come, bebe e veste-se civilizadamente.

Conhece Gilgamesh. Este organiza uma orgia mas é logo travado por Enkidu. Até lutam. Mas a cólera de Gilgamesh desaparece e os dois adversários abraçam-se. É o início de uma longa e lendária amizade. Gilgamesh confia-lhe então o projecto da ida ao ‘país dos cedros’, à floresta. Enkidu fala-lhe dos perigos. Partem após consultarem os anciãos de Uruk e o deus Shamash (o equivalente acadiano e babilónico ao sumério Utu, o deus do Sol). Após uma dura viagem matam o monstro Huwawa e cortam as árvores.

No regresso a Uruk, Ishtar (a deusa equivalente à Inanna suméria), deusa do amor e luxúria, apaixona-se por Gilgamesh. Gilgamesh já não é o tirano de outrora. No entanto repele-a. Sabe dos numerosos amantes dela. Ofendida, Ishtar tenta convencer Anu (An – o deus dos céus) a enviar o Touro Celeste contra Uruk para que mate Gilgamesh e destrua a cidade. Sob ameaça de Ishtar, Anu cede. Uruk é devastada. Gilgamesh e Enkidu resistem, lutam e matam o monstro. Estão agora no topo da glória. Uma felicidade curta. Enkidu é condenado pelos deuses a morrer, pela sua participação nas mortes do monstro Huwawa e do Touro Celeste. Gilgamesh vê a morte do amigo e vive obcecado de que venha a ter o mesmo destino. Fraca consolação eram a fama e a glória. Deseja agora alcançar a outra imortalidade, a do corpo. Busca desesperadamente o segredo da vida eterna.

 

A BUSCA DA IMORTALIDADE

O herói Gilgamesh decide então encontrar Ut-Napishtim, um sábio monarca que conseguira a imortalidade, e que reinara em Shuruppak, uma das cinco cidades capitais anteriores ao Dilúvio. Talvez ele lhe dê o segredo... Atravessa planícies e montanhas, defronta feras e fome. Atravessa o ‘mar primordial’ e as ‘águas da morte’. Extenuado mas orgulhoso, chegará por fim à presença de Ut-Napishtim.

A conversa é porém decepcionante. Ouve a história do terrível dilúvio e Ut-Napishtim conta-lhe como teria também perecido se não se tivesse abrigado no enorme navio que o grande deus da sabedoria Ea (o equivalente babilónico de Enki) o aconselhara a construir. Quanto à vida eterna, fora um dom que os deuses lhe entregaram. Contudo, em relação a ele, Gilgamesh, não sabia se havia algum deus disposto a conceder-lha... Quase a desesperar e a empreender o regresso a Uruk, a esperança volta quando a mulher de Ut-Napishtim lhe indica onde pode encontrar a planta da eterna juventude, que cresce no fundo do mar. Nas profundezas das águas recolhe-a e volta a Uruk. Só que, Gilgamesh, desafiara afinal a vontade dos deuses: uma serpente rouba-lhe a planta, enquanto ele se banha numa nascente. Desiludido e cansado, abriga-se no interior das muralhas de Uruk. Um dos mitos relatará mais tarde Gilgamesh como um dos "juízes do Inferno".

Em conclusão, pode-se retirar deste escrito e de outros já desenterrados que, para os babilónios, a deusa Aruru é a equivalente à deusa-mãe suméria Ninhursag ( também Ki, Nintu e Ninmah). Enlil, será o principal deus a condenar Enkidu. Os pais de Gilgamesh têm nomes sumérios, assim como o são os próprios nomes Enkidu e Gilgamesh. Existem versões dos mesmos textos em assírio, babilónio antigo e sumério. Vários dos episódios relatados têm antecedentes sumérios. Podem-se listar para já seis desses textos sumérios antecedentes:

Gilgamesh e a Terra dos Vivos

Gilgamesh e o Touro Celeste

O Dilúvio

A Morte de Gilgamesh

Gilgamesh e Agga de Kish

Gilgamesh, Enkidu e os Infernos

Gilgamesh e a Terra dos Vivos corresponde ao episódio da floresta dos cedros do Épico de Gilgamesh. O herói é acompanhado por Enkidu e tem a protecção do deus do Sol. No destino o monstro é morto e as árvores cortadas. Na versão babilónica só Enkidu o acompanha. Na dos sumérios, vai com 50 guerreiros. Aqui não há referência a um conselho dos antigos da cidade de Uruk como na versão semítico-babilónica.

Em Gilgamesh e o Touro Celeste, sumério, Inanna fala a Gilgamesh dos presentes que pode dar-lhe e adianta propostas de amor. Gilgamesh recusa e Inanna pede que An envie o Touro Celeste para destruir Uruk, mas o touro é derrotado. O poema sumério é mais curto que a posterior versão babilónica e em detalhe são diferentes, como no caso dos presentes oferecidos pela deusa.

O Dilúvio. Ocupará mais tarde este tema uma grande parte da 11ª placa (da Epopeia de Gilgamesh) na versão babilónica. O episódio sumério não está directamente ligado aos contos sumérios relativos a Gilgamesh. Faz antes parte de um poema centrado no mito da imortalização de Ziusudra, o equivalente ao Ut-Napishtim babilónico (e ao Noé bíblico), em que Gilgamesh procura o ‘segredo da vida eterna’. Os poetas babilónicos aproveitaram depois para aqui exporem a sua versão do mito do Dilúvio, e omitiriam a primeira parte do texto sumério que fala da Criação. Apenas retiveram a parte do Dilúvio a qual termina falando da imortalização de Ziusudra / Ut-Napishtim. Fazem dele mesmo o narrador. Na versão suméria, Ziusudra é piedoso, ao contrário de Ut-Napishtim. A versão babilónica dá mais pormenores sobre a construção do navio e pormenores da violência diluviana. Enquanto para os sumérios o cataclismo durou sete dias e sete noites, para os babilónicos a duração foi de seis dias e sete noites. O envio das aves só existe na versão babilónica.

A Morte de Gilgamesh. No conto sumério, Gilgamesh é informado de que o heroísmo lhe fora destinado mas não a imortalidade. É impossível para ele a vida eterna! É a morte e não a imortalidade o destino dos homens. A descrição suméria da própria morte de Gilgamesh não tem correspondência nas versões da Epopeia de Gilgamesh babilónica.

Gilgamesh e Agga. Não tem também equivalente este poema na época babilónica. Trata-se de um dos mais curtos épicos sumérios e só com personagens humanos. De alta importância histórica, com número significativo de factores relativos a lutas entre cidades-estado, pensamento político, e organização, revela a existência de extensas instituições democráticas em datas como 3.000 AC! Talvez daí a sua ausência nos escritos babilónicos. Falta contudo a este poema uma autêntica dimensão épica sobre-humana, heróica, sobrenatural.

Gilgamesh, Enkidu e os Infernos. No poema sumério, Enkidu não morre de facto, foi capturado e mantido pelo demónio Kur, o tal com forma de dragão e guarda do ‘mundo inferior’. A morte de Enkidu foi inventada pelos babilónicos para dramatizarem ainda mais a procura da imortalidade.

Resumindo, vários dos episódios da Epopeia de Gilgamesh derivam de protótipos sumérios e reflectem também fontes míticas e éticas sumérias, mas sem serem uma cópia servil.

A estrutura, a forma do relato babilónico, é no entanto muito própria, podendo ser considerada uma obra semítica. Isto é visível nas onze primeiras placas do Épico babilónico-semítico, apesar do plágio de fontes sumérias. Porém a 12ª placa não é mais que uma tradução em língua semítica acádica (babilónio ou assírio) da segunda metade do poema sumério Gilgamesh, Enkidu e os Infernos. Este relata a criação do universo e o combate de Enki com o monstro Kur. Inanna colhe uma árvore submersa na margem do Eufrates, que fora derrubada pelo vento sul. Trá-la para Uruk e planta-a no jardim sagrado. Iria mais tarde – pensava – fazer dela uma cadeira e uma cama para si. Anos volvidos Inanna não a pode cortar: a serpente ‘que não conhece o encanto’ fizera o ninho aos pés da árvore. No topo vivia o pássaro Imdugud. A meio, a demónio Lilith construíra a sua casa. A donzela Inanna chorava. Ao raiar da aurora lamenta-se ao irmão Utu. Gilgamesh, que ouvira o lamento, acorre em auxílio. Mata a serpente com o seu machado. Imdugud, o pássaro, foge assustado para a montanha. Lilith escapa-se também para locais remotos. Gilgamesh derruba a árvore e entrega-a a Inanna. Em vez de cadeira e cama, Inanna fabrica um tambor (pukku) e uma baqueta (mikku), mas parece tê-los deixado cair, tombar no Inferno. Gilgamesh tenta em vão recuperá-los. Enkidu, o servo de Gilgamesh, oferece-se então como voluntário para os resgatar aos Infernos. Gilgamesh adverte Enkidu dos vários perigos:

Gilgamesh, Enkidu e os Infernos

Gilgamesh diz a Enkidu:

"Se desceres agora ao mundo inferior,

Digo-te uma palavra, escuta-a,

Ofereço-te instruções, aceita as minhas instruções.

Não vistas roupas lavadas,

Que os servidores do mundo inferior aparecerão como um inimigo,

Não te unjas com o bom óleo da vasilha bur,

Que ao seu cheiro eles se aglomerarão à tua volta.

Não arremesses o dardo no mundo inferior,

Que aqueles que forem atingidos pelo dardo te cercarão,

Não leves na mão um bordão,

Que as sombras adejarão à tua volta.

Não ponhas sandálias nos pés,

Não grites no mundo inferior;

Não beijes a tua esposa amada,

Não batas na tua esposa odiada,

Não beijes o teu filho amado,

Não batas no teu filho odiado,

Porque a gritaria de Kur te atingirá,

A gritaria por aquela que está deitada, por aquela que está deitada,

Pela mãe de Ninazu, que está deitada,

Cujo corpo sagrado nenhuma roupa cobre,

Cujo seio sagrado nenhum tecido envolve".

 

Enkidu, descontraído, e apesar das advertências, é preso pelo monstro Kur e não conseguiu voltar à Terra. Gilgamesh vai à cidade de Nippur e apela aqui ao deus Enlil, tentando resgatar o servo, mas a ajuda é recusada:

"Ó pai Enlil, o meu pukku caiu no mundo inferior,

O meu mikku caiu no ‘rosto’ do mundo inferior,

Mandei Enkidu buscá-los, o Kur apanhou-o.

Namtar (o demónio da morte) não o apanhou, Asag (o demónio da doença) não o apanhou,

O Kur apanhou-o.

O embuscador de Nergal (que é a morte), que não poupa ninguém, apanhou-o.

O Kur apanhou-o.

Na batalha, o lugar dos actos valorosos, ele não caiu,

O Kur apanhou-o".

 

De Nippur, Gilgamesh dirige-se para Eridu onde pede a Enki que ordene ao deus do sol, Utu, que abra um buraco nos Infernos a fim de que a sombra de Enkidu possa retornar à Terra. Utu obedece e a sombra de Enkidu surge diante de Gilgamesh. Abraçam-se e Gilgamesh indaga Enkidu sobre o ‘mundo inferior’. Este relata como são tratados nas profundezas os servidores, as mulheres que foram mães, os mortos na guerra, os mortos de quem ninguém se ocupa na Terra.

 

 

A RESSURREIÇÃO

O mito bíblico da ressurreição pode ter igualmente, entre outras, origens ou influências sumérias. Na versão babilónica o conto base para um tal relato será "A Descida de Ishtar ao Inferno" (na imagem, a Porta de Ishtar, em Bagdad). Na mitologia suméria temos então "A Descida de Inanna ao Inferno". O Inferno, descrito como Kur, designa o abismo cósmico que separa a crosta terrestre do violento mar primordial inferior. É o equivalente ao Sheol bíblico e judaico, e ao Hades grego. O mar primordial para os babilónicos seria o Tiamat e para os hebreus o Tehom. Kur inicialmente poderia ter também significado ‘montanha’ mas passou a designar ‘país estrangeiro’. Chegava-se ao Kur após atravessar um ‘rio devorador de homens’, numa barca conduzida pelo ‘homem da barca’, equivalente isto ao rio Styx e ao barqueiro Caronte..

Enlil, o deus do ar, já o dissemos, foi em dada altura expulso de Nippur pelos outros deuses e atirado para o Inferno, após ter violentado a deusa Ninlil. Mas o Inferno era reservado essencialmente aos mortais. Há contudo trechos que falam sobre a queda de outras divindades. Um dos mais detalhados será o que relata a de Dumuzi, deus dos pastores e o mais célebre dos deuses mortais, Mas agora aqui, a personagem chave será até aquela que é tida por sua ‘esposa’, Inanna – a deusa do amor e da fertilidade (humana, animal e da vegetação). É estamos perante um poema mítico e um dos mais belos trechos sumérios já encontrados.

Inanna será equivalente à Vénus dos romanos, à Afrodite grega, à Ishtar babilónica. Ela era também apelidada de Rainha do Céu. O ‘esposo’ era Dumuzi, oTammuz bíblico: os prantos pela morte de Tammuz foram até classificados como uma abominação pelo profeta Ezequiel, na segunda metade do 1º milénio AC. Convém então explicar um pouco o cenário: já focámos um dos poemas em que Inanna é disputada por Dumuzi e por Enkimdu, o deus dos lavradores. Num outro texto, Dumuzi é o único pretendente. Ele chega defronte da casa de Inanna. Escorrem-lhe das mãos e dos flancos leite e nata. Berra pedindo que o deixem entrar. Após consultar a mãe, Inanna banha-se e unta o corpo, põe os seus vestidos de rainha, pedras precisoas, e abre-lhe a porta. Abraçam-se e Dumuzi, provavelmente, passa a viver com ela, leva-a para a ‘cidade do seu deus’.

O sonho é breve. O casamento acabaria por se tornar na perda de Dumuzi, que iria no final ser precipitado no Inferno. Dumuzi não contara com a ‘ambição de mulher’ dela. É pois tudo isto é relatado no célebre "A Descida de Inanna ao Inferno", famoso por incluir o tema da ressurreição. Ela, Inanna, é já a Senhora do Céu, domina o ‘Grande Superior’. Deseja aumentar o seu poder e governar ainda as regiões infernais, o ‘Grande Inferior’. Decide portanto descer a esse mundo inferior. Mune-se de todas as leis divinas apropriadas, adorna-se com os vestidos e as jóias de rainha e apresta-se a entrar no "país de onde não se regressa".

Ereshkigal, rainha do Inferno, deusa suméria da morte e da tristeza, é a sua irmã mais velha e pior inimiga. Receando pela própria vida, Inanna ordena ao seu mensageiro Ninshubur que se ao fim de três dias ela não estiver de volta das profundezas, vá avisar os deuses na sala de assembleias. De seguida, ele deverá ir até Nippur, avisar Enlil, para que ele a salve. Caso esta demarche falhe, então Ninshubur terá que ir a Ur, cidade de Nanna, deus da Lua, fazer o mesmo pedido. Por fim, a última possibilidade, é ir a Eridu, ter com Enki, o deus da sabedoria que "conhece o alimento da vida" que "conhece a água da vida", para que venha em socorro dela.

Inanna inicia a descida em direcção ao templo de Ereshkigal. Mas uma vez aí chegada é despojada das vestes e jóias e levada nua, de joelhos, perante a deusa da morte e os Anunnaki, designando eles aqui os sete juízes do Inferno. Matam-na com o olhar e penduram o cadáver num gancho. Ao fim de três dias, Ninshubur procura auxílio. Enlil e Nanna negam-se e só Enki atende o seu pedido. Fabrica dois seres assexuados que envia aos Infernos para resgatarem Inanna. Lançam então sobre ela o "alimento da vida" e a "água da vida". As peripécias não terminam: há uma lei neste "país do não-retorno" em que não há ninguém que possa voltar ao mundo sem que outro ocupe o seu lugar no Inferno.

Inanna volta então à Terra seguida por uma legião demoníaca vinda das profundezas. Não encontram em várias cidades quem a queira substituir e acaba por ser a divindade da cidade de Kullab que é enviada ao Inferno. Porquê? A tal divindade é precisamente Dumuzi, o esposo de Inanna, e ao contrário dos outros, não se prostrou com a aparição dela e dos demónios. Inanna fulmina-o com um "olhar de morte" e entrega-o para ser conduzido ao "mundo inferior". Dumuzi tenta ainda apelar ao deus do Sol, Utu, seu cunhado. Parece ter sido em vão, pois outros contos sumérios dão-no mais tarde como um deus dos infernos.

Na versão babilónica, posterior, a deusa tem o nome de Ishtar. Aqui, em vez de pretender mais poder, ela é tomada de piedade por todos os que já desceram ao abismo sem retorno. Tal como na versão suméria, apresenta-se aos infernos e é capturada. Entretanto na terra a sua ausência, a falta desta deusa do amor, faz-se sentir: homens e animais não se reproduzem mais. É então que por intervenção do deus da sabedoria Ea (Enki) é enviada uma criatura até à deusa dos infernos e após muitas peripécias Ishtar será libertada e o seu regresso à terra é celebrado.

 

A descida de Inanna ao Inferno

Do "Grande Superior" ela dirigiu o seu pensamento ao "Grande Inferior"

A deusa, do "Grande Superior" ela dirigiu o seu pensamento ao "Grande Inferior"

Inanna, do "Grande Superior" ela dirigiu o seu pensamento ao "Grande Inferior"

A minha senhora abandonou o Céu, abandonou a Terra,

Ao mundo inferior ela desceu,

Inanna abandonou o Céu, abandonou a Terra,

Ao mundo inferior ela desceu,

Abandonou o poder de rei, abandonou o poder de rainha,

Ao mundo inferior ela desceu.

As sete leis divinas, ela as uniu a um lado,

Juntou todas as leis divinas, tomou-as na mão,

Todas as leis, ela pô-las aos seus pés, que esperavam,

A shugurra, a coroa da planície, ela colocou-a sobre a cabeça,

Anéis de cabelo ela ajustou na testa,

A vara e a linha de medir de lápis-lazúli, ela as apertou na mão,

Pequenas pedras de lápis-lazúli ela cingiu ao pescoço,

Duas pedras nunuz gémeas ela atou ao peito,

Um anel de ouro apertou na mão,

O peitoral "Vem, homem, vem" atou ao peito,

Com o vestido pala de rainha cobriu seu corpo,

Com o unguento "Que ele venha", que ele venha" ungiu os seus olhos.

Inanna caminhou para o mundo inferior,

O seu vizir Ninshubur seguia a seu lado,

A pura Inanna diz para Ninshubur:

"Ó tu que és o meu apoio constante,

Meu vizir das palavras favoráveis,

Meu cavaleiro das palavras verdadeiras,

Estou descendo ao mundo inferior.

Quando eu tiver chegado ao mundo inferior,

Solta lamentações por mim, como nas ruínas,

Na sala de reunião dos deuses toca o tambor por mim,

Na casa dos deuses procura-me,

Abaixa os teus olhos por mim, abaixa a tua boca por mim,

Como um pedinte, um traje pobre veste por mim,

Para o Ekur, a casa de Enlil, sozinho dirige os teus passos.

Ao entrares no Ekur, a casa de Enlil,

Chora perante Enlil:

"Ó pai Enlil, que a tua filha não seja ferida de morte no mundo inferior,

Que o tem bom metal não se cubra da poeira do mundo inferior,

Que o teu bom lápis-lazúli não seja quebrado dentro da pedra do canteiro,

Que a caixa de madeira não seja entalhada dentro da madeira do lenhador,

Que a donzela Inanna não seja condenada à morte no mundo inferior".

Se Enlil se não puser do teu lado, segue para Ur.

Em Ur, ao entrares em casa, da terra,

O Ekishnugal, a casa de Nanna,

Chora perante Nanna:

"Ó pai Nanna, que a tua filha não (...) – repetição da estrofe anteriorrelativa "

Se Nanna não se puser do teu lado, segue para Eridu.

Em Eridu, ao entrares em casa de Enki,

Chora perante Enki:

"Ó pai Enki, que a tua filha não (...) – repetição da estrofe anterior relativa "

O pai Enki, senhor da sabedoria,

Que conhece o "alimento da vida", que conhece a "água da vida",

Certamente te trará à vida.

Inanna desceu ao mundo inferior,

Ao seu mensageiro Ninshubur ela diz:

"Vai, Ninshubur,

Não esqueças as ordens que te dei".

Quando Inanna chegou ao palácio, à montanha de lápis-lazúli,

À porta do mundo inferior, ela agiu temerariamente,

No palácio do mundo inferior ela falou temerariamente:

"Abre a casa, Neti, abre a casa, eu, sozinha, quero entrar".

Neti, o porteiro principal do mundo inferior,

Responde à pura Inanna:

"Diz-me, por favor, quem és!"

"Eu sou a rainha do Céu, o sítio onde nasce o Sol".

"Se é a rainha do Céu, o sítio onde nasce o Sol,

Diz-me porque vieste à terra donde não se volta!

À estrada cujo viajante não mais volta, porque te conduziu o teu coração?"

A pura Inanna responde-lhe:

"A minha irmã mais velha, Ereshkigal,

Por causa do seu marido, o senhor Gugalanna, que foi assassinado,

Para assistir aos ritos funerários,

(...), assim seja".

Neti, o porteiro principal do mundo inferior,

Entra em casa da sua rainha Ereshkigal e diz-lhe:

"Ó minha rainha, é uma donzela que, como um deus (...)

Às sete leis divinas (...) – repetição da terceira estrofe completa

(...)

Então Ereshkigal mordeu a sua coxa, estava cheia de ira,

E disse a Neti, o seu porteiro principal:

"Vem, Neti, porteiro principal do mundo inferior,

A ordem que eu te der, não a esqueças.

Levanta os ferrolhos das sete portas do mundo inferior,

Do seu único palácio, Ganzir, o "rosto" do mundo inferior, abre as portas.

Quando ela entrar,

Subjuga-a e que seja trazida nua à minha presença".

Neti, o porteiro principal do mundo inferior,

Escutou as palavras da sua rainha.

Levantou os ferrolhos das sete portas do mundo inferior,

Do seu único palácio, Ganzir, o "rosto" do mundo inferior, ele abriu as portas.

"Vem, Inanna, entra".

Quando ela entrou,

A shugurra, a "coroa da planície", da sua cabeça foi retirada,

"Por favor, que é isto?"

"Cala-te, Inanna, as leis do mundo inferior são perfeitas,

Ó Inanna, não desprezes os ritos do mundo inferior".

Quando ela entrou na segunda porta,

A vara e o fio de medir de lápis-lazúli foram-lhe retirados.

"Por favor, que é isto?"

"Cala-te, Inanna, as leis do mundo inferior são perfeitas,

Ó Inanna, não desprezes os ritos do mundo inferior".

Quando ela entrou na terceira porta,

As pequenas pedras de lápis-lazúli foram retiradas do seu pescoço.

(repetição idêntica às estrofes anteriores)

Quando ela entrou na quarta porta,

As pedras gémeas de nunuz foram retiradas do seu peito.

(repetição idêntica às estrofes anteriores)

Quando ela entrou na quinta porta,

O anel de ouro foi retirado da sua mão.

(repetição idêntica às estrofes anteriores)

Quando ela entrou na sexta porta,

O peitoral "Vem, homem, vem" foi retirado do seu peito.

(repetição idêntica às estrofes anteriores)

Quando ela entrou na sétima porta,

O vestuário pala da realeza foi retirado do seu corpo.

(repetição idêntica às estrofes anteriores)

Subjugada, foi trazida nua perante ela.

A pura Ereshkigal sentou-se no seu trono,

Os Anunnaki, os sete juízes, pronunciaram perante ela o seu julgamento,

Ela fixou o seu olhar sobre Inanna, o olhar da morte,

Disse contra ela a palavra, ä palavra da ira,

Pronunciou contra ela o grito, o grito da culpa,

A mulher doente tornou-se um cadáver,

O cadáver ficou pendurado num gancho.

Depois de terem passado três dias e três noites,

O seu vizir Ninshubur,

O seu vizir das palavras favoráveis,

O seu cavaleiro das palavras verdadeiras,

Soltou uma lamentação por ela, como (se faz) nas ruínas,

Tocou por ela o tambor na sala de reunião dos deuses,

Perguntou por ela na casa dos deuses,

Baixou por ela os olhos, baixou por ela a boca(...),

Como um pedinte, vestiu por ela um traje pobre,

Ao Ekur, a casa de Enlil, sozinho, dirigiu os seus passos.

Ao entrar no Ekur, a casa de Enlil,

Perante Enlil ele chora:

"Ó pai Enlil, que a tua filha não seja morta no mundo inferior,

Que o tem bom metal não se cubra da poeira do mundo inferior,

Que o teu bom lápis-lazúli não seja quebrado dentro da pedra do canteiro,

Que a caixa de madeira não seja destruída dentro da madeira do lenhador,

Que a donzela Inanna não seja morta no mundo inferior".

Como o pai Enlil não se pôs a seu lado, dirigiu-se a Ur.

Em Ur, ao entrar na casa da Terra,

O Ekishnugal, a casa de Nanna,

Perante Nanna ele chora:

"Ó pai Nanna, que a tua filha não seja morta no mundo inferior,

Que o tem bom metal não se cubra da poeira do mundo inferior,

Que o teu bom lápis-lazúli não seja quebrado dentro da pedra do canteiro,

Que a caixa de madeira não seja destruída dentro da madeira do lenhador,

Que a donzela Inanna não seja morta no mundo inferior".

Como o pai Nanna não se pôs a seu lado, partiu para Eridu.

Em Eridu, ao entrar na casa de Enki,

Perante Enki ele chora:

"Ó pai Enki, que a tua filha não seja morta no mundo inferior,

Que o tem bom metal não se cubra da poeira do mundo inferior,

Que o teu bom lápis-lazúli não seja quebrado dentro da pedra do canteiro,

Que a caixa de madeira não seja destruída dentro da madeira do lenhador,

Que a donzela Inanna não seja morta no mundo inferior".

O pai Enki responde a Ninshubur:

"O que aconteceu então a minha filha? Estou inquieto.

O que aconteceu então a Inanna? Estou inquieto.

O que aconteceu então à rainha de todas as terras? Estou inquieto.

O que aconteceu então à hierodula do Céu? Estou inquieto".

Ele tirou sujidade da sua unha e moldou o kurgarru

Ele tirou sujidade da sua unha pintada de vermelho e moldou o kalaturru

Ao kurgarru deu o "alimento da vida",

Ao kalaturru deu a "água da vida",

O pai Enki disse para kalaturru e kurgarru (...)

Eles – os deuses do mundo inferior - oferecer-vos-ão a água do rio, não a aceitem,

Oferecer-vos-ão o grão do campo, não o aceitem,

"Dá-nos o corpo pendurado do gancho", digam a ela, a Ereshkigal,

Um de vós derrame sobre ela o "alimento da vida", o outro a "água da vida",

Então Inanna erguer-se-á".

- O kurgarru e o kalaturru cumprem as ordens

Eles oferecem-lhes a água do rio, eles não a aceitam,

Eles oferecem-lhes o grão do campo, eles não o aceitam,

"Dá-nos o corpo pendurado do gancho", dizem a ela.

A pura Ereshkigal responde ao kalaturru e ao kurgarru:

"O corpo é o da vossa rainha".

"Apesar de o corpo ser o da nossa rainha, dá-no-lo", disseram-lhe.

Eles dão-lhes o corpo pendurado do gancho,

Um derramou sobre ela o "alimento da vida", o outro a "água da vida".

Inanna ergueu-se.

Inanna está quase a ascender do mundo inferior,

Os Anunnaki agarram-na dizendo:

"Aquele que tenha descido ao mundo inferior jamais subirá ileso do mundo inferior!

Se Inanna ascender do mundo inferior,

Que dê alguém em sua substituição".

Inanna ascende do mundo inferior,

Os pequenos demónios como canas shukur,

Os grandes demónios como canas dubban,

Puseram-se ao lado dela.

O que estava na sua frente, apesar de não ser um vizir, segurava na mão um ceptro,

O que estava a seu lado, apesar de não ser um cavaleiro, tinha uma arma cingida à cintura.

Os que a acompanhavam,

Os que acompanhavam Inanna,

Eram seres que não conheciam alimento, que não conheciam a água,

Não comiam farinha espalhada,

Não bebiam água derramada,

Roubavam a mulher do regaço do homem,

Roubavam a criança do seio da ama.

Inanna foi às cidades de Umma e de Bad-Tibira, mas aí as divindades protectoras prosternam-se ante ela e assim salvam-se das garras dos demónios. Então vai à cidade de Kullab, cuja divindade é precisamente Dumuzi, o seu esposo:

Dumuzi vestiu um traje nobre, sentou-se no seu assento,

Os demónios agarraram-no pelas coxas...

Os sete demónios largaram-se sobre ele como se se dirigissem a um doente,

Os pastores não tocaram a flauta e a gaita perante ele.

Ela – Inanna – fixou o olhar sobre ele, o olhar da morte,

Pronunciou contra ele a palavra, a palavra da ira,

Soltou contra ele o grito, o grito da culpa:

"Quanto a ele, levem-no".

A pura Inanna entregou-lhes o pastor Dumuzi.

Os que o acompanhavam,

Os que acompanhavam Dumuzi,

Eram seres que não conheciam o alimento, que não conheciam a água,

Não comiam farinha espalhada,

Não bebiam água derramada,

Não se acolhiam com prazer no regaço da mulher,

Não beijavam crianças bem alimentadas,

Arrancavam o filho do homem de seus joelhos,

Levavam a enteada de casa do padrasto.

Dumuzi chorou, seu rosto tornou-se verde,

Para o Céu, para Utu – deus do Sol – ergueu a mão:

"Ó Utu, tu és o irmão de minha mulher, eu sou o marido de tua irmã,

Eu sou aquele que traz a nata a casa de tua mãe,

Eu sou aquele que traz o leite a casa de Ningal,

Transforma a minha mão na mão duma cobra (de um dragão),

Transforma o meu pé no pé de uma cobra (de um dragão),

Que eu escape aos meus demónios, que eles não me apanhem".

 

A IMPORTÂNCIA DA MITOLOGIA SUMÉRIA

A mitologia dos sumérios vem a reflectir-se em eras muito para além desse povo. A adoração a certas das divindades foi mesmo a raíz de cultos que prosseguiram até dentro da própria era Cristã e que enformam ainda hoje parte do imaginário religioso. Temos exemplos principalmente com as figuras das deusas-mãe ou da fecundidade, como sejam Ninhursag, e os símbolos associados: A espiga (Estela – Spiga – Spica) é uma das imagens ligadas às deusas virgens.

A constelação da Virgem era tida na Babilónia e no antigo Egipto como simbolizando a "Grande Mãe". A sua representação exibia na mão uma espiga, símbolo da abundância, fecundidade. A estrela principal da constelação da Virgem é precisamente a Spica (Espiga). Mais tarde este símbolo é também identificado com a deusa Astarte (ou Aster). Entre os babilónios a Virgem – constelação – era enormemente venerada. Confundir-se-á ainda com Ishtar, mãe-suprema e rainha das colheitas, com a deusa Ísis, a hindú Laksmi, a Cíbele da Ásia Menor, a Tanit cartaginesa, a asteca Tetlo-Inau e a inca Mamahanan.

Mas a deusa Astarte foi por outro lado conotada ainda com o planeta Vénus – tal como o havia sido já a deusa suméria Inanna – e Aster significava "Estrela da Manhã" uma das denominações deste planeta. Ninhursag, a grande deusa-mãe suméria, a mãe-da-terra, chamou-se igualmente "a pura Senhora". De notar que a pomba, associada por vezes ao Espírito Santo ou à Nossa Senhora cristã, figurava também já em representações de Ninhursag – "a Senhora da Montanha" – nos seus altos santuários. Em Creta, a deusa-mãe era personificada pela árvore sagrada e por uma coluna que ligava Céu-Terra-‘regiões inferiores’: a árvore (vegetação) – como símbolo da renovação anual da Natureza (da Ressurreição) e a coluna a efectuar uma representação idêntica à dos zigurates babilónicos na ligação entre os diversos níveis do Universo. Em Espanha a Nossa Senhora del Pilar é associada a uma coluna e em Portugal refira-se a coincidência da ligação de Nª Srª. de Fátima a uma árvore, a azinheira. Em Portugal ainda, a Virgem Maria veio substituir nalguns locais o antigo culto a Ísis, como aconteceu em certas ermidas próximo de Braga.

 

O CULTO A NINHURSAG/INANNA – ISHTAR - ASHTART - ASHERAH

A adoração a esta deusa foi uma das mais importantes, desde a Índia, Pérsia, Ásia Ocidental e Médio Oriente a toda a bacia mediterrânica, e abrange eras históricas desde os antigos sumérios até à época cristã. A designação Asherah (usada entre canaanitas e hebreus) – referia-se também à coluna sagrada enterrada no recinto de um santuário, ou ao pequeno pão que já funcionava como hóstia e com a forma desta divindade pois sabe-se que todo um cerimonial de comunhão era já efectuado na adoração a Asherah onde as pequenas carcaças de pão eram abençoadas e comidas durante os rituais.

Como Ashtart ou Ishtar – ela é o nome de uma divindade babilónica e semita correspondente à anterior deusa suméria Inanna, e conhecida também na mitologia grega como Astarté. Mas ela chega à designação de Asherah canaanita e hebraica também como descendente da Ninhursag suméria. Encorpora assim entre os hebreus e não só os papéis que no tempo sumério eram divididos entre duas divindades, a maternal Ninhursag e a Inanna ligada ao amor e à fecundidade.

No tempo do babilónico Hamurábi a sua importância era tal que o nome de Ashtart era genericamente sinónimo de deusa. Filha de Sin – o deus da Lua - era a irmã gémea de Shamash (o Sol, correspondente ao sumério Utu). Tinha como irmã mais velha a deusa dos Infernos, Ereshkigal. Ashtart, deusa da Guerra para os Assírios, foi a parceira do seu deus nacional Assur. Em Uruk, na Suméria, havia sido venerada como deusa do Amor, onde lhe prestavam cultos licenciosos. Foi considerada posteriormente como parceira de An – o rei dos deuses, ou deus do Céu, equivalente ao Anu acádico e babilónico. Inicialmente, ela era a ‘esposa’ de Dumuzi, o deus dos pastores. O seu culto abrangeu, como se disse, todo o antigo Oriente e seria severamente criticado pelos profetas do Velho Testamento. Esta deusa está presente em muitos dos importantes mitos babilónicos:

No Épico de Gilgamesh babilónico, foi uma cortesã de Uruk, sacerdotisa de Ashtart (Inanna), que ‘civilizou’ Enkidu, o servo de Gilgamesh. A deusa não consegue depois seduzir Gilgamesh que recusa tornar-se seu amante. Ashtart obtém então de seu pai (?) o envio de um ‘touro’ celeste mais forte que 300 homens, para lutar contra os dois heróis. O touro é abatido e Enkidu lança perante Ashtart a coxa do monstro. Devido a esta ofensa, Enkidu tem que morrer.

Na Descida de Ashtart aos Infernos – a versão babilónica - ela, tomada de piedade pelos que vivem no ‘país do não-retorno’, chega aos Infernos mas é feita prisioneira. Na terra, a sua ausência faz-se sentir. Homens e animais deixam de se reproduzir. Por intervenção do deus da sabedoria Ea (Enki para os sumérios), um ser efeminado é enviado até à deusa dos Infernos e após diversas peripécias Ashtart é libertada e o seu regresso à terra é celebrado. Na versão suméria não é por piedade mas pelo desejo de poder, de querer controlar igualmente o ‘mundo inferior’ que ela, Inanna, baixa aos Infernos.

 

Na Ascensão de Ashtart – apaixonado pela sua ‘filha’ (ela já era afinal filha de Sin-Nanna, deus da Lua, por sua vez filho de Enlil, deus da atmosfera, por sua vez filho de An!) o deus do Céu, Anu (ou An), obtém dos outros deuses permissão para que Ashtart se torne sua esposa e sua igual. Solenemente é entronizada como Rainha dos Céus. Pode-se dizer que em geral Ashtart foi a personalização da fecundidade em toda a Ásia ocidental, deusa da maternidade e da fertilidade, e deusa-mãe. Parece pois que com o tempo ‘usurpou’ ainda o anterior papel reservado a Ninhursag. O seu culto é atestado em numerosas inscrições descobertas. Para os gregos ela era a Afrodite. Ela é também a grande deusa síria citada por Luciano em De Dea Syria. Foi adorada também pelos fenícios, sobretudo em Sídon. A Bíblia qualifica-a de deusa sidoniana, e os reis e rainhas da cidade eram dela sacerdotes e sacerdotisas. Mas é na condição de consorte de Yahwé – Jeová - (Deus) representado pelas letras YHWH que passará para os cultos hebraicos, integrando uma "Sagrada Família" inicial: Y (ou El) – o "pai"; H (ou Asherah) – a "mãe"; W (ou He) – o "filho"; e H (ou Anath) – a "filha".

 

O "FIM" DA SUMÉRIA

Como findou então a Suméria, berço de tantos mitos e conhecimento, como terminou toda esta civilização? Sofreu provavelmente do mesmo fenómeno de erosão, idêntico aos que as hordas sumérias já haviam provocado antes: invasões de novos "bárbaros". Entre muitas, há uma placa com as inscrições apresentadas por um sábio sumério, interpretando as causas de um acontecimento histórico que terá sido catastrófico para toda a Suméria e principalmente para a poderosa cidade de Agade (Acade).

 

No século que se iniciou em 2.300 AC surge na Mesopotâmia um conquistador e soberano semita, Sargão. Após tomar as principais cidades – Kisit, no norte, e Uruk, no sul, Sargão torna-se momentaneamente o senhor de uma vasta zona em todo o Próximo Oriente, incluindo partes do Egipto e Etiópia. A sua capital foi a tal cidade de Agade, no norte da Suméria. No reinado de Sargão e nos dos seus sucessores imediatos, Agade transforma-se assim na cidade mais poderosa e próspera da Suméria. Porém, esta ascensão será quebrada em menos de um século por uma invasão de hordas bárbaras, os Guti, vindos das montanhas do leste. A sua entrada foi devastadora. Os sábios sumérios, impressionados, procuravam uma explicação para toda esta sequência humilhante e desastrosa.

O autor do texto "A Maldição de Agade: O Ekur Vingado" fala da destruição de Agade e segundo ele e os cidadãos de Nippur, a resposta para o sucedido era a seguinte: Naram-Sin (na gravura em baixo), o quarto rei da dinastia de Agade, saqueou Nippur e cometeu enormes sacrilégios contra o Ekur – o santuário do deus Enlil. Este dirigiu-se aos Guti – os bárbaros – e trá-los das montanhas para destruírem Agade e vingarem o templo. Oito divindades, para acalmarem Enlil, lançam sobre Agade a maldição de que ficaria para sempre desolada e desabitada. E isto foi o que de facto sucedeu, segundo o autor.

Nos primeiros versos é feito o contraste da ascensão, glória e poder anterior de Agade, com a desolação que existe depois na sua queda. Prossegue, relatando a entrega a Sargão, rei de Agade, por Enlil, das ‘terras superiores e inferiores’, e de como Enlil enviou o ‘Touro do Céu’ para reduzir a poeira a casa de Uruk. Este mesmo texto fala ainda de Inanna como uma das protectoras da rica Agade, e de como depois, Naram-Sin, o tal quarto soberano da dinastia de Agade, no meio de toda a felicidade conferida, e dos tributos recebidos, vê as portas da sua cidade capital arrombadas e por terra. A santa Inanna deixa até de tocar nas oferendas que lhe dispensam. O seu templo, Ulmash, ela deixa-o abandonado. É ela também que se volta agora contra Agade. "Em menos de cinco dias, em menos de dez dias, a soberania e a realeza debandam da capital. Naram-Sin acaba vestido em serapilheira". Porquê este desastre? Naram-Sin durante sete anos de consolidação política agira contra Enlil. Deixara os soldados saquear o Ekur, o santuário de Enlil, em Nippur.

O templo em Nippur estava destruído, bem como essa cidade, e os vasos sagrados profanados. O bom senso anterior de Agade transformara-se em loucura. Enlil reage à destruição e das montanhas faz descer os bárbaros Guti, um povo que não tolera nenhuma autoridade: "cobriram a terra da Suméria como gafanhotos". Foi o caos e depois a fome. Não havia comunicações. A miséria total ameaçava mesmo submergir "toda a humanidade criada por Enlil". É então que oito das divindades do panteão sumério decidem que é tempo de começar a aplacar a fúria de Enlil: são elas Enki, Inanna, Sin, Ninurta, Utu, Ishkur, Nusku e Nidaba. Prometem a destruição de Agade, a cidade que destruiu Nippur. As oito divindades voltam os seus rostos para Agade e proferem-lhe uma maldição de destruição. Findada a era áurea da civilização Suméria e o período acadiano, temos um breve renascer neo-sumério. Será de curta duração. A implantação forte de novos povos semitas, nomeadamente os Amorritas, irá dar início a outra grande etapa, a civilização babilónica, da qual os célebres Jardins Suspensos, uma das sete maravilhas do mundo são apenas uma das marcas.

 

 

 

 

 

A Maldição de Destruição contra Agade

"Cidade, tu que ousaste assaltar o Ekur, que desgostaste Enlil,

Agade, tu que ousaste assaltar o Ekur, que desgostaste Enlil,

Possam as tuas alamedas ser amontoadas como pó, (...)

Possa o teu barro (tijolos) voltar às suas profundezas,

Possam eles tornar-se barro (tijolos) amaldiçoados por Enki,

Possam as tuas árvores voltar para as suas florestas,

Possam elas tornar-se árvores amaldiçoadas por Ninildu.

Em lugar dos bois sacrificados, que sejam sacrificadas as vossas esposas,

Elm lugar dos carneiros degolados, que sejam degolados os vossos filhos,

Que os vossos pobres sejam forçados a afogar os seus preciosos filhos,

Agade, que o teu palácio construído de coração alegre seja transformado em ruínas deprimente,

Nos lugares onde os ritos e rituais foram executados,

Que a raposa que habita as muralhas arruinadas possa arrastar a sua cauda,

Que nos teus caminhos de reboque de barcos não cresçam mais do que ervas más,

Que nos teus caminhos de carros apenas cresça a "planta que se lamenta",

Mais ainda, que nos teus caminhos de reboque de barcos e nos embarcadouros,

Nenhum ser humano possa andar por causa das cabras selvagens, bicharia, cobras

e escorpiões da montanha,

Que nas tuas planícies onde cresciam as plantas agradáveis ao coração

Nada mais cresça do que "juncos de lágrimas",

Agade, que em lugar da tua água doce a deslizar corra água amarga,

Aquele que diz "eu gostaria de morar naquela cidade" não encontrará um bom lugar para morar,

Aquele que diz "eu gostaria de repousar em Agade" não encontrará um bom lugar para dormir".

Parece ter sido isso que efectivamente sucedeu, conforme conclui o relato:

Nos caminhos de reboque de barcos só crescem ervas más,

Nas estradas de carros só cresce a "planta que se lamenta",

Além disso, nos caminhos de reboque de barcos e nos embarcadouros

Nenhum ser humano caminha por causa das cabras selvagens, bicharia, cobras

e escorpiões da montanha,

Nas planícies onde cresciam as plantas agradáveis ao coração só crescem "juncos de lágrimas",

Em Agade, em vez da sua água doce a deslizar, corre a água amarga,

Aquele que disse "eu gostaria de morar naquela cidade" não encontrou um bom lugar para morar,

Aquele que disse "eu gostaria de repousar em Agade" não encontrou um bom lugar para dormir.

 

Paulo Oliveira,

Novembro 1999

 

BIBLIOGRAFIA

Obras consultadas:

A História começa na Suméria (From the tablets of Sumer), Samuel Noah Kramer; a maior parte das

transcrições de poemas foi retirada deste livro.

Algumas das imagens foram extraídas da obra supracitada e dos livros:

Tesouros do Museu de Bagdad, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O Vale dos Reis, Otto Neubert

Intervenção Extraterrestre em Fátima

Enciclopédia Grand Larousse

Pesquisa na Internet:

http://www.geocities.com/Wellesley/8347/goddess.html (Earliest/Graeco-Roman) –

Egyptian/Asian/Pacific/African/European – Early Judaco-Christian/Gnostic/Mary Magdalen

http://www.teenwitch.com/DEITY/HEBREW/ASHERAH.HTM

http://www.sonic.net/~ric/otters/godtree.htm

 

 

 

APÊNDICE A - VESTÍGIOS DO DILÚVIO BÍBLICO NO MAR NEGRO

Um artigo do jornal International Herald Tribune de 19 de Novembro de 1999 noticiava que cientistas descobriram os vestígios de uma antiga linha costeira existente a 170 metros de profundidade no Mar Negro. O novo achado vem demonstrar a evidência de uma enchente de proporções catastróficas ocorrida há cerca de 7.500 anos, sendo essa possivelmente a origem da história da Arca de Noé relatada no Antigo Testamento. Uma equipa de mergulhadores acaba de revelar as primeiras imagens de sonar captadas este verão a 550 pés de profundidade, mostrando uma berma suave e língua de areia que estarão intocadas há milhares de anos. As técnicas de datação pelo Carbono radioactivo (C14) usadas confirmam que os restos de moluscos de água doce encontrados nessa ‘praias’ têm 7.500 anos e que as espécies de água salgada mais antiga mostram ter apenas 6.900 anos. Isso indicaria a ocorrência de uma cheia imensa nesse intervalo de 600 anos, a qual seria parte do tal acontecimento bíblico diluviano.

As novas descobertas poderão dar força a uma teoria de que o Mar Negro foi criado a partir da fusão glaciar, mas que essa mesma fusão posteriormente veio fazer também subir o nível oceânico de forma a ultrapassar a barreira natural – o actual estreito de Bósforo – que separa o Mediterrâneo do Mar Negro. Seguiu-se então uma inundação apocalíptica de toda essa região, desse extenso mar interior de água doce, submergindo igualmente milhares de quilómetros quadrados de terra seca, e alterando o ecossistema – de água doce para salgada – quase de um dia para o outro, matando milhares de pessoas e biliões de criaturas marinhas e terrestres. Esta teoria – A Enchente de Noé – também título de um livro, é baseada em mais de trinta anos de pesquisas por dois cientistas geólogos da Universidade de Columbia, EUA. Os modelos por eles desenvolvidos vêm-se agora suportados com as imagens de sonar recentemente captadas.

Um outro aspecto decorrente do fenómeno terá sido o despoletar de migrações em massa para destinos tão variados como o Egipto, Europa Ocidental e Ásia Central. Há porém ainda interrogações se se poderá fazer corresponder, identificar um único desastre, como sendo a inspiração para a história da Arca de Noé. Modernos analistas olham para a história de Noé como mítica: "há outras histórias de inundações gigantescas mas se quisermos dizer que este cataclismo foi o de Noé, quem existe para negá-lo?".

Os analistas bíblicos consideram hoje que a escrita do livro do Génesis – onde é citada a história de Noé – terá ocorrido algures entre 900 e 400 anos antes de Cristo mas que um acontecimento similar era já reportado no mito da Mesopotâmia "A Epopeia de Gilgamesh", elaborado há mais de 3.600 anos (1.600 anos antes de Cristo) , e esta epopeia tem até raízes muito mais antigas, qualquer coisa como 3.000 anos AC, datando do tempo dos sumérios.

Embora não haja uma prova directa pelos dois cientistas de que a inundação do Mar Negro inspirou "Gilgamesh" ou "Noé", decerto que um acontecimento catastrófico ocorreu, e de modo a influenciar a memória dos escribas ao longo de milénios. Ainda sem terem conhecimento das imagens de sonar e da sua datação, os dois académicos já haviam estimado a sua ocorrência há 7.600 anos e com uma antiga profundidade de linha costeira quase idêntica à agora detectada. As recentes pesquisas ocorreram na margem sul do Mar Negro, não longe do porto turco de Sinop.

 

 

GLOSSÁRIO

 

 

 

 

 

Em relação à mitologia hebraica, note-se uma sistematização à volta do número sete, como já eram sete os deuses principais sumérios: 7 pastores (Aaron, Moisés, Abraão, David, Isaac, Jacob e José) e 7 arcanjos, equivalentes prováveis dos deuses antigos – Gabriel (água), Hanael, Khamael, Michael (fogo), Rafael (ar), Tzadkiel, Auriel (Terra), e outros dois a considerar quase no mesmo plano, Tzaphkiel e Ratziel.